Pelo amor do jogo: Peter Sloterdijk e o debate público em Bioética¹

Mary V. Rorty*
Tradução de Vitor Ferreira Lima**

I. Introdução

No verão de 1999, um proeminente filósofo alemão proferiu um comentário a respeito da “Carta sobre o Humanismo” de Heidegger para uma pequena conferência internacional de Filosofia em Elmau, na Alemanha. A audiência era limitada; o conteúdo e o tom, elevados; o cenário, remoto – mas havia uma vasta e indignada discussão na imprensa alemã.

Este artigo discute de modo breve o “Regras para o Menschenpark” de Peter Sloterdijk, observa algumas diferenças óbvias nas reações nacionais às mesmas questões bioéticas e levanta algumas outras questões sobre o a função da Bioética – e dos bioéticos – no debate público.

II. A “Elmauer Rede”

Se o Humanismo é a tradição de “cartas [escritas] para amigos possíveis” que Sloterdijk afirma, então, como ele igualmente atesta, o Humanismo ou está morrendo ou já está morto, porque menos e menos pessoas leem ou se importam com o cânone clássico: os livros que constituíram a fonte principal de educação dos homens do passado. Ele enxerga na incursão da mídia de massas o fim da instrução educacional como a conhecemos. Sua analogia é um contraste entre os livros dos filósofos e os jogos de anfiteatro do passado de um lado e, de outro, esses mesmos livros e a violência dos videogames de hoje – um tendendo para a “domesticação”; o outro, para a bestialização e barbarização das gerações futuras. O que está em jogo no Humanismo é a descrição rigorosa do homem com respeito às suas capacidades biológicas e a sua ambivalência moral. Você se torna o que lê; o Humanismo é uma técnica para reunir as pessoas em vez de fazê-las estrangular umas às outras.

De acordo com Sloterdijk, na “Carta sobre o Humanismo” (sobre a qual sua “Elmauer Rede” é um comentário), Heidegger declarou o fim do Humanismo, incitando um fim à dependência de potências externas, sejam elas ontológicas ou teológicas. O homem não é mais para ser pensado em sua relação com outra coisa que não seja o próprio homem. Mas Heidegger não vai longe o suficiente. Sloterdijk o critica por fazer do homem, ao invés, um pastor e porta-voz do Ser, subordinando-o, a algo muito similar ao deus que ele estava tentando substituir, e também por afastá-lo bruscamente de seu eu animal e corporificado. No lugar, Sloterdijk prefere a metáfora do autopastoreio. O homem não é o pastor do Ser, mas é o pastor e domesticador/criador do homem.

Se somos primariamente dependentes de nós mesmos para a nossa pacificação e melhoria, o que podemos esperar em termos de técnicas e automelhoria? O que e como podemos ensinar se os livros estão fora de moda, e dois milênios de tradição humanística, como a História recente sugere, têm se provado inútil?

Voltando-se para o Assim falava Zaratustra de Nietzsche, Sloterdijk invoca a conexão entre leitura e criação (Lesen e Auslesen, Lektionen e Selektionen). Zaratustra afirma que as pessoas se tornaram fisicamente menores, em decorrência de séculos de exposição ao altruísmo cristão e à “moralidade do escravo” – “ihre Lehre von Gluck und Tugend”. Se você é ou se torna o que você lê, então, por uma cuidadosa escolha do
cânone, pessoas podem ser melhoradas ou degeneradas. Essa conexão, Sloterdijk sugere, dá-se de ambas as maneiras. Se o que acontece na mente influencia o corpo, talvez o que aconteça no corpo influencie a mente. Na ausência de um amplo cânone literário de leitura, será possível que nós possamos levar adiante o projeto humanista de reduzir o comportamento selvagem e de “domesticar” a tendência bestial do homem através da criação de civilidade?

