Pular para o conteúdo

A Geração Z não tem trilha sonora

Hegel foi um gênio filosófico ao criar a noção de espírito. O mundo é da ordem do espiritual. A história é o desdobrar do Espírito. Pensadores posteriores aproveitaram essa ideia para usar noções como “espírito de uma época”, “espírito de um povo”, “espírito de uma geração”. Hoje em dia falamos em “subjetividades”, os modos de pensar, sentir e agir de um tempo. Nossa época, já há uns quarenta anos, tem como predominante a subjetividade neoliberal.

A subjetividade neoliberal é o meio pelo qual nos expressamos. Achamo-nos empresários ou, melhor dizendo, empreendedores, por mais pobres que possamos ser. Acreditamos ou queremos acreditar que podemos no reinventar a cada crise, e que não sucumbiremos se formos inteligentes para assim fazer. Eis a frase de Sartre: “O importante não é aquilo que fazem de nós, mas o que nós mesmos fazemos do que os outros fizeram de nós.” Era uma frase profunda, mas que foi reeditada segundo o ideário do coach, para se transformar em algo como: “seja o que for que fizeram de nós, podemos aproveitar isso e fazer algo melhor”. Fazer algo melhor significa: criar negócios (aparentemente) não inventados ainda e, portanto, vencer no mercado que já nem é mais o mercado de produtos, mas de papeis, o mercado financeiro. O neoliberalismo fez sucumbir o indivíduo e o individualismo, substituindo-os pelo átomo social e pelo atomismo social. Todos nós nada somos senão pontos no espaço. As comunidades autênticas, geradas em torno do trabalho, já não contam. Pois a fábrica desapareceu como lugar dos trabalhadores, ficando só com máquinas. A sociedade como um todo veio a ser o novo lugar de trabalho. E ela se tornou uma sociedade digitalizada. Todos trabalham e (acham que) divertem, sem quase sabermos a distinção entre uma coisa e outra, e isso se faz pelo tempo gasto – e não pago – nas plataformas virtuais, que fomentam a continuidade da acumulação do capital. O modo de produção pós-fordista nem é mais o toyotismo, mas a simples participação em alguma tarefa ditada nos moldes da comunicação em forma de equações e diagramas, usadas pela maneira como o dinheiro corre a internet em tempo real, segundo a prática de compra e venda de papeis, os famosos derivativos e títulos, no mercado financeiro. Eis aí a subjetividade neoliberal.

Essa subjetividade nada tem a ver com o liberalismo dos séculos XVII e XVIII, de Locke e Kant, ou com o novo liberalismo pós Crise de 29, que acabou sendo conhecido como o da social democracia e do Welfare State. Esta, por sinal, foi a subjetividade que imperou nos “anos de Ouro”, quando o capitalismo permitiu a mediação do estado na vida social e, com isso, pela primeira e única vez em sua história, conseguiu diminuir a distância entre ricos e pobres. Essa época teve sua história: auge entre os anos cinquenta e sessenta, a visão de seus impasses nos anos setenta, e, por fim, sua morte e substituição nos anos oitenta e noventa, principalmente nos Estados Unidos e Europa. O padrão de acumulação capitalista estava caindo, e se fez necessário mudanças para a criação de um novo padrão. Um ideia maluca foi aceita: vamos dar dinheiro aos ricos (diminuindo impostos deles), então, eles investirão em novos negócios que criarão empregos. Ronald Reagan falou essa besteira. O mundo o aplaudiu. Mas isso não deu certo, os ricos não investiram em empregos. Havia excesso de capital na praça, e este foi para o mercado financeiro. O programa neoliberal foi realmente implantado entre nós em meados dos anos noventa, com o Governo FHC, mas seus resultados só se apresentaram a partir dos anos 2000. Só no século XXI nós realmente nos financeirizamos. A Geração Z e não a Geração Milenium é aquela que é regrada pela subjetividade neoliberal em todos os seus aspectos centrais.

A geração Z é aquela que vive o que temos chamado de semiocapitalismo. Neste, a subjetividade neoliberal se expressa, em termos mais específicos, em subjetividade maquínica. Trata-se de pessoas que foram acostumadas a viverem sob um regime de ampliação de símbolos e, paradoxalmente, diminuição de significados. A Geração Z está vivendo sob a regra da fusão do humano com a máquina, sob predomínio desta última. E as máquinas atuais, os computadores em rede, são a época da ampliação da semiótica em detrimento da semântica. A Internet das Coisas é o lugar melhor para vermos isso, mas nem é preciso tanto, qualquer outra forma de vida na internet diz a mesma coisa. Temos símbolos para tudo, mas a interpretação, a arte da hermenêutica, paradoxalmente, tornou-se desnecessária. Os símbolos dão comandos diretos, como a máquina faz com a máquina. Agimos assim também. Tornamo-nos maquínicos. Neoliberais maquínicos, somos todos, até mesmo aqueles que não pertencem à Geração Z estão assim se tornando.

