PRADA DEIXA DJAMILA NUA

“Djamila veste Prada e assombra a branquitude e o ativismo por sua liberdade de frustrar expectativas, cutucar moralismos e produzir reflexão.” (Folha de S. Paulo 16/08/2021). Essa é a conclusão da psicanalista Vera Iaconelli a respeito da atitude da escritora Djamila Ribeiro ao posar para uma campanha publicitária de bolsa de luxo. Iaconelli titubeou. Quis criar uma reflexão e acreditou que Djamila deu chance para tal. De certo modo tentou salvar Djamila – afinal, não podemos criticar os que escolheram o “lugar de fala” dos vulneráveis, mesmo não sendo! Mas Djamila não tem salvação. Desde o início ela, Djamila, pegou o caminho errado. Não vai melhorar.

Djamila foi nomeada “influente”. Meu Deus. Por quem? As definições de “personalidade influente” nos dias de hoje são a prova de que elas não são influentes. Pois passado pouco tempo os “influentes” podem até continuar na mídia, mas não possuem uma reflexão que alimente alguma corrente de pensamento e algum movimento de transformação de atitudes. Os tais influentes não deixam influência! Julliette também é “personalidade influente”. O que ela fez: dormiu no BBB o tempo todo e ganhou a prova. Agora a mídia está com o abacaxi na mão: precisa promover o rosto dela até o próximo BBB. É um tipo de Djamila: influencer! Com melhor sorriso, claro.

Djamila Ribeiro filósofa? Qual o pensamento dela? Ora, pelo que ela mostrou, simplesmente isso: a mulher negra deve ter dinheiro e comprar uma bolsa Prada. Em tempos de Pondé, que homenageou Olavo de Carvalho, e em tempos de Karnal, que jantou como Moro para articular curso para ganhar dinheiro com a então fama do juiz, é fato que Djamila esteja mesmo produzindo algo! Mas, garanto, nada de literário ou filosófico. Aliás, nada de válido para a comunidade negra ou para qualquer brasileiro. Djamila é uma fraude.

A narrativa de Iaconelli dizendo que superamos a discussão sobre o “o socialista de iPhone” se esquece que este é instrumento de trabalho, e que bolsa Prada é instrumento de ostentação. Sinceramente, causa-me náusea ver gente fazendo propaganda de bolsa de 16 mil reais no Brasil, ao lado da figura quixotesca do Padre Júlio Lancellotti na noite paulistana alimentando o povo da Cracolândia. Uma sociedade em que gente com o título de filósofo está desfilando com bolsa, enquanto um padre solitário luta desesperadamente para saciar a fome do pobre, é uma sociedade que precisa realmente de ser repensada de alto a baixo. Já éramos asssim antes de Bolsonaro? Já tínhamos Djamilas?

Quando olho para o rosto da Djamila, os olhos dela me parecem iguaizinhos os olhos do Presidente bolsonarista da Fundação Palmares, Sérgio Camargo. Há algo do conto de Machado, “Pai contra mãe”, por essas bandas em que Djamila expõe um olhar que é o do seu irmão de cor lá na Palmares. Há algo que diz que ali mora a casa dos líquidos que saem do meio das pernas da figura do Ressentimento.

Na conta da Vera Iaconelli, Djamila quis produzir reflexão. Não! Menos Vera, menos – por favor! Djamila está deslumbrada consigo mesma. Sua postura, em todos os seus livros, é autoritária. É autocentrada. Narcísica. Às vezes, visivelmente histérica, naquele sentido de quem ficciona a si mesmo. Ela tem a pretensão de ensinar os negros o que é que é o negro! Ela dá cursos sobre isso. Ela quer ensinar o negro o que é que faz mal ao negro. Em um de seus livros, ela pede que haja reação contra piadas “racistas”, como se isso fosse uma coisa simples para o negro pobre, ou mesmo para qualquer um de nós. No meio do bar, devo me levantar e brigar com amigos. Se não faço isso, na conta de Djamila, sou racista!

O identitarismo fascista nasce aí, da imposição no bar ou em qualquer outra situação, em especial de descontração, de minha visão, como sendo superior, diante da piada. Aliás, a militância identitarista, desse tipo, tem feito crescer a direita. Muitos vão para a direita para não serem imbecis, pois passam a acreditar que o identitarismo é de esquerda. E o identitarismo é imbecil. Nada tem a ver com a luta histórica de direitos de minorias. Já comentei isso em outros textos e vídeos. Só para relembrar: o identitarismo é a forma neoliberal (“Vejam como venci, eu negra!”) que não raro pode tender ao fascismo, de colocar uma identidade em situação absoluta, faborecendo o indivíduo que já é favorecido. Há aí então duplo favorecimento. Cultiva-se o particular em detrimento do universal, ou seja, segundariza-se as lei gerais que podem favorecer todas as minorias, e não só a identidade de um indivíduo.

