Racismo estrutural – noção que não ajuda!

Racismo reverso é uma noção péssima. É ideológica e carece de estatuto ontológico. Racismo estrutural é uma noção que aspira ser conceito, mas não funciona bem.

A ideia do racismo estrutural aparece num livro de Silvio de Almeida. Não sei se os que usam o termo leram o livro. Creio que não. Porque pioraram muito aquilo que já não era bom no Almeida.

O racismo estrutural do Almeida tem dois pontos nocivos, que atrapalham sobremaneira a luta da minoria negra no interior da democracia, que é de fazer valer direitos e criar novos direitos de modo que a cultura afro-brasileira tenha espaço cada vez maior, legítimo e enriquecedor em nosso país.

Primeiro ponto. No livro, ele avança por uma série de “estruturas” da sociedade brasileira, e em todas ele encontra o racismo, de um modo homogêneo e totalizador. Ao final do livro o Brasil aparece não como um país erguido com componentes racistas fortes, mas como uma nação que veio ao mundo como os herdeiros de Adão após a Queda: todos somos geneticamente ligados ao pecado original. Todos somos culpados, mesmo que passemos todos os dias de nossa vida combatendo o racismo. O racismo estrutural do Almeida funciona como o pecado original, sem redenção, e com a função de negar um dos princípios básicos de nossa Constituição. Todos nós somos em princípio inocentes, individual e coletivamente. Mas o racismo estrutural, como pecado original – e é assim que ele funciona na retórica e na prática -, nos tira essa inocência de princípio.

Pode funcionar perigosamente, como o mote das Brigadas Vermelhas: “vamos atirar nele é matar esse burguês, afinal, ninguém é inocente”. Mas, felizmente, não funciona assim, dado que o racismo reverso não existe. No entanto, funciona no sentido de não deixar enxergamos o racismo. Se tudo é racismo, nada é racismo, dado que culpar tudo é inviabilizar saídas históricas.

Sendo assim, a noção de racismo estrutural ou é inútil ou, no pior, nociva. Vamos assumir a tese de Almeida: como todos nós estamos em um país racista estruturalmente, por mais que façamos, a culpa não desaparece e a mudança histórica não pode se dar. Perder o racismo seria desestruturar o país. Por isso mesmo, o público do livro, tendo ou não lido, passou a repetir o jargão, a cada acontecimento: “ah, é o racismo estrutural”. Morreu um negro matado por militar, era o vizinho do militar – deu no jornal. “Ah, sim, é o racismo estrutural”. Pronto, está tudo resolvido, explicado! Um sociologia totalizadora fechada faz cair o pano da peça teatral de denúncia que nada explica, e que serve para que exista o “fim de caso”. A investigação termina ali, onde o pretenso conceito é expresso.

Fiquei mais de vinte anos sem pronunciar em textos as palavras capitalismo e capitalista. Tudo que falávamos, figuras pouco inteligentes da esquerda retrucavam: “ah, é o capitalismo”, “ah, é o capital”. Só a palavra “sistema” teve destino assim, tão imbecil. “Ah, é o sistema”. Wagner Moura soube pronunciar isso pela boca do Capitão Nascimento, fazendo soar ridículo o que havia ficado ridículo: “o sistema é foda”. O capital é foda. O racismo estrutural, nossa, esse é foda mesmo!

Segundo ponto. Mais foda ainda é o próprio Almeida, que ao inventar essa noção abestalhada tratou de montar cursos para ganhar dinheiro, junto da deslumbrada Djamila Ribeiro. Nesses cursos os oprimidos deveriam aprender que são oprimidos, pagando ambos, ele e a moça da Prada. Os pretos se reconheceriam pretos, e os brancos teriam de se conformar em serem opressores. E se não bastasse isso, Almeida começou a aproveitar sua visão neoliberal para propagar o próprio comportamento pedido pelo neoliberalismo. Com sua foto na capa dos livros ele logo se fez notar não como professor, mas com o caso do negro vencedor na sociedade do racismo estrutural. Haveria assim saída para o racismo estrutural: façam como Almeida, apareçam individualmente e se mostrem vencedores, de terno branco e boné retrô, em um canal dirigido pelo riquinho (agora deprimido) Felipe Neto, o rapaz que, por ter fugido da escola, viu Machado de Assis chato e sem sentido para jovens (Karnal também diz o mesmo!). Fazer tipo é tudo que o neoliberalismo ensina ao “influencer”. O Brasil tem mais influencer que influenciados, ainda que todo mundo fale sobre racismo estrutural, mostrando ser mal influenciado.

O neoliberalismo é o orientador do identitarismo, que na sua versão inicial era fascista. Nunca foi uma doutrina de esquerda. E o neoliberalismo adora noções totalizadoras, lacradoras. Margareth Thatcher usou uma: “não há alternativa”. Assim é o racismo estrutural. Se é estrutural, então, amarra nossa sociedade e a todos nós atavicamente. Nada vi algo mais desmobilizador que isso.

Paulo Ghiraldelli, 65, filósofo.