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Putin, invasor. Dugin, guru e charlatão

No momento em que escrevo os soldados russos estão já em Kiev. Não chegaram ainda ao centro. A resistência ucraniana, que conta com civis, é forte e heroica. O Ocidente manda armas e, finalmente, resolveu barrar a economia russa de modo mais drástico. As medidas são de exclusão da Rússia do sistema financeiro global. O bloqueio dos bancos russos, impedidos de usar o Swift (sistema de comunicação internacional entre bancos) faz parte dessas medidas. A ideia básica é não deixar a Rússia movimentar suas reservas internacionais, de modo a não poder sustentar o rublo. Ou seja, o dólar sobe, a inflação russa também, e o país não teria como intervir colocando dólares na praça para faze-lo baixar de preço. O resultado que se pretende obter é bem claro: a população russa deve sentir o preço da guerra através da alta de todos os preços.

Quais as dificuldades para a Rússia, nesse quadro? Quem é o Putin nesse imbróglio? Qual ideologia ele vem professando ultimamente?

A Rússia atual é a herdeira da URSS. Quando esta desapareceu, no início dos anos noventa, Boris Yeltsin foi o primeiro presidente da Rússia. Ele foi o homem que deixou os Chicago’s Boys – os ídolos de Paulo Guedes e dos economistas do Plano Real de FHC – introduzirem o neoliberalismo da noite para o dia na Rússia. A privatização foi feita às pressas, e os membros da alta ex-burocracia soviética abocanharam, por preço de banana, boa parte desse patrimônio, formando os primeiros ricos do local. Criou-se aí uma oligarquia. A distância entre ricos e pobres aumentou rapidamente. Vieram anos de perdas em todos os sentidos. A Rússia ficou com 30% da população abaixo do nível de subsistência.

O segundo presidente da Rússia foi Putin, trazido ao poder por Yeltsin, em 2000. Era um ex-chefe da KGB, e então chefe da nova polícia secreta. Ele se elegeu, combateu com firmeza os terroristas da Chechênia. Adquiriu mais prestigio com isso – afinal, não andava bêbado como Yeltsin. De fato fez a vida dos russos melhorar. Estatizou algumas companhias, revendo certos princípios neoliberais exagerados. Foi beneficiado, também, pelo desenvolvimento chinês que, enfim, colocou o mundo todo em marcha. Todavia, não conseguiu fazer da Rússia uma economia diversificada. Ela ainda se mantém como dependente da produção de petróleo e gás. Com a crise mundial de 2008 e com a diminuição da velocidade de crescimento da economia chinesa, a Rússia entrou novamente em uma fase crítica. A divida das famílias é enorme, os salários voltaram a cair, o consumo de álcool cresceu. A elite russa é de 10% da população e abocanha 77% da riqueza. Só 38% da população tem emprego formal. A precarização do trabalho é um fenômeno mundial, mas na Rússia é alguma coisa deplorável, se pensarmos que se trata da décima primeira economia mundial. O aparato estatal social piorou. Por exemplo, nos anos melhores do governo de Putin os gastos do russo com saúde eram de 1030 reais, em 2018 esse número passou para 2.040 reais.

Putin governa com mão de ferro. Aproveitou-se da alta do petróleo nos melhores anos de seu governo para criar um estado policialesco que prende opositores, censura jornais e faz terrorismo com críticos. Mais recentemente, no entanto, com a vida econômica piorando, Putin teve de lançar mão de fomentos ao nacionalismo russo para ainda conquistar eleições. Aliás, eleições sempre acusadas pela oposição de serem fraudadas.

Putin criou um estado policialesco, corrupto e autoritário, ligado a uma oligarquia, agora expurgada dos elementos que se opuseram ao seu domínio. Esse estado policial tem no próprio Putin seu primeiro prisioneiro. Ele vive solitário em uma mansão enorme, cercado de agentes de proteção, e suas filhas vivem sob anonimato, com nomes que não contém o sobrenome do pai. Não sei de nenhum caso similar em qualquer outro governo na história recente. Putin teme sua própria sombra.

