Por que Putin insiste na Guerra?

Talvez assim, de nome, você não saiba quem é Carlos Alberto Sardenberg. Mas se digo que ele é (ou foi?) o comentarista de economia do Jornal da Noite da Rede Globo, creio que você irá se lembrar dele, não? Ora, como todos nós, Sardenberg está fornecendo narrativas sobre a guerra na Ucrânia, tentando entender o que está ocorrendo. Creio que do ponto de vista humanitário e das leis internacionais que todos compartilhamos no Ocidente, ele está correto ao dizer que “A Rússia é culpada, sem adversativas”. Todavia, quando ele sai do campo do julgamento ético e legal para as causas de como as coisas estão se desenvolvendo, não creio que possamos apostar em tudo que ele fala. Destaco esse trecho:

“Como não dá a menor atenção a questões ambientais, sociais e de sustentabilidade, o presidente Putin não percebeu a enorme mudança ocorrida nas corporações privadas ocidentais: a era da responsabilidade social. E, assim, cometeu o maior erro de cálculo de seu ataque à Ucrânia: não imaginou que as grandes multinacionais, envolvidas em negócios bilionários com o governo e empresas russas, pudessem aderir de maneira avassaladora às sanções contra o país. […] Por que fazem isso? Porque, no mundo corporativo contemporâneo, contam muito os valores éticos, a responsabilidade com o público e a sociedade. Muita gente dizia que isso de ESG — environmental, social and governance — era puro marketing. Uma enganação para parecer politicamente correto. Mas o verdadeiro cancelamento que as multinacionais impuseram aos negócios com a Rússia teve efeitos devastadores.” (O Globo, 05/03/2022).

Será mesmo que podemos afirmar isso? Será que ESG é agora tudo que precisamos para acabar com ditadores que se opõe ao capitalismo internacionalizado e preferem, mutatis mutandis, a versão estalinista que chamamos aqui de “capitalismo em um só país”? Tenho minhas dúvidas.

O público que consome ações e títulos, enfim, o público que se enfiou no mercado financeiro, não é pequeno, mas ainda está às cegas. Compram pacotes e não sabem direito o que estão comprando. E mesmo que soubessem, a distância entre o que se recebe de juros e o que as companhias reais fazem não permite uma consciência tão nítida a ponto de ser um motor real para que as diretorias das grandes companhias adquiram consciência social. Nós vimos aqui no Brasil a imprensa bombardear a Vale por conta dos acidentes ecológicos horríveis, que fizeram desaparecer cidades inteiras, e isso não causou nenhuma alteração no destino da política da empresa para com o meio ambiente. Nem mesmo mudou seu descaso para com as vítimas. No mundo todo, as empresas tem criado fundos, preparando-se para disputas jurídicas dos que foram prejudicados por elas. Elas podem mudar com a ESG, mas elas parecem saber que a consciência ecológica de grupos não tem tanto poder sobre compra ou não compra de papéis na jogatina do mercado financeiro.

Não anulo a ideia de Sardenberg, mas prefiro colocar mais ingredientes nessa fervura. Posso colocar três elementos a mais no pote.

Primeiro deles: a disputa que temos na guerra é entre duas formas de capitalismo, o globalizado que é neoliberal e responde pelos caminhos do Ocidente, e o capitalismo de Putin que pode parecer, no horizonte, inclusive por conta de opções por guerra, como mais um entrave para a acumulação capitalista. O neoliberalismo está em crise, mas nada há no horizonte capitalista para colocar em seu lugar, então, ele segue avançando. Guerras e regras de Putin não parecem coadunar com o mundo de paz, de livre mercado, de flexibilização que foi teorizado pelos Chicago’s Boys e que foi enfiado na política mundial por Reagan e Thatcher. As empresas atuais, todas, sabem que o mundo está estagnado, mas elas não acham que o modo de Putin de seccionar o mundo e de favorecer oligarquias pode ser melhor para a acumulação do capital. E o capital sabe mais ainda que as empresas, uma vez que ele realmente ganha vida no voto dos acionistas de cada empresa, não podem ceder ao mundo regrado pré decreto de Nixon acabando de vez com o dinheiro lastreado em ouro. Isso me parece mais factível que motivos éticos gerados pela ESG, embora tais motivos possam se apresentar na hora de levantar bandeiras aqui e ali em nome de empresas. Não estou dizendo que ESG é só marketing, eu estou dizendo que ESG é também marketing e que o marketing não está fora do destino posto atualmente para que o padrão de acumulação do capital continue o mesmo.

