A hiper-realidade domina a vida no século XXI

Bolsonaro abre a porta de sua casa e não vê corpos empilhados. As notícias dos jornais, de mortes aos montes pela Covid, não criam horror para ele. Pois na frente de sua casa não há mortos caídos na rua. E as fotos dos jornais mostram apenas pessoas enterrando gente em cemitérios. Elas são fotos que mostram a realidade. Mas a realidade para Bolsonaro é a junção do real sensível com o hiper-real. Só essa junção o faria ver uma catástrofe. Seria preciso enganá-lo por meio de uma foto de várias cidades brasileiras com mortos espalhados pelas ruas, como em um filme de ficção desses que apresentam a Terra após uma guerra nuclear. Só a realidade aumentada, o hiper-real, é o real para ele. Bolsonaro espera imagens apocalíticas típicas da mídia atual.

Bolsonaro viaja de avião pela Amazônia. Ele não vê a floresta devastada. A imensidão do verde não mostra os vazios. Ele abre os jornais e vê árvores caídas e matas queimadas, mas essas imagens não criam horror. Ele já viu coisa assim perto da casa dele, quando criança. As fotos mostram a realidade. Mas a realidade para Bolsonaro é a junção do real sensível e do hiper-real. Se ele puder sobrevoar a Amazônia por horas e não ver mais árvores, e se pudermos enganá-lo mostrando uma foto hiper-real, que criasse um simulacro da Amazônia inteira deserta, como em um filme apocalíptico, então talvez ele viesse a aceitar a frase “A Amazônia está queimando”. Bolsonaro espera imagens hiper-reais, apocalípticas, feitas pela mídia, para conferir a elas algum grau de realidade.

Bolsonaro não vive o sensível espantoso. Se vivesse, e fosse alguém educado escolarmente, talvez isso ele viesse a chamar de surreal. Mas não podemos confundir o surreal com a hiper-realidade. Esta última é sempre imagem, construção fictícia, simulacro do que não há referência, diferente da cópia ou do surreal. A imagem detalhada da Amazônia toda, construída por um catastrofista especialista em montar coisas para a Disneylandia, seria a realidade, para Bolsonaro, uma cena que, talvez, viria tocá-lo, no sentido não dele sentir algo (duvido que possamos faze-lo sentir algo), mas ao menos de fazê-lo dar atenção.

Uma boa parte dos brasileiros que seguem Bolsonaro também estão sujeitos a essa maneira de ver a coisas. Ou apresentamos a realidade aumentada, a chamada hiper-realidade, obviamente em forma de simulacro, ou nada mobiliza essa gente. É como se estivéssemos diante de crianças viciadas em HQs da Marvel. Para tais pessoas, a destruição real das Torres Gêmeas não foi nada impressionante. Chegaram até a dizer que eram imagens inventadas. As imagens na TV ficaram aquém da hiper-realidade apresentada nas explosões de prédios ocorridas quando o Duende Verde joga bombinhas sobre o Homem Aranha, e nesse trajeto destrói Nova York inteira, que repentinamente logo depois aparece intacta. Gente assim fica esperando a catástrofe real, ou seja, hiper-real, e se frustra diante da catástrofe estupenda que as atinge. Ficam esperando Stan Lee, com a Marvel, criar o simulacro, para então perceberem que talvez tenha ocorrido algo.

Mas há infantilidades também fora do mundo de Bolsonaro. Muitos que viram as imagens de Bolsonaro sendo esfaqueado ficaram esperando o espetáculo do hiper-real. Queriam a realidade aumentada. Seria necessário trazer Tarantino para o Brasil e pedir para ele um show de sangue após a facada. O fígado de Bolsonaro teria de ter saltado para fora, as tripas todas teriam de esbofetear transeuntes e, enfim, cair na boca de um cachorro que correria com ela para um esgoto. Como o hiper-real não veio. A facada virou para o petista infantil uma “fakeada”. O petista às vezes age com bolsominion travestido.

A cada dia que passa, o espetáculo requisita ser gerado por imagens que possam ser a realidade aumentada, o hiper-real, para que alguém lhe dê o estatuto de realidade. A imaginação que produz tais imagens deve se esmerar. Pois estamos nos viciando no hiper-real como sendo o único real realmente real!

