O que é subjetividade maquínica?

O que é a subjetividade maquínica? Descobri recentemente, por sugestão da minha amiga Lin, que podemos utilizar da formulação da experiência imaginária do Quarto Chinês, de John Searle, para criar uma exposição didática da subjetividade maquínica.

Coloco você no Quarto Chinês e, feita a experiência, volto para a noção de subjetividade maquínica.

Imagine-se em um quarto com um cano de entrada e um cano de saída nas paredes opostas (veja a figura). Fora do quarto há dois chineses. Um deles, o da entrada, está com bolinhas contendo o alfabeto chinês. Ele joga as bolinhas para você que está no quarto, e que nada sabe sobre chinês. Dentro do quarto, em uma das paredes, há um quadro com diagramas (setas, indicadores) que correlaciona cada símbolo com outros. Seguindo os diagramas, você agrupa as bolinhas. Os diagramas nada mais são que regras sintáticas que permitem que você formule respostas para perguntas lançadas pelo chinês no exterior do quarto, no cano da entrada. Eles, os diagramas, nada explicam sobre o significado dos símbolos que você recebe. Mesmos assim, eles permitem que você responda corretamente às perguntas, e à medida que você transfere as respostas para o chinês que está fora, no cano da saída, ele não terá motivos para acreditar que você nada conhece da língua chinesa. Não há semântica no seu trabalho, apenas sintaxe, e, no entanto, por meio dos diagramas, que são, na verdade, algoritmos, você simulou ser uma máquina, um computador.

Searle usou dessa experiência imaginária para dar respostas em metafísica e filosofia da mente contra os que advogam, no âmbito da disciplina Inteligência Artificial, que podemos gerar um computador que pensa. O computador não pensa, suas respostas são, por algoritmos, diagramas sintáticos apenas. Ele não interpreta nada, não tem uma função humana de compreender os símbolos, não evoca uma semântica, que é o que caracteriza a linguagem humana e o pensamento.

Ora, no caso da subjetividade maquínica, é exatamente isso que ocorre, a situação do Quarto Chinês. O termo “subjetividade” não se refere a cada um dos humanos envolvidos (você e os chineses), mas ao conjunto todo, sendo que você não está ali como humano, mas como a máquina ou uma imitação dela ou um ponto de conexão da Internet, que é uma grande máquina. A subjetividade maquínica é, portanto, a subjetividade que envolve o desempenho de uma máquina, um computador, com outros computadores, ou com humanos que se obrigam a reduzir suas participações como quem imita a máquina. Quem estiver na grande máquina passa informação adiante por meio de diagramas, ou, se quiser assim chamar, algoritmos.

 A noção de subjetividade maquínica foi criada por Gilles Deleuze e Felix Guatarri, antes da existência da Internet. Com tal expressão, eles queriam mostrar exatamente a noção de subjetividade de nossos tempos. Toni Negri e Michael Hardt passaram a usar dessa expressão, acentuando o quanto uma tal noção mostra um sujeito com funções de agente, mas sem as funções de identidade de um eu (o Eu ipse, e não o Eu idem, como nos ensinou Paul Ricouer). Franco Berardi não utiliza da expressão subjetividade maquínica, mas apanha o conceito, ainda que, em alguns momentos, use a não boa expressão “homem-máquina”, que dá uma impressão de exterioridade. Mas Berardi enriquece a noção através das noções de conjunção e conexão. No primeiro caso, temos relacionamentos humanos, que dependem de semântica e interpretação, no segundo caso, que é o vigente entre nós à medida que não podemos nos desvincular da Internet, temos apenas a atuação sintática, que não depende de interpretação. Se quisermos estar nas máquinas para a conexão, temos de “falar” como elas, sintaticamente, como você no Quarto Chinês.

