Imprensa de classe média insiste na negação do corpo

Platão fez questão de legitimar, de modo muito mais acentuado que nós, uma certa sinonímia entre o Bem, o Belo e o Verdadeiro. Fazemos isso, mas não na intensidade de Platão. É que para Platão o Bem, o Belo e o Verdadeiro não eram palavras, nem mesmo conceitos. Eram instâncias ontológicas. O Bem, o Belo e o Verdadeiro eram reais, e por isso, no âmbito do existente, sem o grau de realidade dessas formas, estaríamos nós, os derivados. No mundo existente, mas não tão real, haveria mulheres capazes de fazerem o bem, serem belas e apontar a verdade. Essas mulheres não seriam tão reais quanto o Bem, o Belo e o Verdadeiro, pois estariam no mundo não perene, sujeitas ao histórico, ou seja, ao mutável, ao que se corrompe.

Ao se cansarem, as mulheres que sempre fizeram o bem poderiam um dia fazer o mal. Ao envelhecerem, essas mulheres lindas poderiam acordar um dia com raiva do espelho. Ao terem de proteger um filho, essas mulheres se pegariam mentindo. O mundo existente é o das mulheres que podem se corromper, que vão se corromper. Mas, ao menos em determinados momentos da vida, todos nós, como essas mulheres, queremos nos aproximar do Bem, do Belo e do Verdadeiro.

Toda essa teoria platônica foi louvada por nós, até por aqueles que se dedicaram a tentar contrariá-la, como fez ao final do século XIX o filósofo alemão Friedrich Nietzsche. Atualmente, no entanto, Platão e Nietzsche, ou tudo o que respeitávamos na cultura, não valem mais nada. Os colunistas de um jornalismo cada vez mais medíocre decretaram que o Bem, o Belo e o Verdadeiro não importam.

O Bem é tomado como não existente. Energúmenos de plantão, até com diplomas de filosofia no sovaco, dizem por aí que quem faz o bem só realiza o mal. O Verdadeiro perdeu o sentido, pois em época de pós-verdade, na qual naufraga a imprensa, vale apenas o “like”, o aplauso da Internet. Por fim, também na imprensa há quem se revolte até contra o Belo. São mulheres e homens que inventaram que as mulheres, antes postas no mundo para serem belas, devem cagar para tal ideal e ficarem funcionando como operárias do corpo feio.

As empregadas domésticas, as diaristas, as mulheres trabalhadoras da periferia, felizmente, não obedecem aos jornalistas e colunistas da classe média, estes que fingem que gostam do feio. Elas, as trabalhadoras pobres, continuam alimentando os chamados “salões de beleza” e “cabelereiros” de seus bairros. Quando saem do trabalho pesado, trocam de roupa, usam um batom, ajeitam o cabelo e colocam suas doces bundas em calças marcantes. Param nos pontos de ônibus, todas belas. Umas querendo engordar, outras querendo emagrecer. Mas nenhuma delas tentando contrariar Platão. O empoderamento da mulher, na periferia, continua passando pelo crivo estético. Não há indícios de que essas mulheres irão abrir mão disso!

A classe média que escreve em jornais, ao contrário, finge gostar do feio. Diz que Marília Mendonça deveria ser lembrada não pelo corpo, mas pela cantoria. Mas a própria Marília tinha mais de trabalhadora da periferia que de colunista da imprensa de classe média, e por isso, lutava contra a balança para ser por bonita, ou sejam para se sentir confortável. Ela se entendia como artista, e artista tem que encontrar sua silhueta, o corpo com o qual será reconhecido. Fora disso, não é artista. Marília sabia disso. Estava tentando. Morreu tentando. Os babacas não entenderam que ela não era cantora de rádio, e que Marília jamais quis ser uma voz, e sim um corpo falante. O artista é um corpo que aparece ou nada é.

Ser uma figura pública, atualmente, é criar um corpo para que este carregue uma espécie de brand, ou algo como um avatar. O artista que não faz isso está por fora das requisições do capitalismo financeiro como o que hegemoniza o capitalismo hoje, e como o que requisita que as mercadorias antes de tudo sejam marcas. Semiocapitalismo – assim denominamos esse capitalismo. O capitalismo guiado pela semiótica.

A marca forte tem chance no mercado financeiro, mesmo quando o produto não é lá mais grande coisa. Todo artista com feeling sabe disso. Não sabe na teoria, mas intui que o fetiche da mercadoria se transportou para o fetiche da marca, e que funcionamos todos segundo a lógica da mercadoria, sendo assim, o artista prepara seu corpo para a sociedade do espetáculo. Não é mais uma questão de ser bela ou belo. De fato, Platão está tomando sua esfrega. Mas, ainda assim, não há como desprezar uma estética. Cada artista tem de encontrar seu avatar, montar seu nicho, fazer com que exista um público que, sem a presença dele, possa imaginá-lo. Ser fã é antes de tudo ter na cabeça a imagem do ídolo, que funciona como acalento e estímulo. Os colunistas da imprensa atual, que estão querendo falar em gordofobia e outras porcarias desse tipo, não estão entendendo nada do que ocorre em nossa cultura atual. Não estão entendendo a sociedade do espetáculo crivada pelo semiocapitalismo.

Paulo Ghiraldelli, 64, filósofo