Essa hiper-realidade das histórias em quadrinhos, depois transportada para o cinema e agora vivida nos games e gerada a todo momento pela profusão do imagético mundo digital, nos empurra a todos para o vício. Estamos viciados em hiper-realidade. Ninguém mais consegue ter tesão na própria mulher caso ela não apareça por meio de uma hiper-realidade da foto digital feita com filtros de todo tipo. O que se apresenta já não é mais a mulher. O simulacro não é imitação. O simulacro é o que é copia sem referência. Ele é produção. As mulheres deveriam ter ciúmes dessas imagens que seus homens olham, e que elas imaginam que são elas mesmas. A foto digital não é cópia, é simulacro. Os homens estão olhando para o que não é mulher alguma. O êxito de Milo Manara foi o de ter percebido isso e criado uma plêiade de mulheres hiper-reais.

O fenômeno do hiper-real dominando o real tem ainda outras dimensões. Ele molda nossa própria vida empírica, sensível, e nos faz pessoas que buscam, para que possamos sentir que somos seres reais, se vestir imitando o que seria o hiper-real.

Essa imposição do hiper-real sobre o real nos levou a encontrar as mulheres andando como a mulher-gato nas ruas. Todas de calças colantes de couro e botas. A maior parte das mulheres hoje se veste como as heroínas das histórias em quadrinhos. A hiper-realidade moldou a realidade. Todas as mulheres só são reais se imitam as imagens hiper-reais. Elas andam seminuas, exibindo uma sensualidade que é basicamente não erótica, mas pornográfica. A mulher gato era e é pornográfica. Mas algumas mulheres conseguem driblar a hiper-realidade mesmo imitando-a, e se comportam, mesmo no campo hiper-real, ainda dentro do que se pode chamar de erótico nos dias atuais. Mas, nesse caso, isso é chamado de “classe”, “ter classe”, saber se vestir.

Desse modo, não é só o mundo de Bolsonaro e dos fanáticos petistas (e outros tipos de fanáticos) que é, de certo modo, infantil. Todos nós estamos sujeitos à infantilização gerada pela imposição do hiper-real. As mulheres, na medida em que saem de casa e ganham o mercado de trabalho, adquirem hábitos ditos masculinos, ou seja, hábitos que antes só víamos nos homens. Também elas começam então a usar mais a visão que outros sentidos. A vida fora da caverna é uma vida da visão de longo alcance. A visão do caçador é a visão não doméstica. As mulheres passam a ganhar essa visão, agora, por não viverem mais enclausuradas, e começam a buscar homens cujo físico também é hiper-real. Isso chega a provocar uns tombos nas mulheres. Homens malhados e muito bonitos, ou seja, como se fossem super-heróis, preferem se mostrar para outros homens, raramente possuem interesse em mulheres. Nesse caso, voltamos ao mundo de Bolsonaro. O mundo do banheirão do Exército.

Tudo isso tem a ver com a vida sob o capitalismo financeirizado, que é o capitalismo pós-fordista associado à biopolítica. As empresas não se importam mais com a produção física, e sim com a marca. O brand é o elemento importante. Se ele é forte, se seu marketing lhe dá mais força do que ele já possui por anos de vigência, então a empresa pode se sair bem no mercado de ações. Esse tipo de capitalismo potencializou o fetiche da mercadoria. Entramos para a era do fetiche da marca. É o semiocapitalismo. Os signos e símbolos se autonomizaram. Eles são como uma hiper-realidade. A Nike não é um tênis ou uma blusa ou uma bola, mas um desenho abstrato que pode gerar a abstração maior, a do dinheiro, na bolsa de valores. O desenho que é símbolo da Nike tem que aludir ao “mundo Nike”, o mundo gerado por imagens de juventude, força, velocidade, capacidade de vencer e ao mesmo tempo um mundo sem nódoas geradas por velhos preconceitos.

Nesse tipo de capitalismo, em que a imagem do hiper-real se impõe, não é difícil ficarmos viciados nela, e nos deixamos envolver por esse modo de encarar as coisas. Todas as nossas relações começam a ficar permeadas pelo destino que as marcas nos dão, e boa parte delas nada são senão uma simbologia que se relaciona de algum modo com a realidade aumentada, com o hiper-real.

Paulo Ghiraldelli, 64, filósofo

Foto acima: Manara com Mulher Aranha e a australiana Patricia Piccinini com Big Mother