Dugin comanda brasileiros na esquerda?

Putin nem sempre foi acusador da Otan. Putin ficou quietinho na fase de implantação do capitalismo de Boris Yeltsin, quando então deixou de ser chefe da KGB para assumir função na nova polícia política, a FSB. E ele e seus amigos ganharam muito com isso. Ficaram com empresas estatais a preço de banana, quando os Chicago’s Boys implantaram lá o neoliberalismo, e formaram uma oligarquia. No seu primeiro mandato como presidente, Putin fez discurso pró Ocidente. Conseguiu esmagar a guerrilha da Chechênia, e com isso saiu prestigiado. Todavia, mais recentemente, a economia de seu país começou a dar sinais de fraqueza. Então, ele adotou uma ideia velha, que todo ditador ou autoritário adota. Viu que podia fomentar o nacionalismo russo a seu favor em eleições, e começou a mudar. E deu certo. A anexação da Criméia foi um sucesso. O Ocidente não reclamou muito! E ele, Putin, faturou as eleições. Achou que podia dar mais passos agora, na proximidade novamente de eleições. A invasão da Ucrânia se fez a partir dessas diretrizes

Dugin é o guru atual de Putin, na sua virada nacionalista e belicista. Mutatis mutandis trata-se de uma versão russa de Olavo de Carvalho, o homem que os bolsonaristas diziam que era filósofo, mas que jamais conseguiu o certificado do quarto ano do ensino fundamental, exatamente por ser incompetente, tresloucado e babão. Diferentemente de Olavo, Dugin é de fato professor, mas isso não o torna mentalmente sadio. Seu tradicionalismo ideológico se mistura a uma espécie de sede de matança que denota patologia. Ele lidera uma seita, e vive postando fotos de Bazuca no ombro. Como Olavo, ele tem um tesão incrível por armas. O cano de um fuzil o faz tremer em êxtase.

O mote principal de Dugin é “morte ao individualismo”. A tese básica é a defesa de uma vida comunitária, após a destruição da vida moderna e liberal. Uma estranha volta a um certo tipo de comunitarismo sem, no entanto, sair do capitalismo. A vida autêntica estaria nas pequenas comunidades rurais!

Os pouco inteligentes de esquerda estalinista (ainda existe essa gente!), como sempre, se confundem diante desse personagem em cena, Dugin, que se autodenomina “o filósofo mais perigoso do mundo”, mesmo não sendo filósofo. Então, se deixam levar por Putin, e não raro assim fazem por acharem que aquilo que o presidente russo fala, e que vem da boca de Dugin, é razoável para uma situação comunista. Não é. Claro que não é! Nenhum comunista que tem suas bases em Marx é contra o indivíduo ou contra os direitos do indivíduo ganhos com o liberalismo.

As teses sadias da esquerda não tomam o indivíduo como ponto de partida, mas não o eliminam como ponto de chegada.

Os filósofos liberais do iluminismo colocaram o indivíduo como ponto de partida. Um indivíduo estranhamente despido de relações sociais, o famoso Robinson na sua ilha. Esse indivíduo se associa e, então, cria a sociedade ou o Estado. Sai do “estado de natureza” e adentra a sociedade e/ou o estado. A passagem é feita por um contrato. Daí o termo “contratualismo”, a doutrina Sociologia e do Direito que advoga essa construção teórica, abstrata, como o que se pode dizer a respeito do aparecimento da sociedade. Essa doutrina também pode ser denominada de Jus Naturalismo. Mas aqui cabe um alerta. Nenhum teórico contratualista acreditou estar fazendo antropologia empírica. Todos sabiam bem que estavam produzindo uma abstração, uma idealização, para dela tirar mentalmente a construção da vida civilizada. Era uma ideia para enfatizar o contrato! Mas muitos leitores que vieram depois, com a cabeça confusa, acharam que podiam tomar “o homem em natureza” dos contratualistas como uma antropologia que continha ali a descrição efetiva da origem do homem. É um erro tosco, mas ele aconteceu até mesmo no interior da academia.

A esquerda preferiu tratar o homem como tendo início comunitário, segundo uma antropologia menos idealizada que a dos contratualistas, e então, a partir daí, notar o desenvolvimento histórico do capitalismo como o elemento capaz de gerar as teses liberais e, com elas, a proteção ao que veio até a negar a comunidade, em parte, ou seja, o indivíduo. Na sociologia clássica esse sempre foi o mote central, de Marx até Weber passando por Durkheim. Aliás, por isso e por outras coisas, marxistas inteligentes nunca se esquivaram em trazer para si conquistas teóricas desses dois últimos. A esquerda normal jamais reclamou do individualismo por conta dele não ser a origem do homem, mas o criticou, claro, quase que imaginando que ele logo iria se fazer vigente como narcisismo, isolamento e culto do eu como “empresário de si mesmo”, que é o que vemos hoje mais claramente, já na ordem do neoliberalismo.

Diferentemente, Dugin é aquele que caiu no conto de que o individualismo é ruim porque ele, de fato, nunca existiu, não é a origem do homem. E Dugin acha que o melhor modo de viver é respeitando a origem do homem – seja lá o que pode ser isso na cabeça desse russo! Seu tradicionalismo, nesse sentido, caminha rápido para um fascismo; devem existir apenas aqueles que respeitam a origem, e que vivem em comunidade, “o lugar da vida autêntica”. A estranha comunidade, em termos ampliados, é a Rússia de Putin, chefiada por oligarquias e pela Igreja Ortodoxa, e organizada em torno da corrupção. Dugin quer abrir espaço para que sua voz, que ele entende como a Voz da Mãe Rússia, se faça ouvir. Quer mais vozes no mundo, e não o que seria o totalitarismo da voz que prega o liberalismo. Mas isso é mentira. Rapidamente ele deixa escapar que a Mãe Rússia vai optar pelo imperialismo, desejando anexações dos países que estiveram no interior da URRS, ou mesmo os que funcionaram como satélites. A esquerda emburrecida é a primeira a acreditar que a crítica ao individualismo feita por Dugin tem a ver com a critica ao narcisismo gerado na trilha da sociologia marxista. E então chafurdam no discurso imperialista de Dugin-Putin. Esse monstrengo Dugin-Putin seria a voz contra o “imperialismo americano”. Essa esquerda, não faz muito tempo, achou que Bin Laden também cumpria esse papel!

Assim, uma das formas para que estalinistas se ponham a nadar na banheira doméstica de Putin, se esfregando no peitoral que se parece com o de Aristides, o noivo do Bozo, é fácil de identificar: de certo modo, a forma é aceitar todo o discurso de Putin. É um baita erro! Mas como ser estalinista, adepto de Moscou eternamente, e não errar? Nunca existiu estalinista inteligente! Nem sadio!

Paulo Ghiraldelli, 65, filósofo, professor e jornalista.

Aleksander Dugin