A trilha sonora dessas épocas todas diz muito do espírito se desdobrando na história. A música do Beatles veio para dizer que os anos sessenta eram uma época de alegria e suavidade, mesmo que em forma de rebeldia. Maio de 68 respirava a ingenuidade. Diferentemente, a música dos Bee Gees, por sua vez, soou como um lamento, uma perda. Mostrava a insegurança e a tristeza de um fim. Era o eco do fim da política dos “Anos de Ouro”. Todavia, o pior ainda estava por vir. Ninguém nunca imaginaria, naqueles tempos, que um dia a música deixaria de existir, e que o clipe seria regido por uma trombada de nádegas da Anitta com um pênis de um marroquino, completamente deserotizados, e que não podem se transformar em trilha sonora, dado que são símbolos que nada significam a não ser a própria trombada. São clipes não interpretativos, clipes que dispensam hermenêuticas. A Geração G não tem trilha sonora, por isso, não raro, ela aceita até o sertanojo! Uma geração sem trilha sonora é aquela que, ao ficar mais velha, não consegue se lembrar o que tocava quando começaram um namoro. A Geração Z não namora, nem tem música para ouvir.

Nossa época de agora, a da Geração Z, vive de modo igual ao dinheiro dessa época. Ele é um sinal eletrônico que percorre o mundo em tempo real, quase imediato, seguindo a lógica binária. Todo nosso pensar fica binário. Tudo é símbolo e execução, sem qualquer necessidade de mediação. Em um mundo sem mediação, os agentes mediadores do passado, tão fundamentais, não fazem mais sentido. O processo de formação, regido por professores, perde a necessidade. A escola é depreciada. A zonas cinzentas desaparecem. Tudo é zero e um. E nada mais tem sutileza, demora, cadência, tempo de espera, ritual ou tradição iniciadora. Liturgias são abolidas. Em um mundo sem liturgias, tradições, ou seja, um mudo em que as mediações se tornaram supérfluas, o grosseiro se impõe. O erotismo perde para o pornográfico. A piada perde para o escárnio. O sindicato perde para o indivíduo isolado. A relação mestre-discípulo perde para o homem-máquina. O político atende a ele mesmo, e não é mais mediação entre a política pública e o eleitor. A vida perde para a imitação da vida pelo algoritmo. Nada que é a espera é apreciado. Todos querem galgar todas as funções em meses ou até mesmo em horas. E os desescolarizados e de piores formação acham que sabem mais que todos. O ensino médio é visto como desnecessário, bem como o vestibular. Enfim, a própria democracia, que demanda discussão, tempo, amadurecimento e ritual, sobrevive como um fantasma. Todos pedem diálogo e identificam nas posições centristas a ideia de diálogo. Então, se todos são centristas, e se os extremos são condenados, a democracia já se perdeu pode funcionar ditadura .

Dentro desse rumo, a própria organização social, que demanda rituais, demoras, vivências, se esvai. Ninguém suporta a espera racional. Não suportando a espera racional, todos se submetem às filas, a espera irracional.

Todos reclamam da burocracia, e não entendendo sua real função, preferem a solução imediata da milícia, do tráfico e da Igreja Evangélica. Assim, a instalação da Net chega mais cedo, o remédio é substituído pelo entorpecente e faz efeito mais rápido e, enfim, os médicos e exames são dispensados pela cura em forma de milagre promovida por pastores. Tudo tem de ser fácil e à mão.

Como o imediato se impõe por conta do fim das mediações, então o mundo imagético se sobrepõe ao mundo do texto. E de imagem em imagem, as que requerem menos o vínculo entre passado-presente-futuro (Ekstase), ganham mais visibilidade. As que são suficientemente toscas, próximas dos diagramas, se tornam mais divulgadas que quaisquer outras. A imagem de impacto é relevante. A imagem da calma não é relevante. E o que impacta é o que retoma e potencializa o fim da mediação. A imagem que quer “dizer tudo de uma vez” é a que é enaltecida. Por isso a imagem da violência se impõe. O sangue jorrando parece carece de interpretação. A arte se torna toda ela pornográfica, ou seja, o reino do explícito, o fim daquilo que requer educação para ser apreciado.

Paulo Ghiraldelli, 65, filósofo, escritor, professor e jornalista