Pondé é o verdadeiro mentor de Arthur do Val e do MBL

A direita se conforma em sacrificar seus militantes, contanto que consiga preservar seus ideólogos. Os ideólogos da direita devem ser protegidos, pois na perda de militantes, são eles que irão colocar na chocadeira novos quadros. O ódio da direita contra mim vem de eu não perdoar os ideólogos.

No momento atual, Arthur do Val está sendo posto na berlinda por conta não de seu erro na Ucrânia somente, mas por tudo que ele já fez de condenável durante todo esse tempo de militância no MBL. Nem bem havia passado o inferno astral do Kim Kataguiri, na sua abertura de portas para o nazismo, e eis que o deputado Mamãe Falei também caiu um desgraça. Então, a própria direita, em todas as suas frentes, começa a cogitar em isolar o MBL e até a pedir o seu desaparecimento. Todavia, todo o silêncio é feito em relação aos que criaram e nutriram esse tipo de ex-juventude dita liberal.

O mentor inicial do MBL foi, sem dúvida, Olavo de Carvalho. Mas aquele que realmente se empenhou pessoalmente em nutrir os jovens que se autoproclamaram como os que derrubaram a presidente Dilma, se chama Luis Felipe Pondé, articulista da Folha de S. Paulo. Ele esteve em palestras para criar o Partido Novo e esteve junto, em diversos momentos, com Janaína Paschoal, Kim Kataguiri, Caio Copolla e, é claro, Arthur do Val. E o que ele ensinou para essa gente, em especial para o último? Cito Pondé:

“Se um dia não existir mais mulheres que cobram por sexo (de modo direto e sem rodeios), a violência no mundo será ainda maior. Sexo e amor sempre custam dinheiro, além de outras coisas. Aliás, a garota de programa é a mulher menos cara do mundo, custa só dinheiro” (A deliciosa nudez será castigada, Folha de S. Paulo, 2013).

Eu não vou lembrar aqui as mil vezes que membros do MBL disseram coisas aprendidas a partir desse desprezo de Pondé pela mulher e pelos pobres. Seria não só enfadonho, mas revoltante. Recordo apenas a frase de Arthur do Val na Ucrânia, ao notar as mulheres aglomeradas e depressivas nas filas de refugiados: “são fáceis porque são pobres”.

Pondé ensinou isso diretamente, durante anos escrevendo besteiras na Folha de S. Paulo, com a mentira de que se tratava de filosofia, quando na verdade nada era senão o esteio preparatório para o mundo nojento que veio à tona com o bolsonarismo, do qual o MBL é parte. A ideia básica de Pondé sobre a prostituição é que ela é natural. Ou seja, as mulheres são naturalmente putas ou, ao menos, sempre houve e haverá mulheres que se dedicarão a serem usadas por homens por dinheiro. Essa naturalização da prostituição é um erro crasso. Aliás, toda naturalização banal da conduta humana é um erro. Qualquer estudante de ciências humanas de colégio sabe disso. Aprendemos isso com o século XIX, que nos ensinou a historiar tudo, inclusive a própria natureza. Pondé está aquém do século XIX porque está aquém do saber de colégio.

O segundo erro crasso de Pondé é ligar um mundo em que a mulher não é posta à disposição do dinheiro, de maneira a lhe tirar a dignidade – pois a prostituição é isso – e o aumento da violência. É que Pondé entende que ou os homens jogam espermas dentro de buracos de coisas chamadas mulheres, sem ter a mínima noção do que se está fazendo, ou então eles começarão a quebrar tudo. Pondé deve temer homens violentos que, sem gastar a cota de esperma diário em mulheres vilipendiadas, poderão entrar em seu apartamento para descontar nele a violência contida. Pondé teme a violência desses homens, ou no fundo ele até sonha com ela, uma vez que parece que ele sente um certo prazer no sexo como forma de humilhação. Que violência a mais poderíamos imaginar, para o mundo, além dessa, que ocorre com meninas e mulheres no mundo todo?

“São fáceis porque são pobres” não é de modo algum uma frase de Arthur do Val. Ela é uma frase que ele pronunciou sem culpa, pois ele a aprendeu a partir do discurso de alguém a quem ele conferiu autoridade. Afinal, por que ele não pode dizer, com suas palavras, aquilo que alguém que tem status de colunista da Folha de S. Paulo (esse tipo de status importa muito para gente que vive da política!), e que até se diz filósofo, fala todos os dias citando autores aqui e acolá?

Arthur nesse momento está sozinho. Eu havia feito vídeo há algum tempo, dizendo diretamente para ele que ele iria entrar por um buraco. Ele não quis me ouvir. E realmente agora está num poço. Pondé vai salvá-lo? Não! Do mesmo modo que Pondé acabou por enterrar ainda mais Kim Kataguiri e Monark, gente que aprendeu o que aprendeu com as suas falas, ele agora vai deixar Arthur sangrar sozinho. Vai tergiversar e, no fundo, condenar. Talvez diga que foi burrice, falta de preparo para ser liberal etc. Ou seja, se disser algo, vai fazer o que já fez com o Kim. Pondé é antes de tudo um covarde. Sua desonestidade intelectual, de falar do que não leu, fica até pequena perto de sua covardia.

Pondé passou anos tentando diminuir os pobres, pisando na cabeça das mulheres pobres e, enfim, agora que Moro e Bolsonaro não estão bem diante da população, ele tenta amenizar, escapar de ser chamado de homem da direita. Até nisso, sua covardia se faz sem que ele possa ficar ruborizado. Para ser covarde como ele é, foi preciso antes de tudo se tornar alienado. Essa sua alienação o tornou cínico.

Paulo Ghiraldelli, 65, filósofo, professor, escritor e jornalista