Os intelectuais contra a Democracia

Especial para O Estado de S. Paulo

Paulo Ghiraldelli Jr

21 de setembro de 2006

Noam Chomsky e outros intelectuais criados com o cérebro banhado no esquema simplório do maniqueísmo da guerra fria estão em busca de uma “revolução mundial”. Dizem lutar contra o “imperialismo”, mas querem combatê-lo sem democracia. Na prática, dão apoio a todo movimento que mova ódio contra a democracia, inclusive os grupos que exalam o odor do fascismo, como o Hamas e o Hezbollah. No Brasil, querem ver no poder central o programa estatizante e arcaico de Heloísa Helena (PSOL). Queriam o PT, no passado, mas agora desistiram. E não desistiram do PT por causa da corrupção, e sim pelo fato de este não satisfazer seus ideais de criar um mundo que eles não sabem o que deve ser, mas que eu sei bem o que é: um mundo onde o último valor a ser considerado é o da liberdade individual.

E os intelectuais daqui, do Brasil, onde estão? Um grupo de intelectuais (e artistas), comandado por “Frei” Betto – que, sem nenhum pudor, disse que vota em Lula porque este “não se corrompeu” -, resolveu recentemente fazer um manifesto de apoio ao PT. Uma boa parte deles deixou o cérebro na gaveta e preferiu agir na condição de funcionário de universidade estatal ou de dependente de órgão de fomento à pesquisa, controlado pelo governo federal. Outros, que estão livres disso, esperam ansiosos e excitados a perda da liberdade: viram as pesquisas eleitorais e se bandearam para as filas dos mensaleiros. Mais parecem querer um emprego no próximo governo. Uma parte deles é – pasmem – de professores de Ética. Sim! Ética! Mas há também, nesse bolo, professores de História. Como pode um professor de História apagar um ano da nossa História, o ano de 2005? Há psicanalistas também? Sim! E isso nem Freud explica!

Parece que só agora estou conseguindo entender a razão por que esses intelectuais, que se apresentavam como amantes da democracia, entraram em crise pessoal no final dos anos 1980 e início dos anos 1990, quando do desmantelamento do império comunista e do fim da União Soviética (URSS). Esse pessoal, no fundo, tinha lá uma simpatia pelo totalitarismo. É fácil ver isso se olharmos para o que ocorreu e ocorre nas universidades estatais brasileiras.

Zélia Cardoso de Mello, quando quis voltar para sua cadeira na universidade, foi barrada por alunos num ato que pouco tinha que ver com uma manifestação democrática. Celso Lafer, quando ficou no governo Fernando Collor para efetuar a transição para o governo Itamar Franco, foi hostilizado por alunos universitários em manifestação que não foi tão diferente da que sofreu Zélia. Essas patrulhas ideológicas – minirréplica das SS de Hitler – agora funcionam a favor dos que ficaram e abaixaram a cabeça para Lula. A idéia desse tipo de movimento de estudantes é a mesma da de Chomsky: vamos lutar contra os que não falaram mal do “imperialismo” e vamos proteger os que se dizem contra tal coisa, mas que se dane a democracia. Aliás, como mostrou este jornal, essa é a regra do próprio Lula em campanha. Ele mesmo tem dito que não podemos imaginar a democracia como uma “coisa limpa”. Como é que um presidente da República, em plena campanha eleitoral, pode dizer isso e, assim mesmo, ser idolatrado por intelectuais famosos, que estão na mídia?

Eis aí a universidade estatal brasileira: as pessoas que fazem manifesto de apoio ao governante cujo partido comprou o Congresso Nacional e cometeu um crime contra a democracia possuem guarda pessoal. Criam barreiras estudantis para protegê-las na universidade. A prova disso é que podem voltar para a sala de aula em condição altiva, inclusive impondo suas idéias, mesmo traindo a Nação e todos os ideais de democracia e ética. Como pudemos chegar a tal situação? Como poderemos deixar nossos filhos nas mãos dessa gente, na universidade? Como poderemos formar professores para educar nossos netos, se os futuros professores vão ser formados por esse tipo de gente? Como esperar que nossos filhos e netos tenham amor à democracia, pela qual tanto lutamos, se eles vão ser educados – em sala de aula e em livros – por esses professores universitários que mostram claramente que podem ficar do lado do partido e do presidente que fez o que fez com o Congresso Nacional?

Lula tem anunciado seu incentivo à ampliação da rede de ensino universitário estatal. É claro que nisso há muito de propaganda e maquiagem. Mas há, de fato, essa ampliação – em quantidade, e não em qualidade de ensino. Denunciei isso aqui, no Estadão, em artigo passado, aliás, em apoio aos bons editoriais deste jornal que reclamam da qualidade do ensino. Por outro lado, Lula joga nosso dinheiro na manutenção da universidade particular, por meio de mecanismos de compra de bolsas. Com essas duas atitudes, Lula derruba a velha tese de que o governante que quer dominar a consciência popular não investe na educação. Mentira. Ele pode investir na educação e dominar ainda mais a consciência popular, pois tem o controle de uma parcela não diminuta de professores universitários influentes.

Isso pode mudar? É difícil. No futuro, dado o mecanismo de que a universidade estatal dispõe para repor os seus quadros, que é o concurso em que pares julgam pares, é difícil imaginar uma mudança de mentalidade. E a universidade particular imita a estatal no que ela tem de pior. Lula ou outro político igual a ele poderá ter mais domínio ainda sobre os intelectuais que têm acesso à mídia, se estes são professores. Por isso, avalio, não vai ser fácil se manter na trincheira democrática contra esse aparato de guerra que Lula e esses intelectuais doutrinadores estão montando.

© 2006 Paulo Ghiraldelli Jr. , filósofo