Creio que é preciso levar a sério, para acompanhar essa minha ideia acima, as observações de Yuliya Yurchenko. Em seu Ukraine and the Empire of Capital: From Marketisation to Armed Conflict (Londres: Pluto Press, 2018), Yurchenko estabelece fronteiras entre o projeto da Rússia e o da Ucrânia. Em artigo recente, ela retoma o tema do livro e o atualiza. “O fetichismo do mercado, ou seja tratar a mercantilização como a única opção viável de reforma”, diz ela, “é o mito sob o qual se funda a dominação do sistema de governança neoliberal”. “As organizações internacionais, as instituições financeiras e os grupos de pressão canalizam e, para além disso, concretizam esta governança”, Essas entidades – ela continua – empurraram tanto a Rússia quanto a Ucrânia para uma “uma transformação capitalista que teve, contudo, as suas idiossincrasias próprias”. Resultado: “o primeiro país passou por uma terapia de choque para depois se tornar uma oligarquia paternalista gerida pelo Estado, o segundo tornou-se uma cleptocracia neoliberal. Estas diferenças cruciais manifestaram-se na reconstrução da sua espinha dorsal institucional, o Estado.” (A Ucrânia e o império do capital, 23/02/2022).

Seguindo essa divisão de políticas do capital para a Rússia e Ucrânia, não é difícil apostar na minha ideia, a de que a guerra do primeiro contra o segundo país obedece, antes de tudo, os destinos do que pode render melhor padrão de acumulação do capital, e só bem secundariamente aquilo que seria o nascimento de um pensamento ético entre diretores de empresas por conta de pressão popular, como quer Sardenberg. O neoliberalismo ucraniano parecer ser o preferido do Ocidente por razões claras: ele dá continuidade ao que temos entendido como globalização.

O segundo elemento que coloco em jogo vem das observações de Peter Sloterdijk, a respeito do soft power europeu e americano sobre a estética da vida em relação aos russos. Em entrevista também recente, o filósofo alemão diz:

“Putin pretende a liderança do que antes se chamava segundo mundo, mas sabe que o estilo de vida russo não é atrativo. Não tem nenhum encanto, nenhum soft power em absoluto. Enquanto os EUA, apesar de se terem desonrado com tantos erros, ainda tem esse lado encantador, o enorme poder dessa forma de vida. Nada é atrativo nas formas de vida da Rússia e da China. Até a decadência europeia é ainda o que há de mais atraente no mundo como forma de vida, seguida pelo que resta do sonho americano. Que destruiu e decepcionou muito, mas do qual ainda resta algo.” (Entrevista para El País, 29/01/2022)

Sloterdijk apostou nessa sua tese para calcular que Putin não tentaria uma invasão da Ucrânia. Da maneira que eu leio o filósofo alemão, e beneficiado por escrever agora, quando Putin já invadiu a Ucrânia, posso pegar esse seu trecho para tirar conclusão inversa: justamente por não dispor de soft power é que Putin recorreu às armas.

Poder-se-ia argumentar, então, que Putin é um louco, ou simplesmente um estrategista ruim, que não previu nada a respeito do andamento do capitalismo, não podendo antever que a reação ocidental iria ser tão completa. Mas podemos, também, avaliar que Putin não tinha outra saída. Seu governo não vem mais trazendo conquistas econômicas, a oposição está tendo de ser tratada com prisões arbitrárias e, enfim, uma guerra que viesse a trazer prejuízos para a classe média russa, não seria algo completamente não contornável internamente. Computado tudo isso, invadir a Ucrânia poderia trazer de volta o velho nacionalismo russo – que o teórico tresloucado Dugin propaga – em benefício para a popularidade de Putin.

