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O MST no mercado financeiro

Por e-mail me chegou o espanto junto da indignação: “professor, o senhor viu que o MST está no mercado financeiro?” “O que o senhor acha disso?”. Na época, não pude abordar o tema como gostaria. Queria saber mais sobre o ocorrido, para então falar sobre o assunto. Passado algum tempo, e tendo lido mais sobre o projeto a que o e-mail se referia, notei que o que eu temia desde o início havia acontecido: “é mais fácil o camelo passar pelo buraco da agulha que o banqueiro abandonar a lógica neoliberal”.

O autor da proeza de colocar o MST no mercado financeiro não poderia ser outro: Eduardo Moreira, um homem que, a caminho de Damásco, teve um ataque epilético e, uma vez no chão, perto das patas de seu cavalo, escutou a voz de uma profunda má consciência dizendo: “Moreira, Moreira, por que dá cursos de educação financeira enganando tanto gente? Tente fazer algo honesto”. Isso bateu no coração do rapaz!

Tendo escutado isso, esse moço passou uns tempos em acampamentos de pobres, para ver como de fato era ser alguém sem dinheiro. Saído de lá, voltou para casa e então disse a si mesmo no espelho: eu faria bem ao Brasil, agora que descobri que muitos brasileiros são pobres, se eu fosse ministro. E então criou uma igreja de nome “o conhecimento liberta”. Nada que Bolsonaro também não pudesse fazer, já que a frase do capitão é “conheceis a verdade e ela vos libertará”. Aliás, como essa gente da política gosta de igreja!

Uma vez tornado “militante voluntário” do MST, Eduardo Moreira convenceu os produtores de um acampamento de que ele poderia resolver o problema do crédito, que eles dificilmente conseguiriam em bancos. Então, ele criou títulos de dívida do MST, com juros não maiores que os da caderneta de poupança, e procurou investidores. O mercado financeiro é regido pelo lucro relativamente imediato, claro. Desse modo, só ele próprio, Eduardo, e mais cinco amigos compraram os títulos. Ele mesmo confessa isso em entrevista de 2021, para o The Intercept. Depois, conseguiu mais pessoas, mas nada que pudesse ser significativo a ponto dele não dizer, ao final, que a questão toda depende da entrada, no negócio, de bancos públicos. E isso dependeria de um novo governo, ele sabe e disse. Em resumo, ele ensinou algo que só Leandro Banal Karnal conseguiria fazer de modo mais proveitoso e inédito: é preciso para o produtor rural o financiamento do Banco do Brasil, com política agrícola que não esta que está aí. Fan-tás-ti-co!

Desse modo, Eduardo Moreira deixou claro na entrevista algo que ele, ao longo dela, depois dessa confissão, tenta escamotear: banco é banco e capitalismo é capitalismo, e querer domar ambos não é coisa de banqueiro, arrependido ou não. Banqueiro serve ao capitalismo, ele é instrumento dele, mesmo quando abandona o cargo.

Ele teria feito melhor se usasse de filantropia. Ele e os amigos poderiam sustentar certos acampamentos por filantropia, e não pelo desvio de rota, através da compra de títulos. Isso não vinga de modo efetivo, pois no limite, como projeto de política, o Banco do Brasil – como ele confessa – tem de entrar na jogada. Além disso, utilizando da filantropia pura e simples (como o filósofo Peter Sloterdijk defende, chamando tal coisa de “uso inteligente do dinheiro”), ele evitaria enfiar a lógica do sistema financeiro no MST. Há centenas de Ongs maiores que todo o MST que vivem assim. Ele evitaria de fazer as pessoas do MST acreditarem no neoliberalismo. Mas, isso seria pedir muito ao Eduardo, ele próprio não conhece outra lógica. Mesmo quando critica o neoliberalismo, Eduardo o faz segundo a ótica de um banqueiro. O capitalismo é, para ele, intocável. “É mais fácil imaginarmos o fim do mundo que o fim do capitalismo” – eis a regra que dirige cada neurônio do Eduardo Moreira.

Mas, há mais motivos para Eduardo não ser filantropo e sim investidor. Como filantropo ele não estaria fazendo vingar o futuro que ele mesmo traçou para a sua vida. Agir como filantropo não o levaria a uma posição de destaque no MST, muito menos o colocaria diante de Lula, que semi-ironicamente não o chamou de pessoa inteligente, mas de “esperto”. Moreira precisava estar diante de Lula com algo na mão que não fosse dinheiro, mas uma ideia! Eduardo Moreira sabe – mesmo que negue até para si mesmo – que está se candidatando a algum cargo governamental. Afinal, o PT adora um banqueiro!

Moreira preferiu antes vender a lógica liberal para o MST que simplesmente fazer uma doação ou preparar um conjunto de doações. O importante era exibir um “projeto” em que o capitalismo financeiro aparecesse como que podendo ajudar as cooperativas e os pobres. Ora, o dinheiro da filantropia viria com bem menos compromissos. E não seria novidade!

O mais estranho disso tudo é que o PT já possuía projetos de “economia solidária”, vindos do socialista Paul Singer e equipe, bastante desenvolvidos. E estes não foram produzidos segundo o modelo de condescendência em relação à logica do capitalismo financeiro. Mas, tudo indica, o PT sempre será religioso (vício de origem?), e por isso nunca irá negar o que Jesus disse a respeito de si mesmo na avaliação do povo de sua Terra: “santo de casa não faz milagre”. Além do mais, a ideias de Singer tinham um defeito: não eram da ordem do milagre, que sempre atordoa porque se apresenta novidadeiro. Novidade é tudo que atrai políticos em campanha e o marketing de qualquer época.

Na verdade, só o capitalismo faz milagre, faz o dinheiro entrar no banco como cem reais e virar duzentos dentro do banco. Vender títulos do MST certamente é um milagre que irá não reverter em grande coisa para o MST, mas poderá certamente dar caminho para o Moreira em algum ministério. Isso vai depender de quanto havia de mais ou menos ironia na frase de Lula, que chamou o moço de “esperto”, e se negou de chamá-lo de inteligente.

Essa novela terá mais capítulos, vocês verão. Mas nenhum diferente do odor do sovaco de Margareth Thatcher.

Paulo Ghiraldelli, 65, filósofo, escritor, professor e jornalista.