A tal linguagem neutra

Parece que foi Sarney quem primeiro incorporou em discursos da presidência o chamamento “brasileiros e brasileiras”. Sarney cumpriu o desiderato do que denominamos de linguagem inclusiva. É a linguagem que trabalha na citação dos gêneros conforme o comum binarismo de nossa cultura. Nossa regra atual é a de usar o masculino como o geral. Mas ninguém impede a linguagem inclusiva do tipo da de Sarney. Todavia, os que pedem a linguagem neutra querem mais que a inclusão já efetuada por quem faz como Sarney. Pedem uma transformação não pouco radical de nossa gramática. Aí, as coisas são mais difíceis.

Em tese, a linguagem neutra não seria problema. Ela é vigente em algumas línguas. Há outras línguas que incorporaram alguns elementos de neutralidade na linguagem recentemente. Todavia, devemos lembrar que o problema técnico não é simples desculpa ideológica para não mudar. Quando adotamos uma palavra segundo a neutralidade de gênero, temos de mudar as concordâncias de toda a frase. Em um país em que a maior parte da população já não sabe as concordâncias vigentes, imagine alguma mudança que confunda ainda mais!

Todas as mudanças em uma língua são alterações que, a partir de usos e costumes, acabam depois, em um momento de convenção de especialistas, ganhando caráter oficial. Muda-se então a imprensa, as academias e o ensino. Se a mudança é abrupta, e feita pela vontade de uma lei que não respeita o tempo, cria-se então buracos comunicacionais e sociais desnecessários. Não raro, os neutralistas não entendem isso.

Muitos que torcem o nariz para a linguagem neutra não são pessoas que estão contra o desejo de grupos minoritários de buscarem representação possível na linguagem. Nem estão negando as descobertas atuais da ciência, por exemplo, a de que vocabulários novos levam a novas formas de pensamento e, portanto, possuem força para dirimir preconceitos (como também criá-los). Os que se opõem à linguagem neutra, de modo consciente e com estudo, não raro o fazem exatamente porque estão preocupados com as questões técnicas envolvidas. A viabilidade e a necessidade real de se mudar é que é preciso ser considerada. Isso é questão mais de longo debate e menos de militância fanatizada.

Os defensores da linguagem neutra nem sempre estão interessados em questões técnicas. Casam-se com grupos identitários, que se pensam de esquerda, mas que possuem práticas e mesmo teorias notadamente autoritárias e fascistas. Esse casamento, então, inviabiliza a própria pesquisa a respeito do tema da linguagem neutra. Os identitários não defendem minorias, defendem a identidade, e fazem dela algo absoluto. Não raro, apenas invertem a seta da dominação. Se um grupo é hegemônico, o que se quer fazer, pela intenção dos identitários, não é a inclusão da minoria junto do mesmo campo da maioria por meio da democracia, mas sim colocar o grupo minoritário como tendo direitos que negam todos os outros direitos já estabelecidos. Esse viés pouco democrático dos que são identitários, quando impregnam os que lidam com a pesquisa a respeito da linguagem neutra, coloca tudo a perder.

Nessa hora, quando isso ocorre, a sociedade começa a reagir com piadas. E não sem razão. Já vi na Internet as pessoas caçoando de quem fala “todes”. Para retrucar, os piadistas dizem: “todos, todas, todes e também nescau”. Piada infame, mas talvez necessária de modo a fazer os que lidam com a linguagem neutra perceberem que se deixarem os identitários defendê-las, tudo irá se perder, pois tal coisa irá virar motivo de chacota. O identitário é neofascista, é caricaturesco, e sempre será motivo de piada. A questão da linguagem neutra, quando junto desse povo identitário, fica enodoada e perde força. Nem é capaz, portanto, de reagir ao veto reacionário do governo Bolsonaro de negar verba para pesquisas no campo da linguagem neutra, que seriam pesquisas, em princípio, em campo técnico necessário para várias áreas, inclusive filosofia da mente e ramos da medicina.

Paulo Ghiraldelli, 64, filósofo