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EXPOFAVELA (desculpem-me pelo título)

O liberalismo foi um grito de clamor pela liberdade, gritado entre os séculos XVII e XVIII. No século XIX, Marx fez uma crítica poderosa ao liberalismo. Ele mostrou que as belas regras da política e da doutrina social do liberalismo se realizavam pelas mãos pouco suaves do capitalismo. A liberdade do indivíduo, prometida pelos liberais, na verdade se concretizava como livre mercado em favor da liberdade do capital, e não do indivíduo. Cem anos depois dessa crítica, no Maio de 68, novamente o clamor pela liberdade retomou seu fôlego. Em parte, o tiro saiu pela culatra. Passado menos de uma década, a liberdade se realizou pela acentuação do trânsito do capital. Vieram as regras de flexibilização financeira em associação ao mundo digitalizado, e isso caiu sob a rubrica de “neoliberalismo”.

O neoliberalismo é sem dúvida a ideologia de nossos tempos. Ele se divide em duas fases. Entre os anos de seu início, em meados da década de setenta, deu-se os primeiros passos da propagação do empreendedorismo. A partir dos anos dois mil, o empreendedorismo se fortaleceu a partir de sua união com a educação financeira. Acopladas, essas subideologias deixaram de nutrir exclusivamente a classe média tradicional para adentrar o meio pobre. Aos pobres foi prometido que eles não precisariam mais lutar por um mundo melhor distinto do criado pelo capitalismo, mas que poderiam, cada um, se tornar capitalistas. Capitalistas sem capital! O capital de cada um seria a inventividade, o talento, o sentido de oportunidade, talvez a educação. O capital seria o capital humano.

O neoliberalismo dizia que o correto era dar dinheiro aos ricos, retirando deles impostos de todo tipo, pois então eles gastariam em investimentos e fariam surgir empregos, movimentando a economia da cidade. O espaço urbano ganharia outro aspecto. As favelas desapareceriam. Na segunda fase do neoliberalismo, quando se constatou que as coisas não iriam se passar como o prometido, e que os ricos haviam preferido aplicar no mercado financeiro e nas empresas de serviço com ganho a curto prazo, a ideologia deu novo passo. A favela não deveria desaparecer, mas sim ser perpetuada. Primeiro como comunidade, algo idílico e romântico; depois, como lugar produtivo. Nesse caso, a favela, então institucionalizada e eternizada, tornou-se o local em que haveria um show de talentos produtivos e inventivos diários, terreno de concentração de startups e negócios infindáveis. Prometeu-se que a favela viraria paraíso, contanto que continuasse favela. Afinal, por mais que algum preto queira ficar branco, ele continuará preto, ainda que alguns pensem que abaixando a cabeça para o capitalismo eles irão ao menos ser chamados de “morenos” ou “pretos de alma branca” e coisas do tipo.

O fruto dessa peripécia ideológica ganhou inúmeros nomes. No Brasil surgiu o esdrúxulo campo de produção de autoengano chamado Expofavela, algo do Favela Holding, e patrocinado por empresas de grande porte! Ricos de fato, donos de meio de produção, juntaram-se os pobres “de talento”, possuidores de capital – capital humano, claro! – para propagandear a ideia de que o capital e o trabalho andam juntos, e que isso é a “verdadeira revolução”. Cada pobre pode se tornar empresário de si mesmo, segundo as palestras que ocorrem no Expofavela. Na prática, alguns pobres aprendem a explorar outros pobres, passando longe de qualquer das doutrinas que, um dia, ensinaram os pobres que eles iriam transformar o mundo coletivamente, e não atomizados, individualizados e a partir da doutrinação dos donos dos meios produção e seus ideólogos.

Nesse campo, alguns “empreendedores” da favela falam de suas experiências juntos (!) com a filha do Abílio Diniz, casada com o candidato à presidência pela Partido Novo. Também se pode aprender demais com a moça que chamou o movimento negro de genocida, a Gabriela Priolli, cujo analfabetismo funcional ficou evidente ao não conseguir manter uma coluna na Folha de S. Paulo. E por aí vai a coisa. Tudo isso é capitaneado por um capitalista, proprietário de inúmeros negócios exclusivamente voltados para a favela – eis aí o Favela Holding. Desse modo, fica claro porque não se pode pensar no fim da favela, com cidades reurbanizadas. É que a favela agora dá lucro, é claro, no sentido da acumulação do capital. A favela está “integrada”.

Caso você queira aprender como ser um favelado empreendedor, um quase-branco, então você pode pagar trinta reais para ver palestras de pessoas que realmente irão ensinar você a ser um pobre esperto! Eis uma parte do time de palestrantes, todos voltados para ajudar a pobreza: Luciano Huck, apresentador da Globo: Natuza Neri, jornalista conservadora da Globo; Neca Setúbal, socióloga pertencente à família proprietária do Banco Itaú; Cristian Gebara, CEO da Vivo; Luiza Trajano, proprietária do Magazine Luiza; Sofia Esteves, que lida com RH e é ligada ao BTG-Pactual; outros nomes similares integram o evento. Esses nomes aparecem junto com palestrantes que seriam “prata da casa”, ou seja, pessoas que se tornaram empreendedoras, e que vieram mesmo de alguma … favela!

O neoliberalismo está em crise como doutrina econômica. Ele é um acelerador de crises do mercado financeiro que provocam crises globais, e estas aumentam a distância entre ricos e pobres. Mas, ao mesmo, ainda que se arrastando, trata-se de uma ideologia apoiada por inúmeras empresas – todas com o nome no site do Expofavela – e que insiste em ser um caminho a ser traçado para que o bem estar nosso seja alcançado. É incrível que depois de tantos anos de crítica ao capitalismo e suas doutrinas, ainda existam pessoas que caem fácil nesse conto.

Paulo Ghiraldelli, filósofo, escritor, professor e jornalista