Zizek, a besta no cinema

Qual o problema com Zizek? A burrice comunista. Mas poderíamos acrescentar: ter lido Lacan e se imaginar psicanalista. Tanto faz. Tudo a mesma coisa em Zizek. Escreve muito, de modo ininteligível, e não pensa para escrever. Seus livros são chatos e inócuos, e seu desejo de falar de filmes deveria traze-lo ao Brasil para uma inscrição no PCO ou MBL, tanto faz.

A Folha de S. Paulo trouxe um artigo de Zizek (22/08/2021) que mostra bem o quanto ele não consegue entender Hollywood, e isso por uma razão simples: para ele ou os filmes são militantes, “cafeínados”, ou não são bons. Cinema engajado? Ainda há quem cobre isso, depois de tanta educação para que as pessoas pudessem ter gosto pela arte e não gosto pela política de esquerda (um tipo somente) como crivo para tudo?

Posso amar dois filmes, A vida dos outros e a Lenda de Rita Voigt. São filmes políticos. Mas eu posso amar Nomadland, por que sei que a proposta não é apresentar versões da classe trabalhadora que faria ou não faria revolução. Nomadland não é um filme de trabalhadores bonzinhos, como Zizek pensa. Nomadland não é um filme sobre trabalhadores! É um filme sobre a América. É um filme sobre a terra do utopia que perdeu a capacidade de ter um povo utópico.

Zizek não sabe que as corporações dominaram o mundo, ele não sabe sobre o capitalismo financeiro. Ele ainda divide o mundo entre proletários e não-proletários e países diversos. Nomadland é uma película sobre Facebook, Microsoft, Google e Amazon. É uma narrativa sobre trailers na América de novo, agora sem a Grande Depressão. Zizek não pode ver isso, ele ficou no capitalismo do passado e, pior, no comunismo que nem deveria ter algum passado.

Em um pacote só, Zizek faz a crítica de vários filmes. Mas ele não está interessado neles. São só pretextos para ele falar do que chama “classismo” alemão, que corresponderia aqui ao “identitarismo”, já que nós pegamos esse lixo vindo da política americana do “identitarian”. Zizek não gosta disso. Muito menos eu. Mas por motivos bem diferentes. E a vantagem minha é que eu sei ir ao cinema para ver filmes, e namorar, Zizek nem vai ao cinema, vê tudo em casa, solitário, vorazmente, apenas para escrever bobagem que tem na cabeça antes já de ver os filmes.

A citação é longa, mas necessária. Vejam o que ele escreve de Nomadland, sem ao menos perceber que é um filme que busca imitar um documentário (e nisso o filme cria uma fantástica proposta inovadora):

“E o que há de errado então com “Nomadland” (Chloé Zhao, 2020) (…)? Na Alemanha e em alguns outros países, está surgindo recentemente uma vaga noção do que tem se chamado de “classismo”: uma versão de classe da política de identidade.

Os trabalhadores são ensinados a salvaguardar e promover suas práticas socioculturais e respeito próprio, são conscientizados do papel crucial que desempenham na reprodução social. O movimento operário torna-se, assim, mais um elemento na cadeia de identidades, como uma determinada raça ou orientação sexual.

Essa “solução” para o “problema dos trabalhadores” é o que caracteriza o fascismo e o populismo: são regimes que exprimem respeito pelos trabalhadores, admitem que eles são frequentemente explorados e (muitas vezes com sinceridade) querem tornar sua posição melhor dentro das coordenadas do sistema existente. À sua maneira, Trump estava fazendo isso, protegendo os legítimos trabalhadores estadunidenses dos bancos e da concorrência chinesa desleal.

Ora, “Nomadland” não seria um exemplo-mór desse tal “classismo”? O filme retrata o dia a dia de nossos “proletários nômades”, trabalhadores sem casa permanente que vivem em trailers pulando de um emprego temporário para outro.

Eles são apresentados como pessoas decentes, cheias de bondade espontânea e solidariedade mútua, habitando seu mundo próprio de pequenos costumes e rituais, desfrutando de sua modesta felicidade —até o trabalho ocasional em um armazém de empacotamento da Amazon flui bem… É assim que nossa ideologia hegemônica gosta de ver os trabalhadores (não é à toa que o filme foi o grande vencedor do último Oscar). “

Slavoj Žižek

A perda de sentido da vida na América, sob efeito das grandes corporações, não é percebida por Zizek. Ele não quer ver o filme. A cena central para quem conhece a América é a do cão não adotado. Todos que estão vendo o filme acham que ela, a personagem principal, vai voltar e adotar o cão. Ela não volta. Não há espaço na América para a solidariedade do mimo, para o plus. E era justamente nisso que a América se baseava, na capacidade do plus, do mimo, da solidariedade acentada na abundância. Na classe operária morre-se de câncer solitariamente e pronto. E ponto! E os abandonados que continuem abandonados. O filme não adoça nada, não faz dos proletários de acampamentos bons selvagens rousseauniamos. Mostra apenas um resto de sociedade. Nenhuma pessoa sadia fica querendo ter aquela vida de “bondade espontânea”. Não há bondade no filme. Há apenas tédio, incapacidade, impotência, vida banal de quem não está mais construindo nenhuma utopia.

O encontro da personagem com o adolescente mochileiro é o momento de depressão máxima: a tonteira exposta, o vazio da vida, o nada diante do nada. A América transformada no que não inspira mais nada, apenas o vagar de energúmenos. O adolescente ali conversando com a personagem principal é um energúmeno.

“Modesta felicidade”? Meu Deus, em que lugar Zizek viu felicidade? O filme é inteiro triste. Os personagens se arrastam como o americano sob Trump se arrastou. Não há nenhum “classismo” no sentido de “identitarismo”. O filme passa ao largo do identitarismo, nem o toca. Caso tocasse, não seria um bom filme. O identitarismo só serve para ser criticado, como proposta é a perdição de tudo, é a abertura para o fascismo e nada tem a ver com a defesa de minorias.

Zizek quer criticar o identitarismo, mas atira errado. Pega algo em que não há identitarismo. Sua pressa de escrever e falar mais do que a boca pode mexer, o faz dele um chato superficial. Ele não conseguiu ver o filme Nomadland, sua cabeça de bagre o impediu.

Paulo Ghiraldelli, 64, filósofo