Democracia participativa e algoritmos

Vivemos a era dos algortimos, sabemos disso. Estamos tentando entender essa realidade que nos captou tão rapidamente. Dois livros importantes sobre o assunto: Democracia e os códigos invisíveis (São Paulo: Edições SESC, 2019), de Sérgio Amadeu Silveira, e Automation and the future work (Nova York, 2020) de Aaron Benanav.

O primeiro livro trata de como os algoritmos de Facebook e Google, por exemplo, são capazes de colher informações que vão para além de dados simples, mas comportamentos nossos. Fala de como que a inteligência artificial, que se move por algoritmos, pode dirigir nossos pensamentos, vontades, desejos, preferência e, enfim, comportamentos gerais. O autor está preocupado sobre como isso influencia nossas democracias, tornando-as viciadas, em especial na hora do voto.

O segundo livro diz que não é a automação que faz com que percamos empregos. Eles já vinham caindo, pois nossas economias não crescem. Ele gasta bons capítulos mostrando essa tese. Recupera o utopismo dos que advogaram que poderíamos viver em um mundo em que a inteligência artificial fizesse muito por nós, tirando-nos da escravidão. Ele está convencido que os movimentos sociais últimos, contra governos que nos empurram para a privatização do conhecimento em rede, precisam avançar e tentar realizar as utopias que outros, além de Marx, claro, propuseram.

O segundo livro é de uma ingenuidade necessária, ao enfatizar as utopias e lutas sociais. O primeiro livro também é necessário, pois nos ensina o funcionamento dos algoritmos segundo pesquisas que nem sempre chegam para o grande público. Devem ser lidos.

Mas, nenhum dos dois, chega no ponto que me preocupa atualmente. Virá para a praça daqui algumas semanas a versão imprensa, revisada e modificada, de Semiocapitalismo, livro meu que quero que leiam. Trata-se de entender a ideia de que vivemos em uma época paradoxal. A subjetividade nascida no capitalismo atual, o semiocapitalismo, em que nossa atividade é feita na base do que os algoritmos mandam, é a subjetividade maquínica. Na fusão homem máquina, há mais semiologia antes que semântica, mais símbolos que informação que pede interpretação da significação. Máquina conversa com máquina, ou seja, faz conexão, não propriamente conversação. Nisso, estamos mudando nosso modo de agir, pensar, sentir e desejar. Ter algum controle disso é buscar o que a contrarreforma espanhola tem tentado: é necessário que nós todos ao menos tenhamos claro como que os algoritmos agem.

Na Espanha essa é uma preocupação. No Brasil não! Aqui, estamos, através de legislação do tipo da posta pela deputada Tábata Amaral, legitimando a exploração, regrando as plataformas para deixar com que elas explorem o trabalho, iguale o homem à força de trabalho, e não nos dê chances de saber o que o algoritmo faz por nós e sobre nós. O trabalho just in time, onde a demanda dá o ritmo, permite, mesmo sob a legislação de Tábata ou principalmente por meio dela, continuar mantendo segredo sobre como o algoritmo faz do homem uma peça subjugada. Assim, se um trabalhador de delivery (como todos nós que, enfim, estamos precarizados e uberizados) é chamado e não atende, ele cai na pontuação da plataforma, e a segunda chamada já vai para outro, não para ele. Sem saber como os algoritmos agem, sem controle sobre sua programação, é bobagem falar em punição da empresa. Aliás, a legislação de Tábata até permite que a empresa use tal critério! (Veja vídeo meu: https://www.youtube.com/watch?v=K0Qzkybid30).

Desse modo, um verdadeiro deputado de esquerda, que quiser ir além do que dizem os livros indicados e ir além do que já se fez na legislação brasileira, e até mesmo mundial, precisa atuar juntos dos trabalhadores, precisa ajudá-los a ter engenheiros para criar plataformas virtuais autônomas, fora da privatização posta hoje, fora do sistema estatal. A Espanha não avançou nisso, está tentando algo assim por via de legislação. O Brasil não começou nem mesmo uma tal tarefa. Mas é nas plataformas autônomas, sob controle nosso, os trabalhadores, que vamos ter alguma esperança na construção de uma sociedade pós-capitalista. A democracia participativa precisa ir por esse caminho.


Paulo Ghiraldelli, 64, filósofo.