Avaliação crítica da entrevista de Marilena Chauí sobre Bolsonaro

A última vez que abordei um texto de Marilena Chauí foi em 2013. Naquela época, ela estava preocupada em desqualificar as manifestações de junho. O que notei, então, e deixei registrado, é que ela parecia não entender dois elementos centrais das manifestações que, por sinal, não diferiam de outras que haviam ocorrido e estavam ocorrendo em várias partes do mundo.

Primeiro: a manifestação era algo que podíamos qualificar como “a revolução do indivíduo”, expressão que tomei de uma observação de meu filho, Paulo Francisco, estudante de filosofia e que, na época, tinha por volta de vinte anos.  Segundo: os movimentos se organizavam a partir da Internet, em especial o Facebook, igual ao que ocorrera e vinha ocorrendo em outros países, e rapidamente todos estavam nas ruas, sem qualquer sistema de liderança verticalizada.

Passado quase uma década, essa falha de Marilena Chauí continua a orientar seu pensamento, agora voltado para a análise do governo Bolsonaro.

Naquela época, Marilena Chauí não conseguia aceitar que os jovens pudessem se insurgir contra o PT. Pois só podia entender jovens em protesto de rua se fossem organizados pelo PT. Tomava a dispersão deles não como individualismo, mas como ingenuidade, e até mesmo como quem estaria sendo manipulado. Além disso, usava de uma crítica (rasteira) que certo marxismo fazia à internet, para dizer que aqueles jovens estavam operando meios que não sabiam do que se tratava. Na verdade, era ela quem não entendia coisa alguma sobre computadores e Internet. Era ela que não via que o individualismo havia se disseminado por toda sociedade, e que isso teria consequências várias.  

Naquele período, Suplicy soube melhor aceitar os protestos e acompanhá-los, e se manteve aprovando os participantes. Outro membro do PT, o professor André Singer, preferiu esperar e fazer uma análise do período e do governo Lula mais consistente, sem estigmatizar o movimento de 2013 – O lulismo em crise (São Paulo: Cia das Letras, 2018). Ou seja, Marilena Chauí, em 2013, já não era a melhor voz intelectual do partido para analisar a vida social e política brasileira.

Agora, aos oitenta anos, a filósofa tece vários comentários sobre Bolsonaro em uma entrevista publicada na revista Focus Brasil, da Fundação Perseu Abramo, em 20-09-2021. Seu pecado deriva ainda dos erros do passado. Ela não se dedicou a estudar o individualismo daquela época e sua relação com o neoliberalismo no Brasil. Então, toma o governo Bolsonaro como tendo somente dois eixos, um que é o neoliberalismo, outro que corresponde ao que ela chama de “extrema direita”. Acerta quanto ao neoliberalismo, vendo em Paulo Guedes e nos homens da Faria Lima os que apostaram nessa característica como sendo a virtude do governo. Mas ela não aprofunda a visão de neoliberalismo e, então, não reconhece certas tendências individualizantes que já podiam estar em germe em 2013, e que radicalizavam a ideia de liberdade interna ao neoliberalismo.

Marilena Chauí desconhece, ou simplesmente se esqueceu, de analisar um elemento central da vida política norte-americana: os libertarians de direita, gente que, filosoficamente, poderia ser herdeira, mesmo sem ler, do termo “anarquia” como ele se apresentou no título do livro de Robert Nozick, Anarquia, estado e utopia, de 1974, escrito em resposta ao Teoria da Justiça, do liberal John Rawls, de 1971. Nozick não era um neoliberal. Foi tomado como um libertário.

O anarquismo foi forte na América, no âmbito do início dos sindicatos de trabalhadores. Há uma tradição na literatura e na filosofia americanas pelo libertarismo, cuja base icônica pode ser identificada em Henry Toureau.  Nos anos setenta esse libertarismo se deslocou para a direita, e ganhou adeptos na política que, não raro, buscaram se candidatar em vários pleitos de modo pelo Partido Libertário. Buscaram caminhos exteriores ao sistema criado pelos dois grandes partidos dos Estados Unidos, o Democrata e o Republicano. Trump nunca foi neofascista ou neoliberal, ele sempre foi um libertário. Ele também tentou a via independente. Quando encontrou com Steve Bannon, montou então uma estratégia que o permitiu se candidatar pelos republicanos. Acoplaram ao libertarismo a prática de Fake News, o negacionismo, as teorias da conspiração e, em cima disso, sujaram o libertarismo com a baba do próprio Trump. Geraram algo caricaturesco, capaz de fazer o Tea Party, o núcleo reacionário-libertário interior ao Partido Republicano, parecer sério.

Esses libertários são pessoas que, no limite, desejam o fim das instituições republicanas. Querem uma sociedade mais próxima daquela que seria produzida pela liberdade total do indivíduo, em um esquema que poderíamos chamar de imperativo do darwinismo social. “Quem pode mais, chora menos” – eis aí a sociedade de Steve Bannon, Olavo de Carvalho e, enfim, de Bolsonaro. Muitos dos adeptos de Bolsonaro que pedem “golpe militar”, mas, quando interrogados, delineiam uma sociedade anárquica como a que gostariam de viver. Uma sociedade sem regras. Uma sociedade que é a negação do conceito de sociedade. Exatamente do modo que Bolsonaro aponta quando sai de moto sem capacete ou quando se insurge contra a cadeirinha para criança nos carros etc. Tudo Bolsonaro quer “liberar”, inclusive a Internet. O PT e outras forças de esquerda desconsideram isso e falam em Bolsonaro ditador ou autoritário. Bolsonaro, ele próprio, estranha.

