Fases do capitalismo e teoria do sujeito

Capítulo inédito do futuro livro Subjetividade, identidade e identitarismo, a sair pelo CEFA Editorial no segundo semestre de 2022.

Por conta dos avanços das ciências sociais e, em boa medida, da filosofia social, não é difícil atualmente ver os estudiosos da subjetividade interessados nas articulações entre os desdobramentos dessa instância e as alterações do mundo do trabalho. É inegável que o capitalismo, ao longo de suas alterações, vem produzindo novas subjetividades. Também é perceptível que podemos correlacionar o modo como a filosofia se propôs a descrever o sujeito e as transformações dos padrões de acumulação capitalista.

O capitalismo histórico é descrito por meio de três fases: a fase da subsunção formal do trabalho ao capital, a da subsunção real do trabalho ao capital e, enfim, a da hegemonia do trabalho imaterial. Na primeira fase, a acumulação do capital é de caráter mercantil e financeiro. Na segunda fase a acumulação do capital é prioritariamente industrial. A terceira fase mostra um retorno ao caráter mercantil e financeiro da acumulação do capital, mas em bases completamente inéditas, e com o desenvolvimento do General Intelect.

As duas primeiras fases são populares entre os jovens escolarizados. É assunto oficial da escola média no mundo ocidental a história e a geografia do capitalismo comercial e do capitalismo industrial. A terceira fase é deixada aos estudantes de cursos especializados do ensino superior, e mesmo da pós-graduação. Nesse caso, não raro ocorre um desvio ideológico menos notado no ensino médio. As faculdades de administração e economia tratam do capitalismo atual segundo teorias que o naturalizam, que não falam de suas crises, e que tomam as teorias clássicas de Adam Smith (1723-1790), David Ricardo (1772-1823) e Karl Marx (1818-1883) como coisas folclóricas, que não permitiriam aos profissionais operacionalizações necessárias para eles serem, no mercado de trabalho, administradores e economistas (ou engenheiros especiais etc.). Essa situação do ensino em ciências humanas no âmbito universitário, ela própria, já faz parte do modo como o capitalismo cognitivo põe seus tentáculos de dominação por sobre a sociedade, exatamente no sentido de exercer um dos controles ideológicos fundamentais para sua própria existência. Voltaremos a esse assunto mais adiante.

A primeira fase do capitalismo é aquela enfeixada entre os séculos XVI e o final do século XVIII. Foi a época da manufatura concentrada. O capitalista passava nas portas de manufaturas de vários tamanhos e recolhia os produtos. Então procurava mercados para eles. Muitas vezes, adiantava pagamentos e acabava, com isso, disciplinando a produção. Não raro, fazia tais adiantamentos através de empréstimos daqueles que, mais tarde, seriam os criadores dos grandes bancos. A mais valia, ou seja, o chamado trabalho não pago, ficava por conta da ampliação da jornada de trabalho em cada manufatura. O capitalista organizador e o futuro banqueiro dividiam essa mais valia. Dependendo do tamanho da manufatura, também o seu proprietário tinha seus bons lucros vindos da mais valia extraída na produção.

Nessa fase do capitalismo, o saber se localizava nas mãos e cérebro do próprio trabalhador. E não era difícil ele próprio, como um artesão, deter os instrumentos de trabalho. Sua condição de portador de saber e avaliador do seu produto lhe dava uma proeminência social, bem coadunável como a noção de indivíduo-sujeito. O Renascimento foi uma época de emergência do indivíduo-sujeito na medida em que também foi a época do capitalismo manufatureiro e comercial.

Não há como deixar de notar que, na filosofia, John Locke (1632-1704) e René Descartes (1596 – 1650) tenham projetados suas descobertas exatamente nessa época. Locke falou da noção de indivíduo e teorizou o conceito de pessoa. Descartes criou o sujeito como instância psicológica e filosófica, na base da unidade e da transparência consigo mesmo. O britânico tirou de seu conceito de pessoa os direitos individuais, em especial o de propriedade (a vida inclusa) e de liberdade de expressão, que nortearam a doutrina política do liberalismo. O francês criou uma maior sofisticação para a psicologia e para antropologia com a sua noção de Cogito, e criou aquilo que chamamos hoje de metafísica da subjetividade. O homem como pensamento acabou por ser a base metafísica da modernidade.