Para pensar assim, podemos lançar mão de algum conhecimento a respeito da vida russa atual através dos livros da escritora da Bielorrúsia, Svetlana Aleksiévitch, que ganhou prêmio Nobel em 2015.

Ponho aqui o terceiro elemento para preencher nosso pote.

Ela, Svetlana, é conhecida entre nós principalmente pelo seu livro Time second hand, que no Brasil foi publicado como O fim do homem soviético (Cia das Letras, 2016). Seus livros, na maior parte, são relatos colhidos empiricamente de gente que viveu os acontecimentos mais marcantes da sociedade soviética e russa. Sua visão é a de que há uma nostalgia do povo russo pela época da URSS, posta em um passado idealizado, quando o povo soviético, agora russo, tinha prestígio. Ela diz que o povo russo se sente humilhado. E que um povo assim tende a ficar simpático com Putin, que é o agente da KGB que melhor encarna o passado.

Não penso em desafiar a visão da escritora. Ressalto, porém, que ela parece falar mais pela sua geração (ela é de 1948, tem 73 anos) do que pela dos mais jovens. Os adultos russos que equivalem à minha geração, eu penso, tendem a ser mais críticos. Os mais jovens, então, até podem cultuar a URSS, mas antes como moda vintage do que como adeptos de real engajamento no passado. Eles estão mais ao lado do soft power exercido pelo Ocidente. Não à toa vemos soldados russos cativos do exército ucraniano, nessa guerra atual, chorando e conversando com as mães, dizendo que foram levados para a guerra enganados, que imaginavam que estavam indo para um exercício militar.

Caso eu possa mitigar a tese de Svetlana Aleksiévitch, então fico tentado pela ideia de que Putin tem um país dividido, e que se há saudades que podem ser satisfeitas pela sua aura de agente da KGB, há também um desejo de não viver sob tensão, sob restrições econômicas, sob um destino que já se mostrou custoso tanto para a URSS quanto para sua herdeira, a Rússia atual, que é o do isolacionismo. O “capitalismo em um só país”, para os jovens, seria tão nefasto quanto ao que se mostrou, para muitos, através da prática da ideia stalinista do “socialismo num só país”. Assim, entre as classes médias da Ucrânia e da Rússia, haveria até uma aliança tácita, que pode clamar pela integração da Rússia no Ocidente de modo mais efetivo. As empresas multinacionais, cujos desejos vão nesse sentido, estariam desse modo usando da ESG apenas como elemento de capa ideológica para dar continuidade ao padrão neoliberal de acumulação do capital.

A ideia da Grande Rússia é, por tudo que vimos Putin falar, algo que está sim na cabeça dele. Até pelo fato de que, mesmo quando não é perguntado sobre o assunto, ele voluntariamente diz que não quer a Grande Rússia, a formação de novo império – e isso é sinal de que tal ideia está sim na cabeça dele. Para Svetlana Aleksiévitch, aliás, Putin não irá parar, ele de fato se encaminhará para a tentativa de anexar à Rússia os antigos satélites soviéticos. Da minha parte, prefiro acreditar que esse nacionalismo não tem forças contra o neoliberalismo globalizante, e que não tem apoio entre boa parte da própria sociedade russa, em especial de sua classe média urbana.

AUTOR: Svetlana Aleksiévitch
TÍTULO EM PORTUGUÊS: O fim do homem soviético (Cia das Letras, 2016)
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AUTOR: Yuliya Yurchenko
TÍTULO: Ukraine and the Empire of Capital: From Marketisation to Armed Conflict (Londres: Pluto Press, 2018)
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Três elementos a mais do que a tese de Sardenberg para a guerra