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Neoliberalismo e deserotização

Desde o seu nascimento o capitalismo convive com movimentos dissidentes. Sabemos dos dissidentes que se propuseram trocar o capitalismo por outro modo de produção, mas também aqueles que simplesmente se negaram a participar do capitalismo, nem sempre se preocupando em transformar a sociedade coletiva e conjuntamente. Os movimentos socialistas de diversos matizes compuseram a dissidência do primeiro tipo, mapeados por Marx e Engels nas páginas finais do Manifesto comunista de 1848, o movimento hippie dos anos sessenta pode ser tomado como um ícone do segundo tipo.

Nos dias atuais, novos movimentos dissidentes desligados de utopias ou de programas coletivos conjuntos estão no palco. Dois deles surgiram recentemente nos Estados Unidos e na China. O primeiro ganhou o nome de Great Resignation em 2021. Entre 2021 e 2022 a China testemunhou o Tang Ping.

Great Resignation (Grande Resignação) e Tang Ping (Deitar-se) comungam os mesmos incômodos: os jovens abandonam seus empregos, carreiras, e decidem não fazer nada ou tentam fazer o mínimo para a sobrevivência. O que querem e o que pedem? Ora, que a vida lhes devolva o viver.

Segundo o que dizem, o trabalho vinha lhes roubando relações pessoais e tempo para poderem fazer coisas mais apetecíveis segundo gostos individuais. O trabalho estava lhes sequestrando a vida, impondo-lhes situações de postergação de realizações pessoais simples, talvez mais importantes. Isso sem contar os problemas das relações próprias do trabalho, como enfrentamento de patrões ou cobranças em excesso.

Em certo sentido, tais movimento são até mais radicais, no sentido da negação, que o dos hippies. Nos anos sessenta e setenta, com pouca consciência de que o modo fordista de produção estava chegando ao fim e que os “anos de ouro do capitalismo” iriam acabar, os hippies se opuseram à vida do trabalho. Propunham uma “volta à natureza”, uma certa vagabundagem, e se tinham algum projeto comunitário, era o de criar “sociedades alternativas” dentro do próprio capitalismo, simplesmente por meio do abandono da vida moderna. Diferentemente, o Great Resignation e o Tang Ping, criados agora, quarenta anos após o início do pós-fordismo, da biopolítica como totalidade e do neoliberalismo como forma de governança, não possuem qualquer projeto comunitário. Há o desligamento. Há o ficar deitado. Não vou mais ao trabalho – não este aí, diz o americano. Fico deitado, diz o chinês. São posturas não simplesmente individuais, mas, em certo sentido, individualistas, ainda que bastante comunicadas pela Internet.

Os hippies denunciavam a “sociedade de consumo”, e tinham a nova comunidade em consonância com a natureza como algo promissor. Os adeptos da Great Resignation e do Tang Ping não possuem mais no horizonte a “sociedade de consumo”, mas o consumo por demanda, que não os incomoda. O que os incomoda é que o Eu soberano, prometido pelo neoliberalismo, parece não ter tempo para ser um eu realmente soberano, em seus gostos, uma vez que o “empresário de si mesmo” – ideal desses nosso tempos – se mostra como uma mentira.

A vida proposta pelos hippies tinha no retrovisor os males do totalitarismo industrial em duas versões: o da sociedade planejada, porém sem liberdade, do chamado “socialismo real” da URSS e satélites, e o da sociedade capitalista do Ocidente, que jogava todos que não podiam fazer universidade muito mais cedo que outros para as fábricas, onde reinava o “trabalho alienado”, como se dizia na época.

A proposta de vida dos adeptos da Great Resignation e do Tang Ping não é bem clara, até porque nada é coletivo e organizado. O que se quer é ter de volta algo que parece se confundir com a própria vida: o direito de usufruir do tempo, a organização do tempo. O capitalismo vigente, sob o tacão neoliberal, forja o indivíduo narcísico, e este se revolta narcisicamente.

Os hippies tinham como lema central o “make love not war”, o “faça amor não faça a guerra”, forjado em meio aos grandes protestos americanos contra a Guerra do Vietnã. Os jovens da Great Resignation e do Tang Ping preferem não fazer nada, nem mesmo amor. Assim, os movimentos atuais mostram que parte do desiderato do neoliberalismo está em suas entranhas, mesmo quando o estão negando. O neoliberalismo e seu sequestro do tempo, na invenção do “prosumidor” (o produtor-consumidor) que carrega o celular como elemento de lazer que é na verdade trabalho e vice-versa, indistintamente, joga para escanteio a libido.

