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Lula tem tudo na mão para perder as eleições

Filosofia é a arte de dar e pedir razões (Robert Brandon). Também é racionalização da história (Hegel). A ciência e a religião é que se dedicam ao futuro. A primeira sabe o que vai acontecer por indução matemática, a segunda porque “tudo já está escrito” e vai se repetir. Como filósofo, nada tenho, portanto, com previsões. Lula vai perder as eleições, eu digo, mas faço isso por conta de condicionantes que o próprio Lula tem chances de modificar. Não é futurologia.

Eis minha argumentação, resumida ao máximo.

O Brasil se desindustrializou nos últimos quarenta anos. A culpa é do capitalismo globalizante e de sua gestão neoliberal, que nos pareceu ser a única saída quando, no desespero de ter de combater a inflação que parecia crônica, optamos por continuar o plano de Fernando Collor por meio de Fernando Henrique. O Plano Real foi a porta aberta para adentramos no mundo preparado por Reagan, Thatcher e os Chigago’s Boys. Em seguida, a partir de termos de sustentar o tripé macro-econômico posto com sequência natural do Plano Real, entramos para o reino da flexibilização das leis que permitiram que o capitalismo financeirizado se realizasse entre nós. Nossa desindustrialização já vinha a passos largos, e então adquiriu velocidade inaudita a partir dessa mudança no padrão de acumulação do capital. O resultado disso tudo para a cultura escolar foi fatal.

Não sendo um país industrial, mas com um setor de serviços agigantado, o Brasil passou a ter uma população que começou a se desinteressar pela escola, em termos reais de aquisição de conteúdos. Um país industrial possui mercado exigente, e obriga boa parte da população a dar importância para a escola para viver e prosperar. Um país sem indústrias tende a ter um mercado de trabalho que exige menos, e a população logo se desinteressa da escola, uma vez que percebe que pode se acomodar sem adquirir os conhecimentos que as populações dos países mais desenvolvidos leva em alta conta.

A juventude de nosso país, diferente dos anos cinquenta até os anos oitenta, não vê mais sentido no lema daqueles tempos. Até os anos oitenta era comum um pai dizer a um filho: vou lhe deixar uma herança que nenhum ladrão pode roubar: estudo. Nenhum jovem hoje acharia interessante um pai com esse discurso. O Brasil se tornou mais informado, mas não informado do que importa para se ter uma boa formação. Nesse sentido, nossa política retrocedeu. Imaginávamos nos anos oitenta que sairíamos do populismo, que marcou nossa política republicana. Mas, em meados dos anos noventa, Lula, ele próprio, adquiriu ares brizolísticos e se tornou um populista. Ele se convenceu de que esse era o caminho único para se chegar ao poder de estado e governar. E pensou que não iria governar, mas reinar. Quando terminou seu segundo governo com aprovação fantástica de quase todos os brasileiros, acreditou que podia ter um terceiro mandato através de Dilma, mesmo tendo havido mensalão e mesmo ele sabendo que o PT havia se aliado à corrupção e se envolvido com ela.

Por essa época, Lula, embalado pelo sucesso de números, nos seus dias de maior megalomania chegou a dizer que iria provar que não havia havido mensalão! Depois, começou a desfilar mais arrogante ainda, dizendo que se a Justiça o prendesse, viraria herói, e se não o prendesse, viraria presidente. Os que estavam no seu encalço escutaram calados e prepararam o bote.

Lula não esperava que Dilma ousasse pegar o caminho do que ela e sua equipe chamaram de Nova Matriz Econômica, em detrimento do tripé macro-econômico. Dilma errou feio. (1) E o PT foi envolvido pela judicialização da política imposta pela classe média, que fez de Moro seu herói, justamente na medida em que esta sentiu que tinha ganhado menos que os ricos e menos que os pobres com o PT no governo. Nasceu daí na imprensa – Rede Globo à frente – um forte antipetismo, mais forte que o lacerdismo, nas sua oposição ao varguismo. A direita emergiu então com potência, empurrada também por ventos do exterior. Tudo parecia crer que o PSDB pegaria o governo, na onda conservadora. Mas Aécio Neves se inviabilizou como candidato, também envolvido em corrupção, e a eleição de 2018 sobrou para o tosco deputado Bolsonaro. Ele estava muito mais afinado, em termos de perfil, com o primitivismo dos governantes mundiais reinantes nessa leva da segunda metade dos anos dez deste novo século.