Heidegger distingue os homens e os outros animais de forma categórica ao enfatizar que os seres humanos vivem em (e fazem) um mundo de significados e não apenas o experienciam. Sloterdijk, por outro lado, estabelece um limite entre os próprios homens: alguns podem ler, outros não podem ler; alguns procriam para autorreprodução, outros são criados. A diferenciação de espécies de Heidegger se torna, nessa leitura, uma distinção elitista entre membros de uma mesma espécie (embora seja de algum modo obscuro em que momento aqueles que são “objetos e não sujeitos de seleção [auslese]” falharam na sua performance ou foram forçados).

O parágrafo que parece, então, ter reproduzido a maior indignação no debate que se seguiu após a “Elmauer Rede” é o seguinte:

É característica da era técnica e antropotecnológica que as pessoas tendam
para o lado ativo ou subjetivo da seleção, sem ânimo de ter sido forçadas a
assumir o papel de selecionadores. (Como evidência, pode-se notar que há
um desconforto com o poder de voto, e em breve se tornará uma opção de
inocência se as pessoas explicitamente se recusarem a exercitar o poder de
escolha que elas conquistaram.) Porém, tão rapidamente quanto o
conhecimento definitivo (wissenmacht) tem positivamente se desenvolvido
numa área, muitas pessoas são consideradas menores se – como nos tempos
passados e mais inocentes – elas permitem a um poder maior, seja ele ou
deus ou sorte ou qualquer outro, agir em seus lugares. Desde que a simples
recusa ou omissão tende a revelar sua esterilidade, pode muito bem acontecer
de, no futuro, o problema ser ativamente confrontado pela formulação de um
códex de antropotecnologia. Tal códex poderia também alterar
retroativamente o significado do Humanismo clássico para, assim, tornar-se
público e oficial que o conteúdo do Humanismo é não só a aliança do homem
com o homem; ele poderá também implicar, e fazer cada vez mais explícito,
que o homem incorpora/representa um poder maior para o homem.

Ele continua:

[Essas considerações] bastam para deixar claro que a próxima grande Era
será decisiva para o período humano de espécies/politica. Nela, será exposto
em que momento a humanidade (ou sua facção cultural maior) será capaz de
ocasionar a implementação de métodos minimamente efetivos de
autodomesticação. Já na cultura dos dias de hoje, uma guerra de titãs está
sendo travada entre os impulsos civilizatórios e bestializantes e suas mídias
correspondentes.

A referência às tecnologias atuais, o mais perto que Sloterdijk chega da filosofia prática de verdade, é mais clara no seguinte parágrafo:

Mas em que momento esse desenvolvimento de longo alcance resultará
também numa revisão genética das características das espécies, em que
momento uma antropotecnologia futura resultará num explícito planejamento
de características específicas, em que momento através de todas as espécies a
humanidade será capaz de transformar defeitos de nascimento em
nascimentos otimizados e em uma seleção pré-natal universal – essas são
questões através das quais o horizonte evolucionário, sempre vago e
arriscado, começa a emitir centelhas de luz…
²

A terceira exegese histórica que explica o ponto de Sloterdijk é uma interpretação de O Político de Platão, uma discussão feita para desenvolver regras racionais para a política – a arte de pastorear a polis. Nesse diálogo, como aponta Sloterdijk, não são só as regras pelas quais as pessoas estariam dispostas a serem governadas que estão em questão. Há ampla evidência de que os princípios pelos quais poderia ser possível produzir sujeitos complacentes, bons cidadãos, estão também sob consideração. Está conectado a Platão que “as regras para o parque humano” do título, ou mais precisamente, as regras para a administração do menschenpark substituem o “códex de antropotecnologia”. No curso do diálogo, ele afirma, as “regras de comportamento”, aquelas pelas quais agentes racionais livres voluntariamente governariam a si mesmos, são gradualmente substituídas por um “códex de consentimento”, características de indivíduos, por quem eles podem ser criados por correspondência criteriosa que os fará cidadãos produtivos de um estado bem governado.