É difícil imaginar que essas concepções, agrupadas como foram na Enciclopédia nos tópicos relativos ao homem, tivessem tido sucesso, como de fato tiveram, se o próprio indivíduo não fosse uma conquista da vida cotidiana, ou melhor dizendo, do modo de vida burguês que se instaurou na Europa. A Enciclopédia foi o produto intelectual que caracterizou a época das Luzes. Ela foi organizada pelo Jean D’Alembert (1717-1783) e Denis Diderot (1713-1784), e de fato espelhou os saberes da época e a própria época de uma maneira fidedigna.

A segunda fase do capitalismo é a vivida por Marx (e depois, por muitos de nós do século XX), e que caracterizou a visão de classes bem delimitada dele e de seu parceiro britânico. Burgueses e proletários vieram para fazer história. Os burgueses organizaram a produção dentro de fábricas e os operários, já sem qualquer meio de produção, passaram a servir de mão de obra no interior desse recinto. De estilo militarizado e, depois, por obra do sindicalismo, a fábrica foi ganhando aspectos relativamente menos opressivos. Todavia, nunca deixou de ser um local crescentemente difícil. A jornada de trabalho foi se ampliando, com burgueses querendo extrair a mais valia absoluta. Depois, com a esteira de produção, as técnicas tayloristas aprimoradas e regime fordista de trabalho de produção em massa, o trabalhador foi convidado a aceitar a sua alienação do saber produtivo em favor da organização e maquinaria da fábrica. Era a extração da mais valia relativa.

Mesmo quando o New Deal nos Estados Unidos e a social-democracia na Europa amenizaram as condições de vida do trabalhador, assim o fizeram muito mais fora da fábrica que nela mesma. O Maio de 68 se fez, em grande medida, contra o trabalho industrial fabril, denunciando-o como duplamente alienante: da alienação objetiva, que tira o produto das mãos do trabalhador à alienação subjetiva, que expropria o saber do trabalho do operário, tornando peça trocável e exército de mão de obra de reserva, para ser utilizada contra as greves.

Esse regime de capitalismo industrial, quando vigente meio do século XX, deu horário de estudos para o filho do trabalhador, deu-lhe casa melhor, proporcionou uma ampliação de um tipo de classe média, principalmente nos Estados Unidos. Se o sujeito-indivíduo poderia existir, que fosse fora da fábrica. Em casa ou nos feriados ele poderia tentar recobrar a vestimenta desse conceito.

Os filósofos conseguiram captar esse sentimento e, com graus diferentes de consciência a respeito do capitalismo, teorizaram a figura do sujeito, do eu e do indivíduo. Já na época de Descartes, seu relativo adversário, Blaise Pascal (1623-1662), questionou a existência do próprio eu para além de suas qualidades. E depois, veio David Hume, fazendo algo parecido com o eu, que ele não via senão como um feixe de sentimentos e sensações passageiros. Rousseau considerou o eu existente, mas transformou-o em uma instância puramente moral, não seria algo do âmbito da razão, mas sim do âmbito do coração sincero. Nisso, foi readaptado por Immanuel Kant (1724-1804). Em meio ao capitalismo industrial desenvolvido, Friedrich Nietzsche (1840 – 1900) sugeriu que o eu não fosse outra coisa senão uma peça linguística, uma parte da gramática que implica na formulação de que o sujeito é alguma coisa que pratica uma ação. Tomá-lo como substancial seria apenas um erro de ontologização exagerada.

Também o linguista Émile Benveniste (1902-1976) foi por esse caminho. Uma bela teoria da subjetividade e da própria linguagem nasceu do aproveitamento dos estudos desse linguista, uma vez incorporados pela teorização de Giorgio Agamben.

A ideia de Agamben é que, se adotamos o paradigma de que o sujeito é o suposto, e este suposto, ou seja, aquilo que nos enunciados é o que recebe a predicação, ou seja, é o sujeito da predicação, então há espaço para se falar em subjetividade.

