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Por que Juliana Paes não consegue ficar sem guru?

O homem antigo era o homem da contemplação. O homem moderno é o homem da ação. Assim, a própria noção de indivíduo moderno se faz a partir da noção de sujeito. Peter Sloterdijk diz que o sujeito é aquele que se auto desinibe. O homem moderno consegue construir narrativas interiores que o ponham como desinibido, autor consciente, ou seja, sujeito.

Todavia, como essas narrativas são estabelecidas? É necessário que o homem moderno tenha o “si-mesmo como um Outro”. O diálogo interior, a reflexão, é seu ancoradouro para se fazer consciente de seus pensamentos e responsável pelos seus atos. Uma tal instância, a subjetividade moderna, se estabelece na medida da alteridade. É preciso que o homem traga o Outro para o seu interior. Assim ele se faz reflexivo e moral, e se faz sujeito. Toda vez que se faz necessário, toda vez que é requisitado, ele se desinibe pela reflexão, pelos argumentos que coloca a si mesmo. E então vem para o campo da decisão, da decisão.

Mas é aí que o homem moderno ganha o seu primeiro tropeço: quando a sociedade estabelece o fim dos conflitos, o fim das polarizações, quando a paz é conseguida sem a batalha, tudo se complica. A sociedade contemporânea, aquela do capitalismo 4.0, jogou para debaixo do tapete a frase de Sartre, “o inferno são os outros”. O inferno é o mesmo, atualmente. Ela, nossa sociedade atual, pode até comemorar “os outros”. Mas “os outros” ela não deixa que se formem como o Outro. O empresário de si mesmo, eleito como homem contemporâneo, não é empregado nem patrão. Não tem fábrica. Só tem o modo empresarial de viver, no âmbito do tecido social. Todos os conflitos são aplainados. Ou então transformados na guerra, em que o conflito não se dá, uma vez que o Outro antes de ser antagônico é posto como alvo de eliminação completa. O inferno do Outro desaparece. Tudo é o mesmo. Tudo é positivo. Tudo tem que no máximo suportar divergências e promover a tolerância. Nesse mundo liso, sem pelos, sem grandes oposições, é difícil para o Eu se tornar de fato uma instância subjetiva completa. O homem contemporâneo continua sendo chamado a ser um sujeito, mas ele não tem no que se agarrar, no seu interior, para tal. Ele não se fez como sujeito.

Sendo assim, há duas saídas para o homem contemporâneo. Ou ele teatraliza a si mesmo, na falsidade de ser sujeito, ou ele busca um guru, consultor, personal trainer, coach, pseudo-intelectual de auto ajuda – todos os que vieram a substituir os padres, os médicos, os psicanalistas e os ideólogos. Esses gurus tratam todos fora de instituições. Não evocam disciplinas, apenas controlam fluxos de comunicação, dinheiro e trabalho. Decidem pelo homem contemporâneo. Sustentam o homem contemporâneo como senhor de decisões, mas falsamente.

Os que teatralizam a si mesmos são os histéricos. Os que optam por gurus ou similares são as socialites, artistas e, enfim, pessoas comuns que adotam profissionais do entretenimento. Artistas preferem gurus. Empresários têm consultores. O público em geral têm profissionais do entretenimento: youtubers débeis mentais – os que incitam violência policial e os políticos comuns da direita.

Em uma época em que o selfie, ou seja, a mera imagem digital é o eu, e o eu é vazio ou histérico, proliferam os gurus e similares. Eles tomam decisões no lugar das pessoas. Um indiano estuprador pode ser guru. Uma estupradora mental, como a Betina da Empíricus, pode ser guru. Um ideólogo do tipo do Pondé, que prega a desistência do mundo, pode encontrar adeptos. Cada eu esvaziado, quando cobrado a ser sujeito, responde apelando para as decisões já tomadas, em forma de cliché, por esses aproveitadores de ocasião. Esses mesmos aproveitadores também são vazios. A diferença das pessoas comuns é que eles se profissionalizaram antes na venda de clichés.

Aí está, então, a Juliana Paes anunciando seu terceiro guru. Primeiro foi João de Deus. Depois, Prem Baba. Agora, ela promove meditações e orações com o indiano Ravi Shankar. Este último é o único que ainda não estuprou ninguém – dizem!

A cada dia, novos gurus aparecem para vender clichés, respostas prontas para problemas complexos. E mais: há as pessoas que, cobradas para decidirem em alguma coisa, chamadas para serem autênticos sujeitos, buscam discursos interiores de desinibição, nada acham, e recorrem a tais muletas de falsa teoria ou muletas místicas ou, então, às frases e discursos ineptos e ignorantes de um Leandro Karnal, que já até apelidaram de Leandro Banal!

O capitalismo 4.0 é um semiocapitalismo. Há uma inflação de semiologia e uma deflação de semântica na linguagem de máquina que forma a subjetividade maquínica, uma das facetas da subjetividade atual. O Eu vazio, pode decidir também sem pensar, pelos algoritmos. Trata-se de uma forma de comprar clichés. O grande algoritmo também pode ser um grande guru. Ele também faz abuso sexual, ainda que sem corpo. Ele cria seguidores. Há muitos que seguem algoritmos pensando serem pessoas.

Paulo Ghiraldelli, 65, filósofo

Veja o vídeo do assunto: https://youtu.be/zjKGCF7bL0o