Democracia, verdade e Internet. Crítica a Eugênio Bucci

O gato está sobre o tapete. Isto é algo que chamamos de fato, caso entremos em casa e, ao olhar para o tapete, lá encontramos o fato. Pessoas como o meu amigo Eugênio Bucci podem escrever um livro todo (Pode a democracia existir sem a verdade factual? 1919) dizendo que informação, dita factual, foi desacreditada por conta da Internet, em especial as plataformas digitais, os novos demônios eleitos por Bolsonaro. Demônios também eleitos por alguns da esquerda que, achando que sabem o que é um algoritmo (ou fingindo que sabem), e sem estudar de fato sobre isso, resolveram descobrir novas fontes de “alienação”. Requentam teorias para dizer o que já se disse até o saco estourar nos anos sessenta sobre a TV.

O que o Eugênio parece desconhecer é que a discussão que fez com que fato perdesse prestígio não é causada pela Internet. Ela é uma questão filosófica, uma descoberta da filosofia, e que se veio cair na Internet é porque já havia, bem antes, se tornado um problema. Trata-se de problema que se tornou tradicional, oriundo na sua formulação moderna na transição do século XIX para o XX, e que ganhou força no âmbito do que se chamou pós-moderno, bem mais tarde, no final do século XX. Explico.

 “O gato está sobre o tapete” é uma frase que aponta para um fato, o de que o gato está sobre o tapete. Isto é, o fato é este: o gato está sobre o tapete. A frase que pretende relatar o fato é “o gato está sobre o tapete”. Assim, na área de lógica, onde a verdade é estudada na filosofia, o que temos é o seguinte: “O gato está sobre o tapete” é verdade se e somente se o gato está no tapete. Ou seja, a verdade se define pela correspondência de uma frase com um fato. Se a correspondência não ocorre, a frase é falsa. Ora, o problema na filosofia é o seguinte: quando quero explicar o que é a correspondência, lanço a mão da noção de fato, quando quero explicar a noção de fato, lanço mão da correspondência. Tenho aí um círculo. E sendo assim, a noção de verdade, tão simples e indubitável para muitos, inclusive para Eugênio Bucci, nunca foi simples e muito menos indubitável para os filósofos. E acabou chegando de modo confuso no mundo do senso comum da Internet.

A história desse drama tem inúmeros capítulos. Nietzsche foi personagem de um deles, dizendo “não há fatos, só interpretações”. Wittgenstein foi autor de outros capítulos, primeiro dizendo que seria possível encontrar correspondência entre a linguagem e o mundo( e levando com eles os positivistas lógicos), e depois desmentindo a si mesmo para adotar uma teoria pragmatista da linguagem, em que a correspondência desaparece e é substituída pela noção de “comunicação que funciona”.

Richard Rorty foi o autor que, no meu entender, deu a resposta mais produtiva sobre o assunto, na linha dos pragmatistas, do “segundo” Wittgenstein e de Donald Davidson. Ele recolheu várias conclusões sobre a verdade. Primeiro, lembrou que a noção de verdade é uma noção intuitiva, na linha defendida por Davidson. Uma noção intuitiva? Sim, como é o ponto em geometria euclidiana (lembram desse ensino no ginásio?). Depois, Rorty falou em três tipos de usos de “verdadeiro”. Ele passou a falar em usos para evitar cair no questão de correspondência e fato, que implicam uma certa absolutização da verdade, o que alimentar fundamentalismos, além, é claro de levar à inconsistência do círculo, como expus acima. Expliquei esses usos em outros lugares, repito aqui o essencial.

Rorty fala do uso de aplauso, do uso descitacional e do uso de advertência. Posso usar “É verdade” como um uso do tipo “é bom!” ou “boa, vá em frente!”, “Certo, continue!”. Posso usar o “é verdade” para tirar as aspas de uma frase (descitar). A frase “O homem chegou à Lua em 1969” é uma citação, e por isso mesmo está aspada, de modo que não sou eu quem a pronuncia; mas posso tirar as aspas usando a frase como sendo minha, dessa forma: “é verdade que o homem chegou à Lua em 1969. Por fim, o uso adversativo é o seguinte: “É verdade que a Covid não tem cura, só tem vacina”. Ora, mas poderá não ser verdade daqui algum tempo. Ou ainda: “É verdade que o uso do ‘todes’ como pronome não binário, não altera nada.”. Ora, mas isso pode não ser verdade para grupos, aqui e agora, que entendem que a linguagem muda comportamentos e que isso reverte em direitos legítimos para esses grupos. Nesse caso, a verdade está no contexto de uso em que faz advertências, para que se possa considerar tempo e espaço adequadamente.