Tendo que ganhar eleições em tempos de vacas magras, Putin tentou reativar o nacionalismo russo. A tomada da península ucraniana chamada Crimeia, em 2014, fez parte desse projeto. De lá para cá, começou a alterar o conteúdo da conversa com o Ocidente. A amigável discussão com o Ocidente deu lugar a discursos críticos pouco cabíveis. Passou a tentar mostrar para a população a imagem da Otan como inimiga, expansionista e anti-Rússia. Uma mentira. Colocou como objetivo a recuperação de certas regiões da antiga URSS. Ao mesmo tempo, iniciou campanhas contra os “valores ocidentais”, particularmente contra os Estados Unidos, especialmente agora, com Biden e não mais Trump na presidência.

O discurso de Putin para invadir a Ucrânia foi uma peça com mais mentiras que verdades. Poderia muito bem ter sido escrito por Alexandr Dugin, um homem que é tomado como o guru da extrema direita russa. Dugin é um tradicionalista. Defende uma cultura russa, às vezes tirada de sua própria cabeça, contra a globalização, ou globalismo, como dizem ele mesmo e seus amigos, Steve Bannon e Olavo de Carvalho. Tem ligações com a Igreja Ortodoxa, que controla os camponeses russos e que é tão corrupta quanto a oligarquia que apoia Putin. Dugin é contra o projeto moderno. Condena a modernidade por ela ter vindo prenhe de liberalismo. Este, na sua visão, é nefasto, pois promove algo que não existe e não deve existir: o individualismo. Dugin diz sem ficar vermelho: “A ideia do ser humano como ‘indivíduo’ é que está errada”. Ele sempre defendeu que Putin tomasse territórios, em especial a Ucrânia. Ela seria parte da Rússia, mas desgarrada, iria cair nas mãos do Ocidente e trazer o individualismo para as fronteiras russas – um perigo!

Sua ideia de luta contra o individualismo do Ocidente se reveste de uma falsa promessa de multivisão. Ele quer que a Rússia ponha sua voz no mundo, de modo a não deixar a visão do Ocidente predominar como visão única. É a ideia de pluralidade de culturas tradicionais e locais contra a cultura universalista do liberalismo. No entanto, a tomada da Ucrânia mostra bem que não se trata de dar vazão a uma multiplicidade de visões, mas sim de um verdadeiro imperialismo nacionalista, de pendor nitidamente neofascista. Tanto isso é verdade que este foi o ponto de controvérsia aberta e pública dele com Steve Bannon. Este, por sua vez, tentou convencê-lo de abri mão dessa apologia do belicismo em favor da ideologia do “eurasianismo”, que deveria promover a Rússia como centro do mundo. Bannon queria ver uma colaboração entre Trump e Putin.

Os valores ocidentais, especialmente as políticas de gênero, são condenadas por Dugin. Ele não suporta homossexuais, é francamente racista e, por fim, defende submissão das mulheres. Nutrido por essa ideologia, Putin conseguiu aprovar no Parlamento uma lei que faz a mulher só ter direito de reclamar na polícia por agressão doméstica na segunda ou terceira vez que apanha do marido. Corre o boato que Putin e Dugan dizem que na Rússia o consumo de álcool, por conta do frio, é um costume, e de fato faz mesmo os homens, “naturalmente”, ficarem “um pouco rudes”. E completam: “Nenhuma mulher se casaria se ficasse esperando um homem capaz de não beber. Portanto, uns tapas sempre estão previstos”. O homem só não pode ser muito reiterativo nessa prática!

Dugin é uma figura pouco inteligente, e nisso funciona como funcionou aqui Olavo de Carvalho. Sua confusão mental é também uma produtora de confusão na mente de outros. Em certos discursos tende a dizer que seu projeto neofascista é também bolchevique! Sua ideologia pode ajudar o nacionalismo de Putin – sempre há gente propensa a ficar com a cabeça confusa em qualquer lugar do mundo. Mas ele nada entende de economia. E seu ranço contra a modernidade não atrai os jovens escolarizados que, em geral, olham o Ocidente como modelo. Putin vai precisar de bons filósofos que tenham visão de economia. Mas ele não vai achá-los. Ninguém sério e democrata, da universidade, quer salvar Putin. Afinal, só nesses quatro dias de guerra, milhares de russos saíram às ruas para pedir paz. Putin botou na cadeia mais de duas mil pessoas em um só dia.

Paulo Ghiraldelli, 64, filósofo.

;SACERDOTES DA IGREJA ORTODOXA JUNTO DAS TROPAS QUE PREPARAM A INVASÃO DA UCRÂNIA