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Putin e o soft power do Ocidente

No final de janeiro, Peter Sloterdijk não acreditava que Putin viesse a invadir a Ucrânia. Tomo aqui um dos trechos mais significativos dessa sua análise:

“Putin pretende a liderança do que antes se chamava segundo mundo, mas sabe que o estilo de vida russo não é atrativo. Não tem nenhum encanto, nenhum soft power em absoluto. Enquanto os EUA, apesar de se terem desonrado com tantos erros, ainda tem esse lado encantador, o enorme poder dessa forma de vida. Nada é atrativo nas formas de vida da Rússia e da China. Até a decadência europeia é ainda o que há de mais atraente no mundo como forma de vida, seguida pelo que resta do sonho americano. Que destruiu e decepcionou muito, mas do qual ainda resta algo.” (Entrevista para El País)

Considero bem convincente essa observação do filósofo alemão. A conclusão que ele tirou foi a de que, sabendo da falta de charm do estilo de vida russo, Putin não avançaria para um confronto. Todavia, ocorreu o contrário. Exatamente por saber-se inferior no quesito “simpatia e atração”, e portanto um eterno candidato a segundo lugar, Putin decidiu optar pela conquista mais brutal, e tentou anexar a Ucrânia. Não tendo soft power, que viesse o domínio do que lhe deveria ser de direito através da força. O Ocidente lhe concederia o segundo lugar! Já havia dado sinais que assim faria, quando da tomada de Criméia, pois nesse episódio o Ocidente não foi além da retórica de condenação.

Putin detonou uma guerra que ele imaginava que não seria de fato uma guerra, mas um passeio.

Todavia, Putin não contava com uma aliança implícita na fala de Sloterdijk. O povo ucraniano já está faz tempo conquistado pelo estilo de vida ocidental. E uma vez assim, temperou essa disposição colocando-a no sentido de alimentar ainda mais o valor dado ao seu próprio habitat natural. A história de Putin, dita uma vez a George Bush, de que a Ucrânia “nem era um país”, funcionou como auto-engano para o presidente russo. Ver-se como próxima da Europa e dos Estados Unidos deu a Ucrânia a esperança de também fazer parte do sonho americano e do encanto europeu. Talvez a Ucrânia, exatamente por ter estado tantos anos do lado de lá, nunca se deu conta, realmente, de que o Ocidente poderia estar se avaliando decadente. Putin chegou tarde! Mas, o certo é que nunca teria conseguido evitar esse movimento, que já era visível ainda no tempo da URSS.

É inegável que junto da velocidade do dólar os americanos, e europeus que se tornaram dependentes da América, sempre souberam atrelar o carro da cultura, em especial agora, da cultura pop. Nenhum jovem chinês quer viver sem ser nos moldes do Ocidente. Nenhum jovem ucraniano quer viver sem se parecer com os americanos ou europeus. O problema de Putin é que uma boa parte dos jovens russos também tem uma boa quedinha pelo Ocidente. O Ocidente é charmoso porque tem dólar ou o dólar faz tudo mudar porque o Ocidente é charmoso? A resposta a essa pergunta não importa mais.

O rock e a liberdade individual se mesclam com a ideia de ser conhecido na Internet e poder exercer identidades as mais variadas possíveis em uma cultura de consumo. Sem isso, nenhum jovem acha que vale a pena estar no mundo. A política de direita ou de esquerda só penetra a juventude se não vier a contestar uma tal disposição. Soft power é isso: a capacidade de não precisar dar tiros para dominar uma terra.

Esse encanto não pode ser desconsiderado. Ele esteve na base de muitos episódios históricos, e talvez no principal deles: os romanos conquistaram a Grécia militarmente, mas se submeteram a ela culturalmente. O soft power grego era tão poderoso que nada mais conseguiu se opor a ele. Tudo que veio depois teve de obedecê-lo, mesmo o mundo judaico-cristão. Afinal, o cristianismo só se fez religião ao criar teologia, e esta foi nutrida inteiramente pelos ditames da filosofia grega. Mesmo quando Roma entrou em decadência, todos queriam ser herdeiros do Império, e tal coisa significava ser, ainda que distante, capaz de reconhecer nossas raízes gregas e, então, por causa disso, ser ocidental.

A cultura pop e de consumo que o capitalismo instaurou só foi possível, talvez, por conta da primeira transformação da cultura helênica, que ocorreu com a sua romanização. Que essa cultura, hoje, possa parecer decadente, ainda assim ela possui um charm que russos e chineses não tem, e que ucranianos querem usufruir. Não entender o power desse soft power pode ser fatal. Mas entendê-lo demais, como foi o caso de Putin, pode ser mais fatal ainda. Putin deveria ter levado a sério o fato do casal presidencial ucraniano, eleitos pelo voto, já viviam como europeus e americanos.

Paulo Ghiraldelli, 65, filósofo, professor, jornalista e escritor.

Família presidencial ucraniana, os Zelensky, como americanos ou europeus
Familia presidencial ucraniana, como americanos ou europeus