Marília Mendonça não teve tempo de ser gorda

Marília era gorda ou magra? Era balofa ou bonita? Sei pouco sobre ela. Só agora, com a sua morte, fiquei sabendo quem era a moça. Vi que alguns identitários iniciaram a defesa contra o ataque que não existiu. Fizeram artigos vociferantes: “Mulher é julgada por aparência até na morte”; “Gordofobia não perdoou Marília até mesmo na morte”. Outros títulos similares povoaram a mídia. Aliás, boa parte desses textos estava mal escrito. De novo a besteirada identitária neoliberal.

Vamos por partes. Primeiro, a medicina social.

Ser gordo deixou de ser uma questão estética para uma boa parte das elites responsáveis de nossa sociedade, e se tornou uma questão médico-econômica. A obesidade no mundo é vista como doença, e realmente é, e faz as economias dos países lutarem por vagas em sistemas de saúde nem sempre assíduos no atendimento das populações. O padrão capitalista americano de consumo fez criança ter pressão alta! E nós entramos nisso em menos de trinta anos. A OMS tem reagido. Os governos tentam reagir. A indústria alimentícia rebola, mas tenta se adaptar aos reclames dos médicos. Todavia a Cultura Gorda e, com ela, a capa de proteção do discurso identitário que grita “gordofobia”, são uma forma neoliberal de proteger os que não querem ter compromisso social nenhum. As pessoas acham que são indivíduos como Bolsonaro acha: cada um por si, no mundo selvagem. É o direito de não se vacinar e não ser despedido do emprego, mesmo colocando a vida dos outros em risco. Falso direito. Assim, a pessoa irresponsável fica gorda, fica doente, onera o SUS com algo que podia ser evitado, tirando o leito de outro que tem uma doença que não cabia a ele evitar. Mas o neoliberalismo diz: o indivíduo tudo pode. Então, o gordo de ideologia do tipo da de Bolsonaro usa do discurso da gordofobia para dizer: “me aceitem ou denuncio vocês como gordofóbicos”. Morre, deixa mulher e filhos sofrendo, onera o SUS, e continua achando que sua aparência, sua saúde e sua morte pertencem só a ele. A besta anarco-capitalista existe!

Vamos à segunda parte. Agora, a questão do fetiche da mercadoria

Tudo que disse acima é um lado da questão. Há ainda o outro lado: o artista gordo (ou magro) que não encontrou seu nicho, seu lugar próprio. Elvis Presley não encontrou o seu lugar, ele fez muito mais: ele criou o seu lugar. Era Elvis o Pelvis. Ele mexia os quadris, e essa sua marca, que gerou seu nicho, lhe deu uma imagem própria no mundo do espetáculo, um mundo derivado do espetáculo da mercadoria. Seus quadris tinham de entrar em consonância com sua voz. Era consonância com sintonia. Quando engordou, tudo se perdeu. Passou a lutar contra a gordura. Essa luta o matou. Mas ele já se sentia morto em vida, pois o nicho não tinha mais seu elemento central e se esvaia. Ele não estava mais conseguido cumprir o desiderato da mercadoria para a sociedade do espetáculo.

Jô Soares emagreceu, perdeu público e voltou a ser gordo. Tim Maia sempre foi gordo e manteve-se no nicho criado por ele mesmo. Clara Nunes e Alcione fizeram o mesmo. A mercadoria tem seu fetiche, e amplia isso criando uma simbologia que gera um mundo próprio. Essa situação impõe também aos artistas (e outros que possuem público) o mesmo comportamento: eles precisam estar bem em seus nichos, pois é nesse mundo próprio que eles encontram seus fãs. Marília Mendonça estava lutando para ser magra. Ela não queria ser gorda. Mas emagrecer, para muitos, é difícil. Marília estava lutando para obedecer ao fetiche da mercadoria e encontrar seu nicho. Mas não teve tempo para tal.

Não é a mídia que coloca padrões. A mídia potencializa o que a mercadoria coloca. E a mercadoria hoje é antes marca que produto. Benjamin e depois Baudrillard nos ensinaram: notemos o valor de exposição. Sem descartar Marx, eu digo:  notemos como que o valor de exposição pode ser pensado como acoplado ao valor de troca. Este, é o valor de mercado, aquele é o valor de mercado na época do capitalismo das marcas, a nossa época. Essa nossa época eu chamo de semiocapitalismo. Um capitalismo que lida com símbolos. Todo artista não só voz ou gestos, é antes de tudo símbolo.

Nesse capitalismo as marcas criam mundos, elas geram nichos, e com isso podem colocar as empresas que a produzem no mercado de ações, que é antes simbólico e, por isso, comunicacional, que exclusivamente econômico. Os artistas agem também assim. Transformam-se em marcas de si mesmos, viram personagens, e então ganham corpos com silhuetas que não podem mudar. Não à toa artistas famosos são transformados em bonecos vendidos para as crianças. Marília estava tentando montar seu corpo, sua marca, seu mundo. Não deu tempo. Os que falaram que ela estava ou era gordinha, não compactuaram com qualquer agressão ou gordofobia. Essa bobagem, quem disse, foi quem denunciou a gordofobia que teria havido contra ela agora, em notícias de sua morte. A denúncia da gordofobia e a denuncia de machismo se acasalam para produzir um som estridente, mas vazio, às vezes burro.

Os que comentaram sobre Marília ser gorda apenas notaram a luta dela para criar seu nicho, um imperativo de nossos tempos, vindos dos ecos do fetiche da mercadoria.

Paulo Ghiraldelli, 64, filósofo.