Meu inimigo no casamento

No seu mais recente livro, Byung-Chul Han fala do desaparecimento das coisas. As coisas que se tornam não-coisas. O mundo digitalizado em que vivemos deixa espaços vazios e tempos sem métrica. As coisas tornam-se imagens, o tempo sem ritual nos tira referências. O resultado é o mesmo de quando perdemos a oposição dos outros, por conta do individualismo exagerado pautado pelo neoliberalismo: narcisismo.

Dito isso, o filósofo germano-coreano, em seu Não-coisas, deleita-se em falar de coisas que não poderiam ser digitalizadas, até chegar ao final do livro, no qual se mostra enamorado de uma velha vitrola que comprou em uma loja de antiguidades. Só assim ele descobriu músicas românticas! Só na vitrola de origem do tempo das músicas que ele agora escuta, fez sentido para ele as tais melodias que são do meu tempo, mas não do tempo dele – Byung-Chul Han nasceu nos anos sessenta e eu nos anos cinquenta. Faz diferença!

Ao terminar a leitura do livro, deparei-me com um outro texto, publicado no jornal Estadão, “Modern Love: Um futuro preparado e nunca usado”. É um belo escrito em que a autora, aos 36 anos, conta de como foi educada para se casar, um projeto que não deu certo! O detalhe é sobre tupperware. A escritora Shubnum Khan é de cultura indiana, e lembra dos tupperwares que iam sendo armazenados no guarda-roupa, e que só seriam tirados quando um pretendente viesse buscá-los e, junto deles, levassem a noiva. Ela não disse bem isso, mas foi o que me pareceu: tupperware e, de brinde, uma moça – uma autêntica esposa.

Estou no meu quarto casamento. Os tupperwares ainda não me abandonaram. Neste casamento que estou, e que espero que não se desfaça, tenho tomado o cuidado de apenas rejeitar os tupperwares quando eles aparecem com comida dentro. Nos casamentos anteriores eu não só não comia o que vinha neles, mas andei jogando-os fora. Foram para o lixo! Até os mais encantadores foram para o lixo. Claro que fiz isso quando as mulheres não estavam vendo. Sou um criminoso envergonhado. Tenho algum pudor, uma qualidade que o mito de Protágoras dizia ser necessário para a vida em sociedade.

Odeio tupperware e, portanto, não posso endossar a tese de Byung-Chul Han de que as coisas não devam desaparecer. Quero que todo tupperware do mundo suma, mas não por conta de sua digitalização, e sim por um decreto divino. Não há justificativa para qualquer ontologia que respeite tupperware. Eles são feios quando nascem, ficam mais feios no uso e, enfim, cheiram mal mesmo quando lavados com os melhores detergentes. São nojentos. Nada que venha embrulhado em derivado de petróleo pode agradar alguém que é do tempo que a porcelana acolhia as comidas. Qualquer peça feita pelo barro e não pelo petróleo pode acolher a comida. O barro é material de Deus, o petróleo é apenas putrefação de dinossauro.

Felizmente não moro na África do Sul e, assim, não cruzei com Shubnum Khan. Imagine pedir a mão da bela moça e, ao final, nas núpcias, encontrar um tupperware para o sexo, não uma xoxota! Esse comentário é machista, eu sei. Mas o tupperware por acaso é feminista? Não! Ele é uma peça desnecessária de uma modernidade típica dos anos sessenta. Nem tudo dos anos sessenta precisa ser preservado. Posso idolatrar Woodstock, não uma peça cuja tampa nunca encaixa.

Outro dia vi uma fila em um supermercado. Eram mulheres de todas as idades e de classes sociais diferentes esperando para pegar um cupom. Com tal bilhete em mãos iriam ganhar, a cada compra, incríveis tupperwares. Elas se estapeavam para ganhar lugar na fila. A relação entre a mulher e o tupperware é um tema que a antropologia irá descrever um dia, antes que caia nas mãos da psicanálise. Mas, no momento, ainda continua um mistério da relação entre o mundo feminino e Gaia.

Paulo Ghiraldelli, 64, filósofo

Na foto: Shubnum Khan, sem tupperware, é claro!