Identitários lançam boia de salvação para Arthur do Val

O Jornal Nacional e a maior parte da mídia resolveram tratar o comportamento do deputado estadual paulista Arthur do Val, o “Mamãe Falei”, no episódio na Ucrânia, como “machista”. Alguns completaram: “sexista”. O identitarismo domina nossa mídia. Nada há de mais estúpido nas ideologias da moda que o identitarismo.

Arthur do Val chamado de machista ou de sexista não diz nada do que ele fez, aliás, se assim fosse, ele poderia entrar pelo rol dos que se comportam como moleques. A psicanalista Vera Iaconneli diz que ele é um “moleque”. Mas isso não atinge o fundo do problema. Isso não revela o que é Arthur do Val e os membros todos do MBL, criados no bercinho de ideólogos que os glorificaram como “liberais”.

A frase de Arthur do Val foi “elas são fáceis porque são pobres”. E tal frase referia-se às ucranianas que ele encontrou na fila de refugiados. Os identitários logo se fixaram no resto da conversa do deputado, em que ele falava em lamber ânus, falava de loiras etc. Alguns até comentaram a frase sobre a pobreza, mas sem lhe dar a devida atenção. E não poucos reduziram tudo a “ofensas às mulheres”, ou seja, “mais uma ofensa machista”. Não deveriam fazer isso. Principalmente os que estudam o machismo em nossa sociedade, e afirmam que o Brasil é machista, não deveriam reduzir o comportamento de Arthur ao machismo, pois se assim for, ele logo será perdoado. Aliás, ele percebeu que haviam lhe dado uma chance, e aproveitou. Na sua desculpa em vídeo, ele falou em “exagero” e deixou a entender que era uma fala de “amigos após o futebol”. Ou seja, ele ficou contente em ver que estavam lhe acusando de machismo. Ele agarrou a boia!

A sociedade brasileira, em boa parte, vota em Bolsonaro e é machista. Então, acusar alguém de machismo é bobagem. Não tem efeito prático nenhum. E mais bobagem ainda quando o comportamento em questão se faz por atitudes que têm a ver com a necessidade de humilhação do vulnerável para obtenção de prazer. Isso é algo criminoso em nossa época. É patológico e ao mesmo tempo repugnante. Isso é puro nazismo. Que fique claro: a ideia de que o mais fraco, por não reagir, tem de pagar com humilhação, para o deleite do que lhe impõe a humilhação, não é uma ideia que se possa reduzir ao machismo, é o supra sumo do comportamento da SS. Mulheres e homens podem adotar essa postura. Mulheres e homens nazistas se locupletaram em orgasmos cósmicos por meio dessa alavanca. Aliás, na casa de classe média, em que esse comportamento aparece e de onde vem Arthur do Val, tal coisa está até mais presente nas mulheres, nas patroas, que nos homens.

Que os fracos ou aparentemente fracos, sendo o que são, devem estar disponíveis para os fortes, é uma tese que em nada tem a ver com Nietzsche, mas que leitores abestalhados de Nietzsche que, enfim, tiveram responsabilidade na criação do MBL e que agora alimentam a produtora Brasil Paralelo – Pondé à frente – é algo que se disseminou nesses últimos anos. Contaminou o nosso liberalismo, reforçado pelo seu passado escravista e pela forma da produção baseada no extrativismo. Espoliação da terra e degradação da dignidade humana caminharam e caminham juntos no Brasil, e sempre estiveram presentes em nosso liberalismo. As frases de Paulo Guedes de desprezo aos pobres, e que o fazem igual a Bolsonaro, foram embaladas pelo colunista da Folha de São Paulo que apelidamos de Cuca (por conta da boca de jacaré). Os fracos jamais deveriam se organizar – daí a frase que consagrou Pondé como o estúpido mor da Folha de S. Paulo, urrada em eco pelos membros do MBL: os trabalhadores “nunca deveriam ter deixado o chão da fábrica”. Especificamente: nunca deveriam ter sequer arriscado em criar o PT. Independentemente de se gostar ou não do PT, a tese de que os mais humildes não devem erguer a cabeça, devem ficar prostrados à disposição dos mais ricos, é a tese que Pondé e outros bem ensinaram ao MBL. Deu nisso!

Agora, os identitários criam formas de fazer com que Arthur do Val se mantenha na política. Sofre um pouco e logo depois tudo se adapta ao que a própria mídia já está dizendo: “ah, um caso de machismo”, “um caso de sexismo”. Nada além do que “amigos fazem depois do futebol”. Identitários e direita se unem para jogar todo tipo de elemento de salvação para Arthur do Val.

Paulo Ghiraldelli Jr., 65, filósofo, professor, escritor e jornalista.

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Arthur do Val com seu mestre Pondé