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METAFÍSICA E UTOPIA NÃO DEVEM SER CONFUNDIDAS

Não é difícil encontrar noções completamente erradas de metafísica, não raro confundindo-a com utopia. Eis o errado, que vive aparecendo na boca de gente que diz ter estudado filosofia: a metafisica diz respeito a algo que não existiria “na realidade”, ao menos na chamada realidade empírica, e assim seria, como a utopia, uma espécie de reino de perfeição irreal.

Nada disso! A metafísica tem a ver com o ponto de partida de uma investigação. A utopia, caso ela pudesse se realizar, estaria no ponto de chegada de uma conquista política. A metafísica é um campo da filosofia em que se busca um ponto básico, efetivamente real, cujo enunciado que lhe diz respeito é uma verdade que não pode ser negada. O saber sobre essa realidade põe-se como fundamento de outros saberes. Aliás, nesse caso, trata-se de um saber especialíssimo, pois em princípio essa realidade seria irrelativa. A utopia, por sua vez, é uma construção deliberada, em geral criada como literatura, em que uma situação – cidade, vida, educação etc., – se mostra como algo perfeito. Sua perfeição é expressa por uma situação que é meticulosa e também ousada, garantindo assim sua não exequibilidade.

Platão fez metafísica e utopia. Na metafísica, criou um sistema dual, segundo o que há dois campos de elementos, uns elementos que dizem respeito à afecção dos sentidos e outros elementos que dizem respeito à afecção do intelecto. Quando enunciamos a beleza observada pela visão de uma jovem, temos de admitir que a tal beleza, só foi chamada por nós de beleza por conta de existência real de algo plenamente belo, o belo em si – que deve afetar o intelecto – e que não perece pela ação do tempo e nem muda pela localização no espaço, e que garante (ou fundamenta) a beleza que se apresenta na jovem. Essa beleza alheia ao sentidos, a ideia do belo, é a própria causa da beleza, que nada é senão uma cópia imperfeita do belo em si. Esse discurso diz respeito à ontologia, ou seja, à mobília do mundo.

A utopia é diferente. Uma cidade utópica não diz respeito à ontologia, não é parte da exposição da mobília do mundo. Diz respeito ao sonho, à imaginação, a busca por um elemento que, ao se apresentar diante do seu correspondente no mundo real e efetivo, deixa entrever tantos detalhes, que seria impossível na vida real construir algo tão minucioso. às vezes idiossincrático. A utopia serve, então, para, uma vez colocada diante do real, mostrar o que seriam os erros do real, e submete-lo à exigência de mudança. A função da utopia é inerentemente crítica. Uma cidade utópica – como a que Sócrates expõe no livro A República – é posta ao lado das cidades reais exatamente para mostrar o quanto a realidade é disfuncional perante o ideal, ao menos segundo alguns aspectos em relação aos quais se quer enfatizar para mudar.

A cidade utópica do Platão, que funciona perfeitamente e, por isso, é uma cidade justa, que não causa infortúnio entre seus habitantes, é posta na literatura filosófica como uma imagem que deve ajudar as cidades reais a corrigirem suas rotas. A metafísica do mundo sensível e do mundo inteligível, por sua vez, garante que as ideias se ponham na viabilização de cada coisa existente, como cópia relativamente perfeita, no mundo sensível, daquilo que são as ideias presentes em um mundo atinente ao intelecto. A justiça que seria exercida na cidade utópica justa só é possível de ser de fato justa, garantindo o êxito da utopia, porque há a ideia de justiça, a justiça em si, garantindo a produção de cada ato justo na cidade. Metafísica da justiça e cidade justa utópica aparecem para o filósofo por meio de treinamento filosófico; o filósofo pode começar a querer vislumbrar o que é perfeito e perene, e busca o que o deixará apto a avaliar melhor os elementos terrenos que são cópias imperfeitas da modelagem paradigmática da perfeição.

A metafísica fundamenta o discurso. A utopia põe certos discursos no plano da busca pela perfeição. A metafísica ensina que o perfeito nos ilumina no nosso contato com o mundo todo empírico, que é imperfeito. A utopia ensina que o perfeito está no horizonte, não na base do discurso, e que busca com sua perfeição constranger o existente. A metafísica proporciona uma linha reta para o pensamento. A utopia procura desentortar as linhas tortas que estão vigentes no mundo efetivo.

Uma cidade metafísica é uma cidade cuja realidade está além da sensação, ela nos é dada pelo nosso intelecto, em um duro esforço da razão, e se apresenta como uma cidade perfeita. É uma cidade funcional na sua justiça, que é nutrida pela justiça em si. Uma cidade utópica, é uma cidade perfeita, mas que não é funcional. Ela é necessariamente não funcional de modo a fazer o homem apenas corrigir rotas da sua cidade, sem querer destruí-la de uma vez para gerar uma sociedade perfeita na prática.

A ideia metafísica não é possível de ser imaginada, ela é obtida pelo logos em um esforço junto ao trabalho da abstinência da sensório. A utopia é não só possível de ser imaginada, mas é algo que tenta o homens a saírem em busca de sua confecção.

Paulo Ghiraldelli, filósofo, professor, escritor e jornalista

6 comentários em “METAFÍSICA E UTOPIA NÃO DEVEM SER CONFUNDIDAS”

  1. O Paulo falou, falou mas não falou coisa com coisa e nem parece conhecer nada de metafísica de fato. Pois esta metafísica que o Paulo falou nunca ouvi falar e ele parece mistura tudo com filosofia, utopia, ou confunde ainda mais todos que não querem pesquisar nada no campo fora do velho paradigma materialista newtoniano das ciências, história e filosofia, ou avançando para metafísica de fato ou agora física quântica ou mecânica quântica. O paulo fugiu da escola, só pode ser…ou virou burocrata destas áreas acadêmicas penduradas nos cargos, tetas, sustentando a exploração capitalista das classes dominantes. Aprofundamos mais nos textos das pesquisas afixados no topo da nossa página do face e publicados no linkedin e vamos postar em seguida o link das pesquisas. Vai estudar fora da caixa Paulo. kkkk

  2. Nossa que texto maravilhoso/explendido 🌻✨😍😍✨✨ parabéns professor ✨✨ texto de quem realmente tem conhecimento filosófico.
    Pelo menos eu o considero um grande sábio 🌻

  3. Assim, o agir, as vezes, contradiz o fluxo metafísico do sentido, petrificando a imagem espelhada da utopia. Mas a utopia não tendo limites em sua reformulação projeta sua nova ordem no mesmo horizonte.
    Nessa mesma reflexão, intui que minha função no mundo é “on the road”, um vez que sempre sonhando estou, para além do lá.
    Abraço

  4. É sério mesmo que você quer fingir que a palavra “metafísica” não foi criada pelo organizador das obras de Aristóteles, Andrônico de Rhodes? Ta meta biblia ta physika (em grego) ou “os livros que vêm depois da física” que representavam os livros da Filosofia Primeira ou “filosofia dos primeiros princípios” aristotélicos. Aí você quer chamar de metafísica BABAJADA espiritualista. Neurobobagens é quanticobobagens? Negacionismo científico!

  5. Professor essa sua explicação não ficou legal. Tá mais parecendo papo de proctologista querendo convencer o paciente a levar uma dedada. Por favor, seja mais claro.

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