Eros, a Musa e eu

O caso do jogador italiano, apaixonado por uma Alessandra Ambrósio falsa, despertou todo tipo de comentário. Uma boa parte deles, julgou o jogador como um exemplo máximo de tolo. A notícia, do modo que foi estampada nos jornais, não poderia mesmo gerar outra coisa. Qualquer um de nós pode ser enganado na Internet, mas ficar quinze anos nisso, e envolvido em uma história que tinha como um dos protagonistas uma figura de vida pública (uma modelo!), não é algo pelo qual achamos que podemos passar. Somos empurrados a acreditar que o jogador tinha lá algum problema psicológico, alguma ingenuidade especial.

A falsa Alessandra Ambrósio era uma senhora de cinquenta anos, que como voz doce envolvia diariamente o jogador, revelando a ele que estava se comunicando, do modo que estava, sob pseudônimo, porque queria ter uma vida normal, coisa que só o anonimato lhe garantiria. Ou seja, a senhora pilantra começou com um nome e, após alguns dias, contou ao jogador que ela, na verdade, era a modelo brasileira. A condição de modelo não estaria lhe dando a oportunidade de viver a vida realmente. Durante quinze anos, nenhum encontro entre ambos se deu. Ela alegava doença cardíaca, pressão do trabalho, perseguições de toda ordem. E o jogador aceitou as contingências. Acabou se endividando, claro, porque em um determinado momento a falsa Alessandra passou a pedir dinheiro. Os companheiros de clube do jogador, agora, estão fazendo uma vaquinha para ele se livrar das dívidas.

Acreditamos piamente que não podemos cair em um golpe assim, ao menos não por tanto tempo. Mas o fato é que uma boa parte de nós já vive em situação parecida. O auto-engano é o pior dos enganos. Uma coisa é ser enganado, outra coisa é querer e precisar se enganado. E todos nós precisamos disso. Nem sempre vivemos o auto-engano como quem vive levando trança-pés. Muitas vezes, apenas estamos tendo que curtir a nossa imaginação.

Mas, afinal, sem os agravantes do caso do jogador, podemos viver algo parecido?

Dois elementos típicos da vida moderna nos ajudam a viver experiências que, em certo sentido, tem a ver com aquilo que o jogador italiano passou. Um deles vem da ideologia contemporânea que é derivada da metafísica. Outro vem da própria característica do amor.

Primeiro: nossa era é herdeira do platonismo e do romantismo, e essa força dupla nos ensinou que o real está por detrás das coisas, e que poucos conseguem vê-lo. O sensível, o visível pelos olhos da carne e não pelos olhos do espírito é o ilusório. O real, o essencialmente verdadeiro, é aquilo que se esconde, que está sob o biombo do sensível e do fácil. O real revela-se a nós como segredo. Assim, tendo ficado sabendo da vida de Alessandra Ambrósio por conta de poder adentrar em um segredo, o jogador de vôlei se sentiu amplamente contemplado com a visão do real, do essencialmente verdadeiro. Quanto mais ela contava episódios inusitados, que só ele podia ouvir, mais ele se convencia de que estava vivendo na realidade. Todos nós agimos assim, em maior ou menor grau. Coisas contadas para nós como se fosse segredo sempre nos parece verdade.

Segundo: o amor não é um sentimento, ele é um deus. Temos esquecido dessa origem de Eros. Quando recordamos isso, lembramos da força do erotismo na história. Podemos querer reduzir o amor a um sentimento, mas quando estamos apaixonados e somos correspondidos, começamos a perceber que o amor não é algo de um indivíduo, mas de ambos, de vários, e que, sendo assim, deve ter uma base objetiva. É um deus, não um mero sentimento. E como ele atua? Ora, pela imaginação. No conto romano de Apuleio, Eros aparecia no escuro para Psiquê, e havia lhe recomendado nunca acender a luz. Eros, o amor, vingava em seu propósito de manter Psiquê junto dele exatamente à medida em que era só pela imaginação que tudo que viviam se mantinha. Vivemos o amor enquanto ele provoca a imaginação. Foi assim com o jogador de vôlei. É assim conosco.

Assim, eis como vivemos o amor: trata-se de encanto de viver na realidade, por viver na intimidade de alguém, mas ao mesmo tempo ainda estar no escuro, tendo que usar da imaginação para saber mais, ou simplesmente para não saber e apenas viver.

Os filósofos, poetas, escritores, pintores etc. vivem o amor dessa maneira, pela cultivo da imaginação. Encontram a força erótica por meio da presença de suas musas.

Sei do que estou falando. Pois tenho contato direto com deuses. Um filósofo e escritor, para produzir, precisa de uma musa. Sem uma deusa grega, ele é completamente improdutivo. Minha musa me conta intimidades, me deixa participar de intimidades desconhecidas, aquilo que é o real, o verdadeiro. Minha musa me inspira, mexe com minha imaginação, pois sua imagem é caminho para vislumbrar o desconhecido, e só então, vivendo assim, posso me tornar aquilo que sou.

O jogador italiano não tinha só uma namorada. Ele tinha uma musa. Com ela, ele participava do real, diferente dos homens comuns, que vivem na ilusão. Com ela, ele podia ter a imaginação revigorada, e por isso podia jogar e esperar o dia seguinte. Encontrar Alessandra Ambrósio de carne e osso quebraria tudo isso. Ele jamais quis arriscar perder sua musa. Jamais quis quebrar o encanto. Penso estar em condições melhores que ele, uma vez que a minha musa me deixa subir nela.

Paulo Ghiraldelli, 65., filósofo.