Bolsonaro é homem que jamais conseguiu fazer uma regra de três. Sua ideologia estava na crista da onda, empurrada goela abaixo nas pessoas toscas como ele próprio, disseminada pela agência do ressentido desescolarizado Olavo de Carvalho, que nunca criou nada, e que apenas copiava textos da extrema direita libertária americana. Olavo tinha um braço na classe média através de gente como Luís Felipe Pondé, Reinaldo Azevedo, Diogo Mainardi e penduricalhos menos “descolados”, como Neumanne Pinto e coisas do tipo. Eram versões quase laicas, para o público da Casa do Saber, daquilo que no meio menos metido a intelectual era comandado por Malafaia e o Bispo Macedo. Tudo isso aglutinou em uma massa amorfa e fedorenta a parte do Brasil que nós, intelectuais amorosos com o Iluminismo, nunca havíamos realmente admitido existir, e que só pela Internet é que realmente vimos que de fato existia.

Ora, mas deveríamos ter nos espantado. Se havia um público capaz de seguir o populismo de esquerda, por que o Brasil não teria, então, um público emburrecido capaz de seguir o populismo de direita? Em um país em que o jovem só se interessa pela escola (isso quando se interessa) por conta do diploma, por que não haveriam milhões de tios do pavê dispostos a ficar horrorizados com o novo discurso da esquerda, importado dos Estados Unidos em sua pior parte, o identitarismo. Tio do pavê reitera sempre que “não quer saber de menino que se diz menina” e muito menos quer saber de gente que invade sua casa – mesmo que o banco já tenha tomado sua casa e mesmo que ele nem tenha casa! Como toda sociedade de desigualdade gritante, o Brasil é um país de ressentimento crescente. O ressentimento da população brasileira se ampliou exatamente na medida em que muitos sentiram que o fracasso econômico do governo Dilma somado à fama de corrupto que caiu nas costas do PT foi aumentando. Bolsonaro até hoje é o herdeiro disso, desse ressentimento. Ele ajuda a classe média a exportar sua ideologia para baixo e para cima na pirâmide social, a ideologia da classe média a do tio do pavê.

O antipetismo diminuiu? Sim, mas não o suficiente para Lula ficar tranquilo. Bolsonaro tem verbas para a eleição. Tem a militância gratuita do tio do pavê, fervoroso nas rede sociais. Além disso, os mortos – mais de 600 mil pela covid via Bolsonaro – não falam e nem votam. Por sua vez, Lula tem contra ele, em seu próprio terreno partidário, a pauta identitária e as posições antidemocráticas e antipáticas de quem gosta de Putin, dos pseudo-jornalistas que espantam gente inteligente, ou seja, os que se recolhem no 247, DCM, Sakamotos e coisas do gênero – que são versões ditas de esquerda, em termos de cabeça-dura, ao tio do pavê. Tem também gente que adora censurar outros e por o dedo na cara de todo mundo, algo própria dessa esquerda. Em toda residência há um tio do pavê, mas também um esquerdista identitário que, aos olhos do tio nada é senão uma “bicha arrogante”. Nem sempre o resto da família fica do lado da “bicha”.

O tio do pavê é um troglodita. Mas ele adquire força quando a imprensa alimenta o esquerdista identitário que não sabe mais o que é “classe trabalhadora”, e que faz até o próprio Lula esquecer esse termo. Nessa disputa, Bolsonaro é um forte candidato contra Lula, mesmo que este se mantenha na liderança das pesquisas até às vésperas da eleição, e mesmo que o preço dos combustíveis coma o brasileiro pela perna.

(1) Tudo isso está melhor explicado em meus dois livros A República brasileira: de Deodoro a Bolsonaro, e A democracia de Bolsonaro, ambos do CEFA Editorial.

Lula