O mundo Meta, de Zuckerberg

Descorporalização para a felicidade!

Há gente alta e há gente baixa. Há indivíduos gordos e há indivíduos magros. Há os que são pretos e os que são brancos. Também notamos os de narizes grandes e os de orelhas salientes. Homens de mãos pequenas e homens sem pescoço são também observados – não raro, ridicularizados. Acham-se entre os bonitos os que são completamente magros, mas com barrigas proeminentes? Mulheres sem seios são equivalentes, em deserotização gerada, às mulheres sem bunda? E quem tem cabeça grande, pode se achar inteligente? Ou deverá ser tomado apenas como um monstrengo cabeçudo? Clínicas acolhem quem quer tirar o pênis. Acolhem do mesmo modo quem apenas quer tirar um pouco dos lábios vaginais. Salões de beleza fazem depilação anal. Academias prometem panturrilhas efervescentes.

Todas essas preocupações com o corpo são motivos de frases bestas. Uma das frases mais bestas sobre o corpo é aquela que visa denunciar os “padrões corporais da mídia” ou “os padrões da sociedade” a respeito da estética. Em geral surgem daí uma nova raça, os chamados “novos oprimidos”. O que não falta é gente que se declara oprimida por aquilo que são “os padrões”.

O Facebook, transformado em Meta, promete acabar com essa ladainha toda. Vamos entrar para uma era de completa despreocupação.

Vamos participar do mundo virtual, que será transformado em real na medida em que for o único mundo vigente, em que nossos avatares ou coisa parecida poderá se apresentar como quiser. Claro que no início, em uma reunião de trabalho, seremos obrigados a usar alguma aparência que lembre o que nós somos, e haverá alguma disposição preconcebida de postura e conduta. Nossas reuniões de trabalho nos apresentarão com corpos parecidos com o que temos, com roupas semelhantes às que temos e, enfim, com comportamentos semelhantes aos atuais, segundo o ambiente. Com o passar do tempo, isso poderá se tornar uma bobagem. Por que teríamos de nos reunir virtualmente – mesmo que seja a única reunião que conhecemos como reunião – em uma situação de trabalho, todos em torno de uma mesa, todos de “roupa social de trabalho”? Poderíamos fazer a reunião em galhos de árvores! E poderíamos estar não só nus, mas com acertos corporais condizentes com um palavreado menos sujeito à choradeira sobre “padrões”, como a temos hoje.

Uma reunião de trabalho em que eu estivesse lá somente como uma entidade virtual, poderia me garantir uma aparência menos sofrida pelos meus próprios dramas a respeito de mim mesmo. Por exemplo, eu poderia me apresentar com uma cuequinha colante, e com um baita pintão dentro dela. Algo de um volume capaz de atrair os olhares das mulheres e o frenesi dos gays – alguns gays! Só na primeira reunião ririam ou fariam olhares estranhos. Após alguns dias, quem iria se incomodar com isso? Um avatar é um avatar. Quem iria se preocupar com algo não real?

Claro que estando na sala de reuniões com uma baita caralho, isso poderia incentivar os presentes a pensar o óbvio: na vida não virtual eu teria, de fato, um membro diminuto capaz de, na comparação, fazer um filho do Bolsonaro se sentir um cavalo. Sim, eu seria alguém de pinto pequeno e, por conta do mundo Meta, podendo me apresentar, finalmente, como um avantajado violento. Ora, mas como jamais teríamos qualquer outro encontro senão o virtual, por que deveríamos nos preocupar? A vida seria virtual, mas sem qualquer possibilidade de se apresentar senão como vida virtual. Portanto, ela não deveria ser levada a sério, ao menos não naquilo que seria tomado como o secundário, o não-trabalho.

As sensações, digamos, mais sutis, seriam fáceis de serem substituídas. Cheiro e toque de pele, e mesmo penetrações necessárias ao sexo, seriam realizadas por meio de aparelhos disponíveis diante de cada tela de computador ou cada celular, ou coisas equivalentes a celulares. Afinal, toque e gozo podem ser sentidos e provocados por descargas elétricas. Velha ficção, mas agora na beirada do acontecimento.

Também estaríamos livres de processos por assédio. Dado que seríamos virtuais, uma reunião da diretoria de um partido político, por exemplo, poderia terminar com uma saudável suruba (eu sei que isso já ocorreu, na vida real, porra!). A presidente de um partido poderia ser enrabada pelo candidato do partido na frente de todos, para uma comemoração, por exemplo. Os avatares serviriam como distração. Distração de nós mesmos por nós mesmos. Riríamos de poder foder outros sem foder ninguém e sem ser fodido. Afinal, nudes perdidos na Internet faziam adolescentes se matarem no início dos anos 2000. Hoje, 21 anos depois, a adolescente que não tem um nudes na Internet nem vale a pena ser considerada boa pessoa. Pode ser chamada de puta, claro. Mas puta há muito deixou de ser xingamento. Só filho da puta ainda continua como quase xingamento. Puta virou um nome que, quando você não o recebe no sexo, o sexo nem valeu a pena – para a mulher, eu digo.

Claro que todo esse divertimento, feito pelos avatares, ganhará alguma censura se ficarmos relapsos no trabalho. Mas, o que será o trabalho? Um apertar botões para o funcionamento de fluxos do mercado financeiro! Comida? Não creio que vamos precisar dela para além daquelas que poderão ser produzidas por máquinas. Tudo isso será possível para um grande número de pessoas, não para todos. Alguns países e alguns lugares dentro de países ficarão fora dessa bolha de extremo prazer e, talvez, felicidade. O mundo completamente desonerado. O filho da puta que introduzir um vírus tipo covid nesse mundo será executado? Que nada! Já estaremos trancados mesmo, dentro de casa, imunizados pela reclusão da vida normal.

Creio que não seremos boas pessoas, uma vez tão comandados por tal subjetividade maquínica. Mas alguns dirão, para compensar: em um mundo passado, éramos boas pessoas?

Resta saber, no entanto, se não recriaremos todas as censuras que temos, hoje no mundo, no próprio mundo virtual, caso não tenhamos mesmo nenhum relacionamento outro que não este. Nesse caso, poderei entrar com meu pintão enorme na sala de reuniões apenas durante a primeira década (ou menos) de existência desse sistema do Meta. Mas, então, vou aproveitar o começo! Avisem o Zuckerberg.

Paulo Ghiraldelli, 65, filósofo. [não tirem conclusões precipitadas, meu pinto é médio e de sabor agradável]