Toda a tecnologia das redes, em qualquer desses filósofos, é vista como um corolário do capitalismo. É o capital que sempre persegue sua função de acumular (com a força do que seria a vontade de potência em Nietzsche) o grande gerador da Internet. O capitalismo trouxe a tecnologia que faz com que o dinheiro fiduciário vire apenas número e caminhe em tempo real, possibilitando ao capital financeiro ou capital portador de juros (“capital fictício”, na expressão de Marx, que o distinguia do capital produtor de mercadorias físicas) sua atuação segundo as diretrizes das máquinas, dos algoritmos. Nesse sentido, ampliam-se nas redes as determinações semióticas em detrimento das determinações semânticas, e o capital amplia sua acumulação assustadoramente. E que se lembre aqui: o mundo passou a crescer menos, produzir menos, ao produzir mais dinheiro, mais número. As medidas governamentais que propiciam isso se chama neoliberalismo. A maneira como o capitalismo se comporta segundo tais medidas se chama biopolítica.  É mundo pós anos 70, e vigente entre nós.

Tínhamos a ideia de que uma ampliação da semiótica geraria uma ampliação da semântica. O trabalho em rede, na era pós-fordista e pós-fabril, mostrou que esse não é o caso, que nós, saídos das fábricas e integrados nas cidades, nas redes, estamos nos adaptando a um crescimento semiótico em detrimento da semântica. Cada subjetividade humana perde suas características de um agente intérprete para se transformar em um agente que segue algoritmos, se integrando a uma subjetividade de maior campânula: a subjetividade maquínica. A máquina não pensa e, portanto, exige de nós que também não pensemos para nos relacionar com ela e fazer com que todo o capitalismo financeiro funcione.

Podemos desenvolver, então, a ideia de que o General Intelect, nome dado por Marx ao saber difuso que permeia toda a sociedade e que é por ela criado coletivamente, venha a se ampliar em termos semióticos, mas empobrecido em termos semânticos. Nesse caminho, é o General Intelect que perde seu corpo, se descorporaliza. A semântica precisa do corpo, a semiótica não, ao menos quanto a ser o elemento que faz as mensagens correrem na Internet, a grande máquina. Assim, sem corpo, o General Intelect de nossos tempos é carente, não transmite de fato afetos, e gera uma comunicação estranha. A máquina nos ensina a falar como se soubéssemos uma língua, sem no entanto termos qualquer sensação (e sentimento) ao pronunciar cada palavra, ao dar cada resposta. Lembre-se de você fazendo o papel de máquina, o de um agente que se relaciona com máquinas, para notar a sua alienação ao corpo. Esse problema é o denunciado por Franco Berardi, o da criação de uma humanidade sem conjunção, apenas com conexão. Ele dá o nome a isso de semiocapitalismo.

Paulo Ghiraldelli, 64, filósofo

07/10/2021, Campo Grande MS

5 comentários

  1. Bom dia Professor!
    Com 43 anos, vejo que nasci dentro desta turbulência de subjetividade maquímica. Tínhamos que ser técnicos em nosso trabalho e isso me encomodava. A regra era falar pouco e dar a solução e ponto final. Que coisa doida.

  2. Professor, hoje me deparei com uma reportagem no youtube falada pela máquina, em substituição a voz da reporter ou jornalista. Coisa estranha e sem alma, não aguentei.

  3. Quero parabenizar a qualidade do texto “O que é subjetividade maquínica?”
    Sem dúvida a melhor abordagem sobre os desdobramentos da virtualidade.

  4. Iniciei adolescente no no comércio, vendendo, vendendo, vendendo… Pulei para o chão de fábrica, linha de produção, produção, produção, turnos e turnos … Depois fui buscar formação acadêmica e a área que escolhi me trouxe saberes e um despertar fora da caixa, da subjetividade maquínica. Porém, me sinto tão distante na incompletude do meu ser e que me toma em uma sensação que sempre estarei aquém. Mas até o último fôlego, continuo buscando pois na inércia não ficarei e nem nos primeiros rudimentos.

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