Bolsonaro sempre se elegeu exatamente em lugar “libertário”. Ou lugar anarcocapitalista, como alguns quiseram chamar o que seria o “regime” desses libertários. Nesse regime, as instituições se retiram e os movimentos sociais populares são silenciados, sobra então os indivíduos, que em princípio estariam livres. Esse regime, que é a distopia de Bolsonaro, exige não golpe, mas contínua deterioração da República. Essa distopia tem lugar. É o lugar onde Bolsonaro sempre se elegeu, durante 28 anos. Rio das Pedras, no Rio de Janeiro, desconhece a presença do estado, ou mesmo de empresas imobiliárias sérias. É governada já faz tempo por milícia-tráfico, igrejas evangélicas e, claro, tendo como capa geral, que cobre todo o Brasil, o capitalismo financeirizado.

Desse modo, o neofascismo de Bolsonaro, aquilo que se pode chamar de “extrema direita”, é somente uma atitude psicológica, restolho do tempo de quartel, mas não tem muito a ver com o seu projeto político. Seu projeto político, aquele pelo qual Olavo de Carvalho se bateu, era e é o anarcocapitalismo. Bolsonaro queria e talvez ainda queira universalizar Rio das Pedras.  Ali ele mostrou que a democracia representativa o favorece.

Marilena Chauí não notou isso, e então imagina que Bolsonaro, como ela diz, seja um “palhaço” que saiu do controle dos neoliberais da Faria Lima. Ora, esse pessoal não criou Bolsonaro, eles apenas aderiram à campanha dele tardiamente, quando este despontou na vaga de Aécio e do antipetismo. Quando viram que Bolsonaro havia “sobrado”, então jogaram as fichas nele. Só assim surgiu o “grupo dos 200”, aqueles empresários que realmente botaram muito dinheiro na campanha de Bolsonaro. Até então, o capitão reformado estava em campanha apenas para eleger os filhos, e confessava a todos amigos que se conseguisse fazer 10% dos votos teria obtido grande vitória.

Além dessa falha, há algumas outras menores em Marilena Chauí. Ela deixa transparecer, em certas passagens, que acreditou que Bolsonaro tentou dar um golpe em 7 de setembro. Não! Bolsonaro nunca tentou golpe. Esses dias mesmo ele confirmou isso para a imprensa e para o PT, mostrando o óbvio que, ou por falta de inteligência ou por má fé, essas duas instâncias não quiseram ouvir. Ele disse: “sou o chefe das Forças Armadas, mas se eu der uma ordem absurda, ela cumprirá? Não!” E mais: “jamais haverá golpe”. De fato, Bolsonaro sabe o que é um golpe e sabe que não pode organizar um. Falta-lhe tudo: classes sociais dominantes fora do governo e, então, querendo o poder; exército conspirando; exército e chefe dos golpistas organizados e com plano de poder para o “dia seguinte”. Só na cabeça da imprensa tola, e de gente do PT que sempre quis engrandecer o “Bolsonaro Autoritário Golpista”, é que uma versão assim poderia vingar. Isso foi feito com o intuito de atacá-lo por “falta de democracia”, e desse modo não apresentar proposta econômica alguma para a sociedade.

Ainda na entrevista analisada, Marilena Chauí louva a pluralidade da esquerda, mas ao fim anula sua fala ao fazer a apologia do Lula. Ou seja, prega a velha “unidade da esquerda”, uma forma do PT sempre fazer todos calarem a boca e darem um cheque em branco para o Lula. Se já não bastasse isso, a filósofa, ao final do artigo, diz que Lula tem força moral para reconstruir o Brasil. Nessa parte da entrevista, ela mostra uma sinceridade constrangedora. Eis o que diz: “a economia vai se virar, a gente sabe que o capitalismo se vira. A questão é o social e o político que foram desmanchados”. Ao dizer isso, ela confessa que, na visão dela, Lula já virá para não mexer no capitalismo, na economia, mas apenas nos penduricalhos, as chamadas políticas sociais. Em suma, eis o que será o governo do PT: novamente o “neoliberalismo de esquerda”, ou seja, o neoliberalismo somente, com Jean Wyllys e Boulos rebolando com Dilma em todo canto, enquanto no ministério da economia e no Banco Central, os liberais de sempre. De sobra, para completar o carnaval, algumas polêmicas identitárias, que em geral jogam militantes de esquerda para os braços do neofascismo. Pois identitarismo é sempre neofascismo.

Poderia acrescentar, por fim, mais um ponto problemático. A filósofa diz que a estrutura da nossa sociedade é a mesma de 1964. Não! Mas, para argumentar, nesse caso, eu teria de elaborar um texto mais longo, mostrando a financeirização, a mudança nas relações de trabalho, e as alterações sociológicas fundamentais. Aqui, é importante destacar esse detalhe: esse erro da professora Chauí talvez esteja na base de seu não entendimento do individualismo de nossa sociedade atual, que não necessariamente é devido somente ao neoliberalismo, mas também ao libertarismo presente em um dos polos de atuação do governo Bolsonaro, o polo dito “ideológico”. Na falta de um texto mais longo, remeto o leitor ao apêndice do meu A República brasileira: de Deodoro a Bolsonaro (São Paulo: CEFA editorial, segunda edição modificada, 2021). Nesse apêndice tento explicar, a partir de pontos a respeito da transformação biopolítica de nossa sociedade, as causas centrais da vitória de Bolsonaro em 2018. Ali eu caso visão sociológica com visão econômica e filosófica, percorrendo os caminhos da financeirização no mundo e no Brasil. Faço o que Chauí não faz. Confiram, o livro está no prelo e logo estará na Amazon, em e-book e em papel.

Paulo Ghiraldelli, 64, filósofo.