Agamben vê nos estudos de Benveniste o espaço de criação do sujeito e da subjetividade. Ou seja, não temos a linguagem como algo natural, mas como algo aprendido, ainda que aprendido por conta de potencialidades nossas, e então quando adotamos a linguagem, junto dela pegamos os shifters, e um deles, o eu, é o que nos faz poder assumir a linguagem como sendo a nossa fala. Se digo um enunciado e quero que esse enunciado seja meu, eu começo dizendo “eu”. Este eu, para que ele seja eu, precisa se manter preso à enunciação, à voz que emito. As outras palavras não precisam disso. Vaca é vaca. Mas o eu, o aqui e o agora não fazem esse sistema atemporal de referência, eles fazem a referência em associação temporal com a enunciação, a fala, aquilo que se faz voz humana, ou que tomamos como sendo a voz humana. A linguagem é, assim, uma instância em que, ao nos tornarmos usuários dela, nos possibilita autorreferência, e então uma apropriação de acúmulos de experiências que, enfim, são da linguagem, mas que se parecem como sendo as nossas, a de quem pode falar eu. A linguagem é, então, um instrumento de subjetivação na medida em que nos dá um self que vem associado ao eu, e nos faz achar que este self é o eu, o eu não-linguístico. Mas só existe, de fato, o eu linguístico, e este é que nos possibilita criar nosso eu psíquico.

Essa explicação, claro, tem de ser tomada no âmbito da filogênese e no âmbito da ontogênese, guardada as devidas proporções e acertos de uma narrativa e outra.

Assim, se cada usuário da linguagem começa a falar como sendo um eu, e tendo um si-mesmo, um self, pode até substancializar isso e tomar uma tal peça como sujeito metafísico. Foi o que ocorreu na história do Ocidente, por conta do pensamento filosófico metafísico que desembocou na metafísica moderna, a metafísica da subjetividade. Mas, em outro caminho, o usuário pode, também, perceber que se trata de algo linguístico; e sendo que a própria linguagem tem estatuto ontológico fraco (ela, a linguagem, não ocupa o lugar das coisas que nomeia de modo a aparecer também como uma coisa), este usuário pode se tomar por um eu, uma subjetividade, existente no âmbito da linguagem, sem base metafísica. Um eu que assim se vê tem mais facilidade de aceitar-se no contexto em que Richard Rorty (1931-2007) falou de subjetividade, repondo no mundo acadêmico as teorias pragmatistas do sujeito.

Um eu pode, então, se ver como sujeito, sabendo que uma tal condição pertence ao campo da linguagem, e que a subjetivação é adquirida no uso do eu, por meio de uma dessubjetivação. Pois afinal, ao tornar-se usuário da linguagem, deixa-se para trás uma subjetividade anterior, perdida para sempre. Trata-se de uma subjetividade que teria existido antes da fala, na existência da infância, ou seja, o tempo do in-fante, o que não fala. Pode-se pensar na infância como uma instância imaginária, que existiria também no âmbito da filogênese, e que garantiria que os fonemas emitidos pudessem ir cedendo espaço para sons que são os das palavras. Nesse percurso nasce o eu, o novo falante, e então a nova subjetividade ou, enfim, a única subjetividade que podemos levar em conta.

Essas teorias todas – levando em conta que a de Agamben detém auto grau de autoconsciência sobre suas características – se dividem entre negar o sujeito substancial e propor um modelo alternativo, ora como núcleo sentimental ora com filiação ao campo linguístico. Essa divisão responde ao capitalismo industrial: o eu ou indivíduo, que funciona como sujeito, ganha sua condição em parte da vida, mas em outra parte, continua anulado. Mas podemos pensar que a teoria de Agamben-Benveniste é, já, uma tentativa de conceituar o sujeito em uma situação pós-industrial.