A criação de um mundo de império do biocapitalismo, em que a vida como um todo, o corpo como um todo é ininterruptamente posto sob domínio, sem jornada de trabalho delimitada, forja uma extenuação, Mas, é claro, não é por simples cansaço que a libido é abatida. A deserotização crescente que, enfim, leva a imprensa a noticiar, baseada em estatísticas, o “apagão sexual”, se desenvolve por conta de várias distinções quebradas na época neoliberal. Junto com o trabalho precarizado e a fusão entre lazer e trabalho, no capitalismo financeirizado e, por isso mesmo, digitalizado, nubla-se a fronteira entre o que ser adulto e o que é viver a infância. Crianças dos países ricos ou da classe mais abastada dos países pobres trabalham ao jogar, junto com adultos; elas também investem na bolsa, junto com adultos; e estes param de fazer sexo, uma vez infantilizados. A vida digital requer nova percepção e uma concentração da atenção que até busca provocar as pessoas para o sexo virtual, e a indústria farmacêutica joga seu peso nas drogas de estilo Viagra, mas o resultado dessas incursões salvadoras, exatamente por conta de sua proliferação, mostra seu fracasso. Na verdade, o biocapitalismo enquanto forma totalizadora de exploração ganha as pessoas para o desinteresse em relação ao outro. Se é para fazer sexo, então, que seja masturbatório. Rápido, seguro, asséptico, e ainda tem o principal: pode-se fazer junto do mais querido companheiro – o Iphone.

Médicos e psicólogos são chamados a opinar sobre o “apagão sexual”. Mas eles se recusam a olhar para os dissidentes do capitalismo e sua história comparativa. O neoliberalismo lhes é conhecido, mas eles não o entendem como um campo que engloba várias revoluções dos últimos quarenta anos, que nos tirou o mundo que conhecíamos. O mundo que nos foi tirado tinha o outro como importante (inclusive como objeto de inveja, na sociedade de consumo vigente então). O prazer da vida era estar com o outro, em especial no campo corporal íntimo. A intimidade não existe entre parceiros sexuais atuais. Eles mal sabem o que é isso. Por isso mesmo, se um mendigo faz sexo melhor que um rapaz de classe média, ele é ou visto como tarado ou, rapidamente, se assume que a mulher era louca e o rapaz nada além de mais um corno. E cornos, sabemos, são figuras antiquíssimas.

O que médicos e psicólogos não sabem, mesmo sendo eles os mais próximos dos corpos, que nossa sociedade promoveu, com a cidade digitalizada que substituiu a fábrica, uma sociedade sem corpos. Os hippies tinham corpos. Eles mostravam isso nas roupas, na nudez e nas drogas ritualizadas. Eles viveram os últimos anos em que o dinheiro ainda era corpóreo, porque tinha lastro. A geração dissidente atual está envolvida com o dinheiro fiduciário, sem lastro ouro, com referência em “base monetária” que ninguém sabe direito o que é. A tela do computador é o reino da semiotização do capitalismo. Muito símbolo e pouca semântica. Muita alusão ao corpo simbolizado ou sequencializado pela pornografia, e pouca atuação do corpo concreto. E se alguém acha que ainda tem corpo, não pode nunca sentir desejo, e logo é convencido da nova realidade. Bastou sentir algo e a academia de ginástica aparece para suprir, ou a fábrica de chocolate, ou simplesmente o IFood do celular. Não dá tempo de ter desejos! Não há tempo para perceber desejos do corpo como efetivamente corpóreos. E mesmo os pobres que sentem fome, logo se acostumam. A fome vira desnutrição, e não mais dor no estômago.

Os hippies adoravam a natureza. Os dissidentes atuais adoram peças. A paisagem era algo dos hippies. O Iphone, a peça, é algo da dissidência atual. A paisagem jogava para a calmaria e para o amor. A peça joga todos para o frenesi do virtual. O virtual é o reino de todas as possibilidades atuais, menos a de fazer crescer a libido. Então, a vagina se torna vagina, perde sua condição de xana, transforma-se em parte do que sustenta não o amor, mas a pornografia que, afinal, é o que todos os políticos exigem da vida ética: que tudo seja transparente, visível. Dsse modo, a xana deixa de ser o local da carne, da bem aventurança e do pecado. Aliás, como pode haver pecado em algo liso e depilado? Nem amor! O amor em algo liso não é amor, é patinação.

Os hippies lutaram contra a objetificação da alma. Os dissidentes atuais, não conseguindo fazer sexo, absorvem o lema dos identitários, forjados pelo neoliberalismo: “não objetifique o corpo”. Ora, mas o corpo não está objetificado. Ele está sumido, diluído em pixels! O capitalismo forjou uma dissidência atual que não vai levar a um total apagão sexual, mas já nos trouxe a algo que vem se desenvolvendo a passos largos, que é a deserotização geral de nossa civilização em um grau maior do que aquele que imaginávamos que já existia, quando nos anos sessenta e setenta, culpávamos a fábrica por tudo de errado. Eros é quem está, novamente, sendo apagado. Do mundo antigo para o nosso, ele perdeu a condição de deus para ser disposição, agora, nem isso.

Paulo Ghiraldelli, 65, filósofo, escritor, professor e jornalista.

Tang Ping