Assim, o que Rorty faz, é tirar da jogada a ideia de verdade como Verdade, ou seja, como o que está ligado ao que chamamos de A Realidade Como Ela É”.  Ele trata a verdade como um qualificativo de frases. A verdade funciona pragmaticamente para melhorar a performance da linguagem. Sem ela, não teríamos linguagem. Sem esses usos, que não desmentem a noção intuitiva, não falaríamos qualquer linguagem. Rorty desinflaciona o conteúdo metafísico ou ontológico de verdade. Eliminamos a noção de verdade como Realidade, saindo do problema da correspondência e do fato, e escapamos também dos fundamentalismos, que associam a Verdade a Deus. Nesse último caso, o assunto se torna político. Rorty, com isso, dá uma boa pancada nos grupos fundamentalistas, típicos da América, e que agora estão também por aqui, criando problemas de todo tipo e emburrecendo pessoas.

Quando Eugênio Bucci trabalha com a noção de verdade sem levar em conta tais problemas, ele simplesmente está sujeito a ser barrado por qualquer posição relativista, seja ela banal ou esteja ela mais elaborada, como fizemos aqui, a partir da filosofia. Ele parece não se dar conta disso, o que é bem estranho!

A Internet institui outra coisa, que não é o regime da Fake News. O que a Internet fez foi criar um regime que exacerbou a vigência da pós-verdade. Nesse caso, o que ocorre é que a bipolaridade da proposição vai para o espaço. Em lógica filosófica uma proposição é um em enunciado que se define por ter dois valores de verdade: falso e verdadeiro. Trata-se de um enunciado que é ou falso ou verdadeiro. O regime de pós-verdade da Internet não eliminou o fato ou a verdade fatual. Esse regime apenas colocou a proposição como alguma coisa que não vale mais a pena ser levada a sério segundo rigores lógicos. O que vale ser aceito na Internet, e isso por grupos bolsonaristas aqui e por grupos ligados a Trump-Bannon nos Estados Unidos, e contra o que eles falam das plataformas de exploração capitalista, como Facebook, Google etc., é o enunciado que é contado pelos pares, contra os adversários. Desse modo, não estamos mais no campo da verdade factual contra o que não é factual, estamos, sim, no âmbito do que vem do correligionário e o que vem do adversário. O critério de aceitação é abertamente a adesão ao chefe, ao grupo, ao partido, com intuitos cínicos de vencer o outro “no grito”. Não se trata da verdade aceita por conta da idolatria à autoridade. É algo que não tem a ver com o domínio da autoridade. Não se trata de volta à Idade Média, com a Igreja Católica ditando verdade por conta de autoridade. Nem se trata de rapsodos gregos dando verdade aos ouvintes de poemas na Grécia antiga, também por autoridade. Cuidado para não se confundir aqui!

Boa parte da esquerda tropeça nisso tudo. Creio que o livro de Eugênio Bucci poderia ser reescrito, levando em consideração esse tema da pós-verdade, do pós-moderno, e das saídas disso tudo pela filosofia de Rorty e outros. Uma saída marxista, elaborada por Franco Berardi, comentando a desresferencialização, está em meu livro Semiocapitalismo. Nele comento como Rorty e Berardi falam a mesma língua, ainda que jamais tenham um lido o outro (Berardi tem tempo para tal, está vivo).

Bem, para terminar, voltemos à pergunta de Bucci, que é título do livro: É possível democracia sem verdade factual? Ora, alguém capcioso por dizer a Bucci: claro que existe, a democracia é o regime do convencimento, da prevalência de desejos que se expressam em teses que não precisam ser verdadeiras para se fixarem, todos sabemos disso. Quem desmentiria essa frase? E se tal pessoa souber um pouco de filosofia, pode complicar a vida de Bucci dizendo: a noção de fato não explica nada, ela é circular, e Nietzsche chegou mesmo a falar algo bem convincente: não há fatos, só interpretações. Bucci ficaria como? Certamente desarmado. Para sair dessas questões é preciso ler Rorty e adotar a verdade como adjetivo de enunciados, e não como tendo vinculações fáceis com A Realidade Como Ela É.

Poderíamos ter mais saídas para tal, de modo a não ficar encalacrado? Creio que sim, mas eu lá tenho meus gostos. Rorty e Berardi estão falam de desresferencialização, que é o modo atual de falar de situações que nos fazem lidar com a versão filosófica que considera que Deus está morto. A história do século XX pode ser contada como a história da desreferencialização em todas as áreas, do dinheiro à linguagem.

Paulo Ghiraldelli, 65, filósofo