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O QUE É E O QUE NÃO É OBJETIFICAÇÃO DA MULHER

Objetificação da mulher. É preciso esclarecer. Pois os termos sujeito e objeto às vezes são empregados sem que tenham a atenção devida sobre eles.

Apreciar a beleza feminina, postar fotos de uma mulher bela, não é objetificar a mulher. Sempre posto fotos da Mariangela, minha esposa. Também exibo aqui mulheres do esporte que se destacam. Sem contar que eu mesmo, por ser desenhista, tenho meus quadros e rascunhos de mulheres nuas. Se você põe fotos de uma mulher com o consentimento dela, ou fotos de uma mulher que tem visibilidade pública, você está fazendo o oposto da objetificação, você está transformando a mulher em sujeito. Ela é o sujeito da ação estética sobre os olhos dos apreciadores. Ela comanda a ação estética e dirige todo o ambiente.

Objetificar é tornar objeto, é fazer de algo não o sujeito, mas o que se pode pegar para colocar em qualquer lugar. O object é o que está posto pelo subject. Nesse sentido, é o resultado de possível manipulação e, em certo sentido, até desprezo. Objetificar nesse sentido é coisificar.

O que o Pondé fala ao dizer objetificar, no sentido de que a mulher precisa ser tratada como objeto, é um profundo desconhecimento da mulher e do amor. Ele usa objetificação como coisificação. Ora, isso não cabe. O homem pode ter gana de pegar a mulher para o sexo assim como a mulher deve fazer o mesmo, pois sem gana não há adrenalina e sem adrenalina o ato sexual pode ser falho. Ou seja, nesse caso, estamos em pleno ato sexual, e não em ações estéticas ou mesmo em situação pré-nupciais ou, mais claramente, pré-coito. No entanto, justamente no gozo, juntos, ambos se tornam sujeitos de ação de produzir prazer mútuo, em uma situação de dupla mão: busca-se dar prazer e sentir prazer e ao sentir prazer dar mais prazer. Essa troca dupla não implica mais em objetificação, mas em tornar um o que era até aquele momento dois. E nesse dois que se torna um, há o sujeito, o que realiza a ação do amor. Pondé nunca gozou junto com mulher alguma, por isso não sabe o que fala. Ele instruiu o MBL no desprezo à mulher. Deu no que deu, olhem aí o Arthur do Val!

A frase dele é a seguinte: “como achar uma mulher gostosa sem pensar nela como objeto? A pior forma de solidão a que se pode condenar uma mulher é a solidão de não fazê-la, de vez em quando, de objeto”. Veja mais: “O que é um homem “mulherzinha”? É um homem que tem medo de que as mulheres achem-no machista, quando, na verdade, todo homem (normal) gosta de pensar em mulher como objeto.” (Folha de S. Paulo, 2011)

Ora, ninguém sadio pode ter prazer sendo um Arthur do Val, seguidor do Pondé, que vê a mulher vulnerável e a acha “fácil”, ou seja, a acha objeto por conta da pobreza, e então verifica que tem tesão. Esse tipo de objetificação é a coisificação, é a objetificação da prostituição e da ideia de se aproveitar do vulnerável. Isso nada tem a ver com a pequena objetificação que aparece antes no momento do sexo em que é preciso energia, pois esse momento é apenas preparatório do momento seguinte, do gozo mútuo, e do surgimento do dois-em-um (Robert Nozick) enquanto sujeito.

Espero ter deixado claro. Homem com “pegada” não é um homem que dispõe da mulher, é homem que faz a mulher saber que entrou num jogo de dupla mão, de empoderamento mútuo, e que ela ali é mais sujeito do que até então, quando for sujeito duplo. As pessoas que têm orgasmo me entenderão, as outras irão ficar com Pondé ou então apenas torcer o nariz para ele, mas sem entender onde está seu erro.

Paulo Ghiraldelli, 65, filósofo, professor, escritor e jornalista