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Maria Homem ficou presa só ao pipi do Bolsonaro

Maria Homem errou sobre Bolsonaro, mas não quer admitir. Falou algo de senso comum, na pressa. Mas como Maria é Homem, e homem nunca dá o braço a torcer, ela publicou um texto para rebater as críticas. No entanto, não rebateu. Descreveu críticas fáceis, não as melhores.

Inicialmente ela escreveu que Bolsonaro se diz imbrochável porque tem medo de brochar (Folha, 07/09/22). Seguiu a ideia de senso comum que, enfim, segundo ela, seria uma verdade da psicanálise: quando se fala de algo, insistentemente, é fixação e medo. Então, se Bolsonaro diz que é imbrochável, o que ele teme é ser brocha. Talvez isso possa ser verdade, mas, que é uma pobreza de raciocínio, é de fato. E não serve para muita coisa.

Diante desse seu pequeno texto, afirmando o senso comum, segundo ela (em um segundo texto Folha, 12/10/22), os leitores reagiram de duas maneiras: os de direita a xingaram; os de esquerda pediram que ela não xingasse, que não agisse da maneira de bolsonaristas. Ora, foram só essas as críticas? Duvido. Eu mesmo, em vídeo, falei bem outra coisa.

A tese dela de que Bolsonaro tem medo de brochar é uma bobagem. Bolsonaro deu entrevista para a Playboy dizendo que já brochou, além de falar como que teve que suportar o dedo no ânus para exame de próstata etc. Confessou publicamente que brochou e também confessou preconceitos etc. Bolsonaro sabe levar na brincadeira tais situações. Além do mais, Bolsonaro, já faz algum tempo, não tem vida sexual regular. Ele vive mal com a esposa. Todas as informações que saem de sua casa vão nessa direção. Bolsonaro é pura política. Ele só faz isso: política retórica, busca de embates com inimigos criados por ele. Vive disso. Não tem vida particular, pessoal. Ele tem uma subjetividade rasa, que não permite que ele seja outra coisa senão Bolsonaro. Jair Messias não existe. Por isso ele faz metáforas de sexo que cruzam o íntimo com o público, simplesmente porque o íntimo dele é vazio. Ele é uma figura pública, e só isso. Ele só vive enquanto político. Fora disso, ele se desliga, fica olhando o vazio.

Mas há mais coisa no seu discurso, que emergiu ali mesmo, no célebre 7 de setembro.

O que Maria Homem não notou, justamente por ter se fixado no pênis de Bolsonaro, é que ele não falou imbrochável de modo literal. Ele já havia falado antes: sou politicamente imbrochável. A conotação sexual, ele mantém, claro. Isso faz parte de sua retórica, de trazer para si o que pode torná-lo popular para o seu público. (Lula também disse que tinha tesão de 20, mesmo com 76 anos – parou de falar porque os identitaristas energúmenos e assexuados o cercearam). Mas o que ocorreu de fato no episódio, é que Bolsonaro estava falando de outra coisa no 7 de setembro, algo que vem lhe dando dor de cabeça. Ele estava e está incomodado com o casal Janja-Lula. Tanto é que ele pediu no palanque que seus apoiadores comparassem a Michelle com a Janja. E logo depois falou dele próprio. O que o incomodava e o incomoda é a felicidade do casal Lula-Janja diante da sua própria infelicidade.

Bolsonaristas em geral são fracassados. São gente, inclusive, com grande dificuldade de acreditar em casamentos. Dias antes, Bolsonaro já havia falado sobre isso, indignando-se com a jornalista Amanda: como ela podia criticá-lo e viver bem com o marido, que seria, segundo ele, um bolsonarista? Eis aí o problema de Bolsonaro, e de muitos bolsonaristas. A felicidade pessoal não existe. A felicidade a dois não existe. Ou será que existe? A dúvida surge quando fotos do casamento do Lula impactam, e elas de fato o impactaram. Ele ficou dias falando disso. As fotos do casal Janja-Lula colocam para Bolsonaro e para todo bolsonarista a dúvida cruel: será que os de esquerda, que vivem falando em utopia, não conseguiram de fato, em alguma instância, realizar a utopia?

Eis aí a dúvida que mata Bolsonaro, que o corrói. O coro “imbrochável” foi patético e ridículo. Mas a fala de Bolsonaro dizendo ser imbrochável, quando pronunciada por ele, não se referia ao pênis, e sim a fato dele ser duro na queda. Ele é o homem que diz “lamento” diante de 700 mil brasileiros mortos. Ele, no máximo, diz “lamento”. A expressão de compaixão não é com ele. E Bolsonaro cultiva isso. Os realistas – é assim que os ideólogos do Bolsonarismo (Pondé à frente) se autodenominam – são exatamente os não idealistas no sentido de execradores de utopias. Se vem a dúvida sobre a utopia como o que se pode realizar, então Bolsonaro e os bolsonaristas reiteram que só vale “a realidade como ela é”. Alguns ideólogos até chamam Nietzsche, no amor fati, para dizer isso. Mas o amor fati de Nietzsche nunca foi parente da bobagem da “realidade como ela é”, no sentido de Nelson Rodrigues. Amor aos fatos era, para Nietzsche, a disposição de poder viver os fatos, e os fatos não são todos eles desgraçados, são apenas fatos. Até mesmo a felicidade é um fato.

Bolsonaro teme a felicidade. Ele não a tem. Ele nem a compreende. Teme que ela exista. Teme que a esquerda, antes mesmo da vitória final sobre o capitalismo, a tenha conquistado em parcerias. Teme que uma dessas parcerias seja o casamento.