Djamila em seus livros não pede que o negro tenha acesso ao hospital que o branco tem, nem pede para que o tratamento seja igual. Ela quer ver o negro sendo acusado de “sem educação” ao reagir a piada. Ela não quer ver o negro altivo. Ela quer ver o negro em celeuma às vezes desnecessária. Todas as situações que ela cria para a reação do negro diante do racismo são as menos relevantes, mas são sempre aquelas nas quais o negro pobre irá passar por mais humilhação ainda se seguir seus ensinamentos. Djamila parece ter prazer em ensinar o modo pelo qual o negro pobre, que não é ela, cai na humilhação, na armadilha que a sociedade montou para ele. De resto, ela quer que todos nós entremos em choques de mesa de bar, completamente desnecessários e improdutivos.

Entre não falar o “sim dotô” e a criação de direitos não é necessário optar. Não se fala “sim dotô”, mas penso que a criação de direitos é mais inteligente que atitudes de birra contra piadas e outras coisas idiossincráticas.

Saber reivindicar, saber criar direitos, sem passar por humilhação, é a arte da política que muitos militantes sabem fazer. Negros e brancos da multidão cidadã sabem fazer isso, e sabem que a diretriz que Djamila dá em seus livros é tiro pela culatra. Djamila exige suicídio da parte do negro pobre, só para ela posar de radical hormonal, que na verdade faz parte apenas de um problema que, talvez, possa ser simplesmente neurológico, do qual ela é vítima.

Djamila pode andar vestindo Prada todos os dias. O problema dela não é o seu desejo de ganhar dinheiro. Talvez ela queira ganhar exatamente para empregar em causas nobres. Não sei. O problema é que ela escolheu ganhar dinheiro com a coisa errada. Pelé pode ter todos os defeitos do mundo, aqueles que o mundo político apontou, mas ele nunca ganhou dinheiro com a indústria do tabaco. Ele era atleta, e assim se manteve. Djamila faz uma literatura em que pretende, ainda que muitas vezes de modo errado, a ajudar para o fim do racismo brasileiro. Ora, racismo é algo casado com o capitalismo, como Vera Iaconelli bem lembrou. É algo que não se separa do capitalismo. E capitalismo tem níveis de apresentação. Há níveis de engajamento de todos nós no capitalismo – e é mentira que não decidimos isso. Há empresas e empresas. Caso não fosse assim, ficaríamos incomodados de modo igual quando diante de uma empresa que emprega mão de obra infantil e até escrava e diante de uma que não faz tal prática. Ambas estão no mundo para que o capital venha a se acumular. Mas a primeira nos causa repugnância.

É essa repugnância a certas práticas que Djamila não tem. Ela tem o prazer enorme em sempre se apresentar como se amasse o prostíbulo. “Vendo meu corpo porque sou dona do meu nariz; eu preta, não obedeço vocês brancos de uma figa, e uso Prada vocês querendo ou não”. É assim que, a cada dia, soa as atitudes um tanto infatilóides de Djamila, aliás, bem parecidas com o que está em seus textos.

Paulo Ghiraldelli, 64, filósofo

Aviso: fFoto usada na capa: meramente ilustrativa, não é uma pessoa em particular com referida no texto.


		

2 comentários

  1. Tenho pensado na seguinte narrativa:
    Esse identitarismo de Djamila, e outros, passa pela incorporação, pelo identitário, do conceito de meritocracia (desculpa usada para justificar a situação social privilegiada das elites) em que eles se colocam como a pessoa que venceu, que superou o racismo/uma dificuldade “estrutural” da sociedade, por méritos próprios.
    É a aceitação do discurso das elites e serve para desarmar a luta das minorias pela igualdade de oportunidades para todos, incorpora o negativismo “pondêmico” do “ninguém faz nada por outros sem interesses escusos”, “quem quer o bem, visa o mal”, etc.
    Numa sociedade mais justa, em que as diferenças fossem menores, talvez, essas pessoas não se sobressairiam, portanto, não se engajam em uma luta coletiva. Elas querem que o sistema continue como está para poderem se convencer de sua superioridade e vender a fórmula do “explorador de si mesmo”. A meritocracia é parte constituinte e necessária do neoliberalismo,

Os comentários estão fechados.