A terceira fase do capitalismo implica na secundarização da fábrica e na priorização da sociedade em geral, ou da vida urbana, como local de trabalho. A jornada de trabalho desaparece e nos integramos em um regime de biopolítica: todo o tempo dos homens está envolvido com a produção, mesmo aquele tempo de consumo e lazer. Nasce o “prosumidor”, o consumidor-produtor. Mas agora, a produção é imaterial, como ensinou André Gorz (1923-2007), seguido de vários outros pensadores ligados ao movimento do pós-operaísmo italiano. Ela consiste em papeis do mercado financeiro, em softwares sobre descobertas científicas, em artes de todo tipo. Isso em níveis variados, mas sempre feito coletivamente em rede. A rede inicial, levada adiante na base da troca de informação via prensa tradicional, se ampliou e passou a contar ainda mais como produto do trabalho coletivo com a emergência da Internet. Amplia-se aquilo que Marx chamou de General Intelect, um saber difuso que permeia a sociedade, e que colabora com a aceleração da produção em geral.  O saber volta para as mãos dos homens. É isso que re-impulsiona o saber e amplia a produção, não no sentido de mais produtos materiais, mas do que pode ser organizado pelo capital, expropriado, e devolvido para a toda a sociedade não em forma de venda, mas de arrendamento. Há os teóricos que dizem que o lucro capitalista vira renda (rent).

O capital precisa do General Intelect, e este funciona melhor livre. Mas, ao mesmo tempo, o capital precisa controlar esse General Intelect, para que possa expropriar a mais valia, que agora é mais valia social. Toda a sociedade durante todo o tempo está em trabalho não pago. O General Intelect é nossa subjetividade contemporânea, nossa participação nas redes. Nesse caso, os fluxos do General Intelect precisam ser controlados pelo capital. Sim, pelo capital, não por burgueses. A própria burguesia perde seu contorno de classe. As empresas se monopolizam, passam todas viver na Internet e da Internet, se configura como sociedades anônimas sem proprietários chefes, e só acionistas que se colocam completamente longe da produção e até mesmo do destino do que se faz em cada empresa.

Cada indivíduo é convidado a ser indivíduo enquanto empresário de si mesmo, e ao mesmo tempo lhe é retirada a autonomia na medida em que cria e trabalha a partir de controladores de fluxos de informação e dinheiro, que são a inteligência artificial das redes e os conjuntos de algoritmos. Os trabalhadores se socializam sem conseguir levar adiante a socialização para a realização de um novo conceito de sujeito enquanto indivíduo autônomo. Os burgueses, por sua vez, se virtualizam, se desterritoralizam à medida que perdem as fábricas e empresas, deixada nas mãos de executivos que apenas querem o lucro exigido pelos acionistas, entre os quais se incluem, não se importando mais com vida corpórea ou vida da própria cidade. O burgo? Ora, que burgo? O fluxo de dinheiro nas telas do computador é que importa. A leitura disso e a participação nisso tudo se faz a partir de uma integração no que conhecemos com interface homem-máquina, que gera a subjetividade maquínica de nossos dias. A interação via diagramas, equações e gráficos, que não mais precisam ser interpretados, é o núcleo da atuação da subjetividade maquínica.

Em reação à profunda sensação de desterro que tudo isso causa, todos os setores sociais começam alimentar o sentimento reacionário de criar o indivíduo artificialmente, em torno de identidades geradas por requisições nem sempre legítimas de minorias de todo tipo. Nasce a praga do início do século XXI: o identitarismo. Surgem indivíduos que se imaginam poder cumprir o desiderato do eu autônomo, com autoconsciência, com êxito, à medida que encarnam uma blindagem vinda da condição de serem representantes de minorias. Desaparece o homem, nasce o anão, o negro, o Drag, o doente X, o gordo etc. Todo tipo de identidade perde seu vínculo com qualquer referência universal. Abre-se a projeção de todos contra todos em redes sociais de profundo cultivo do narcisismo. O indivíduo-sujeito perde para o Narciso e para o Histérico, que se auto-intensifica em sua teatralização.

Machado de Assis era negro e epilético. Foi nosso maior escritor. Mas ele nunca imaginou que um dia alguém iria se dizer bom escritor por ser negro ou epilético. O identitarismo criou até Drag se dizendo professor por ser Drag! Aliás, Machado ridicularizou o identitarismo em seu célebre conto O espelho.

Paulo Ghiraldelli, professor, filósofo, escritor e jornalista.