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Há um espectro que ronda a Europa, o fantasma da União Soviética

Há pouco de geopolítica, nada de análise do capitalismo e, enfim, muito de resquícios de uma subjetividade juvenil no que boa parte da esquerda diz da invasão da Ucrânia por Putin.

Há os que não escondem, sem qualquer rubor, que torcem para Putin. Justificam tudo que o ditador faz, e às vezes até reproduzem suas mentiras esfarrapadas, como a de que invadiu a Ucrânia para tirar nazistas ou que agiu por conta das ameaças da Otan. Contra os que reproduzem isso, é besteira dizer algo ou argumentar. Quem engole mentiras de Putin não dá para ser levado a sério.

Há os que tentam falar contra Putin, mas gastam todo o tempo falando contra Biden e o Ocidente. Quando vão falar contra Putin, o tempo acabou da palestra acabou! Ficam aliviados, pois queriam, mesmo, só falar contra o Ocidente. Contra estes, eu até argumento, e em geral procuro fazer com eles um processo de anamnese. Explico que o caso agora são os crimes de guerra do invasor, a Otan não atacou ninguém. Ou seja, quando falamos de invasão da Ucrânia o assunto é invasão da Ucrânia, chamar assuntos paralelos é tergiversar. Falar em russofobia pode ser apenas desvio para não encarar o que Putin está fazendo.

Há uns terceiros, que são honestamente contra Putin, mas que não conseguem condená-lo sem antes condenar o Ocidente (o Brasil não estaria no Ocidente!) e principalmente os Estados Unidos (que eles não enxergam como tendo governo, e preferem condenar também o povo americano!). Estes não percebem que o caso atual não diz respeito senão à invasão de Putin, e outras invasões foram tratadas em suas épocas. Bem, a respeito desse tipo de pessoa, eu tendo a pesquisar sobre seu passado, procuro encontrar razões para seu comportamento, nem sempre condizente com sua notória e boa inteligência. Noto então que, entre estes, há bons e sérios intelectuais. Alguns da minha idade, e também da geração mais velha, a de meus professores. É fácil perceber que, nesse caso, o que pesa é o espectro que ronda a Europa, o fantasma da União Soviética.

Muitos desses intelectuais ainda não viram, como deveriam ver e sentir, que o Muro de Berlin realmente caiu. Não notam que o fantasma da URSS permaneceu aí pairando, e uma tal coisa representa exatamente a parte pior daquele império ruído no início dos anos noventa: a KGB. Só isso sobrou. A KGB capitalista, que formou a oligarquia que sustenta (ainda) Putin no poder, lhe dando forças para ser o ditador que é, e o ditador que quer ser, com mais poderes ainda. Junto com a máfia russa e com a Igreja Ortodoxa, essa gente transformou a Rússia em um país de economia fraca, ainda que seja uma potência nuclear. Esses intelectuais que são amenos para com Putin agem como agem por qual razão?

Fazem o que fazem porque aprenderam, na juventude, a odiar os Estados Unidos não por conta da Guerra do Vietnã. Não gostam de lembrar disso, pois a tal guerra foi combatida pelos movimentos populares de dentro dos Estados Unidos. E para esses intelectuais, não é bom lembrar que a democracia americana permite esses protestos, coisa que a ditadura da URSS não permitia e coisa que Putin não permite. O que marcou mesmo a esquerda brasileira, e a faz cativa do anti-americanismo e até mesmo do anti-ocidentalismo, foi o apoio americano às ditaduras latino americanas de direita. Muitos dos intelectuais anti-americanistas sofreram nos porões da ditadura brasileira instaurada em 1964. Não é fácil mudar isso, fazer uma terapia desses tempos. Confesso que a terapia que fiz talvez não tenha me curado, mas me deixou apto a não endossar o anti-americanismo como eu fazia na juventude.

O que me ajudou foi ter enveredado por estudos filosóficos acoplados a estudos da educação. Ler Anísio Teixeira me fez ler John Dewey, e então notar que Paulo Freire tinha bebido antes nessa fonte que no marxismo. Foi mais fácil para mim, portanto, entender Richard Rorty, um filósofo da esquerda americana. Para mim, hoje, é mais fácil entender a luta da parlamentar Alexandria Ocasio-Cortez, que é diferente da de Bernie Sanders. Este, ainda denuncia o imperialismo americano. Ora, da minha parte, prefiro o conceito de império de Toni Negri e dos operaístas italianos do que o conceito de imperialismo. Aprendi a ver a América por dentro, e não pela sua política externa comandada, não raro, pelo Pentágono em associação com os industriais que lucram com guerras. A América por dentro me mostrou Eugene Debs, Sidney Hook, Dewey, Luther King, Rorty, Cornel West e tantos outros que nunca abriram mão da democracia. Aprendi a entender a carta de Marx a Lincoln, na qual o filósofo disse que o proletariado do mundo seguiria o caminho aberto pelos trabalhadores do “país da bandeira listrada”. E foi então que comecei a ver os americanos de maneira mais complexa, menos maniqueísta. Mas, sei bem, esta última forma é, ainda, a visão de muitos intelectuais brasileiros.

O espectro que ronda a Europa, que é o da URSS, ronda o Brasil, e aqui ele se aninha nas asas de outro espectro, o da Ditadura de 1964. Para gente que pensa só por conta desses fantasmas, há a tendência em achar que Putin possa ser um vingador dos oprimidos. Mas ele não é. Ele é um homem solitário que está destruindo a Rússia, e que no momento em que escrevo já prendeu mais de 20 mil pessoas que protestavam contra a invasão da Ucrânia. Isso sem contar sua autorização para matar civis, bombardeando até mesmo hospitais.

Mas, o que temo mesmo, de verdade, é que a esquerda que tende a odiar o Ocidente e perdoar Putin, ou igualar as coisas, não seja uma esquerda anticapitalista. Talvez seja uma esquerda que nem pensa no capitalismo seriamente, e que tem apreço por Putin porque ele restaura o sabor estalinista da censura e do desapreço pela democracia.

Paulo Ghiraldelli, 65, filósofo, escritor, professor e jornalista.

O Espectro: URSS