Pular para o conteúdo

A China científica (Folha de S. Paulo) 18/01/2022

Paulo Ghiraldelli – Filósofo e autor, entre outros livros, de ‘Narrativas Contemporâneas’ e ‘A República Brasileira: de Deodoro a Bolsonaro’ (Cefa Editorial)

A China não ultrapassou de modo significativo os Estados Unidos em produção científica, avisou o meu amigo Hélio Schwartzman nesta Folha (“China ultrapassa os EUA na produção científica”; 1/1), corrigindo uma notícia que havia saído na imprensa. Mas diz Schwartzman que a ciência chinesa vem se desenvolvendo de forma robusta, o que é verdade. Ele duvida que a mesma possa crescer sem liberdade; todavia, para não ser pego de surpresa, coloca uma ressalva: “ditaduras podem se reinventar”.

Caso confiemos na noção de Marx de “general intellect” (“intelecto geral”), exposta nos Grundrisse, é difícil acreditar na frase “ditaduras podem se reinventar”, como no contexto do artigo de Schwartzman. Se essa noção de Marx é reescrita nos termos do economista suíço Christian Marazzi, menos ainda.

Marx utilizou a expressão “general intellect”, significativamente grafada em inglês, para falar de um saber difuso na sociedade, capaz de conter a ciência e a técnica incorporada no capital fixo (em especial na maquinaria). Os chamados operaístas ou pós-operaístas, em especial Marazzi, preferem utilizar o termo como saber difuso que alimenta a produção e a circulação de mercadorias e que está no corpo dos trabalhadores, agora funcionando cada vez mais em rede.

Nesse caso, o “general intellect” é do âmbito do capital variável. Trata-se de um saber (e de afetos) que se ampliou significativamente a partir da universalização da escola pública em diversos países do Ocidente e passou a funcionar potencializado com a internet.

No regime atual de trabalho, em que a fábrica perdeu operários por conta da maquinização e a cidade se tornou uma grande fábrica que se digitalizou —como observa outro operaísta, Toni Negri—, todos nós trabalhamos em comunicação, gerando o “general intellect” de um modo ampliado e potencializado. Todo esse trabalho é o chamado trabalho não pago, que origina a “mais-valia social”, pois o saber em rede é apropriado pelos monopólios privados, que o devolvem para nós mesmos em forma de produtos feitos na base de tecnologia.

Diga-se de passagem, é por conta disso que há, entre várias correntes políticas, a ideia de que é justo, possível e necessário um salário para todos, independentemente de estarem formalmente empregados ou mesmo de serem autônomos. Afinal, horário de lazer e horário de trabalho estão agora fundidos.

Esse modo de trabalho exige liberdade. Sem ele, o capitalismo deixa de funcionar. Querer controlar esse trabalho de modo que aspectos políticos sejam isolados de aspectos científicos é uma ideia de um positivismo ingênuo. Pode até estar na cabeça dos líderes chineses, educados em certo marxismo efetivamente positivista, que, enfim, não estava longe de adoção por Marx. Este, uma certa época, chegou a imaginar que certos saberes podiam ser postos na escola; enquanto outros, mais ideológicos, deveriam ser afastados. Essa tese da possibilidade de separação de saberes não se sustenta. Menos ainda no caso desse saber ser o responsável pelo desenvolvimento de um país.

Não é preciso combatê-la teoricamente, basta praticar a ciência um pouco e logo vemos sua impossibilidade. Há saberes sociais e políticos que são inerentes aos saberes em ciências outras, aparentemente mais distantes desse campo. O fato é que, quando há mudanças de paradigmas, assumidas conscientemente, todas as ciências se encontram imiscuídas em decisões políticas e sociais.

Nessa hora, toda forma de organização da sociedade é, de alguma maneira, questionada.
Caso os chineses pensem que possam evoluir cientificamente sem liberdade, sem alguma forma de democracia, irão tornar o “general intellect” inútil. Terão um capitalismo burro —como ocorreu, aliás, com a URSS, que gerou um socialismo burro.

O artigo foi publicado originalmente na Folha de S. Paulo

China científica