O que Platão põe na boca do Estranho é o programa de uma sociedade
humanística que é incorporado em um único Alto-Humanista (High-
Humanist), o senhor do régio pastoreio. A tarefa desse Super-Humanista
(Uber-Humanist) seria não menos que o planejamento das características de
uma elite, cujos membros devem ser nutridos para o bem de todos.
³

A tarefa do Humanismo é a “domesticação” do homem, reprimir a bestialidade e encorajar a civilidade; mas o fim da cultura literária deixa apenas a companhia da leitura e a criação como meios restantes disponíveis para o avanço da civilização.

III. Interpretando a mensagem

Se isso é o que ele está sugerindo, o que cabe a nós fazer?

Quando li o “Elmauer Rede” pela primeira vez, vislumbrei ali uma faísca de sensacionalismo. À medida que observava mais atentamente os textos sobre os quais ele construía sua estrutura de analogia, comecei a apreciar mais a extensão com que Sloterdijk conhece e entende a tradição da qual ele está anunciando o fim. Não resta dúvida de que suas interpretações dos três grandes textos aos quais se refere são leituras “puxadas” (porque facilmente contestáveis). Como uma fã de longa data de trocadilhos e metáforas, suspeitei em algum momento que a tese de sua palestra surgiu quase completamente a partir de um sentido linguístico preciso de jogo que o levou a explorar as similaridades etimológicas dos pares de palavras lesen/auslesen e lection/selection, trocadilhos que podem sobreviver no seguinte par da língua inglesa: reading/breeding. Certamente no furor que se seguiu à ampla divulgação de sua palestra, não houve ponto de sua interpretação que não tenha sido repreendido por filósofos defendendo Heidegger, Nietzsche ou Platão. O tema mais consistente na reação dos seus críticos, porém, foi uma sentida indignação devida ao fato de que, numa Alemanha pós-holocausto, a ninguém era dado nem mesmo USAR a palavra “seleção”, visto que que ela tinha sido largamente associada com projetos eugênicos fascistas – muito menos recomendá-la.

Ao menos na minha leitura da “Elmauer Rede”, há duas ambiguidades que abasteceram as indignações. Uma foi a distinção – ou terá sido na verdade uma amálgama? – de um “códex antropotecnológico” descritivo que está atualmente no processo de ser escrito por geneticistas e cientistas biomédicos, um livro presentemente longe de conclusão, mas já produtor de uma série de previsões e esperanças; e de “regras para o parque humano” – as estipulações normativas sobre que tipo de experimentações genéticas, pesquisas e intervenções confrontarão padrões éticos para a proteção de indivíduos e direitos humanos. O primeiro livro está nas manchetes de cada jornal e revista do Ocidente. Sloterdijk estava certamente consciente de quão precisamente os detalhes de sua predição vagamente anunciada poderiam já estar delineados: altere este gene, e a manifestação fenotípica desta doença não irá mais aparecer; substitua este códon por aquele, e uma enzima que faltava será produzida . O segundo livro, como o sabem muito bem os observadores da cena bioética nacional e internacional, também está sendo escrito nestas décadas, de várias maneiras – na Convenção sobre Direitos Humanos e Genética da UNESCO, no Conselho Europeu sobre pronunciamentos em Biomedicina e Direitos Humanos – e, de fato, até vem sendo debatido nos Estados Unidos no momento em que as várias comissões nacionais de Bioética lutam para definir normas que regulem pesquisas nacionais e internacionais. Sloterdijk realmente pensou que saber o que seria possível seria diretamente equivalente a determinar o que poderia ser permitido?

A segunda ambiguidade repousa na sua atitude em relação a essas novas possibilidades “cintilando no nosso horizonte evolucionário”. Seria otimista a sua “Rede”, prevendo uma melhor chance para a melhoria do homem na nova genética? Seria ela pessimista, lamentando o final da cultura humanística da qual ele se sabe (embora, de modo ambivalente) parte? Seria ele, como um de seus leitores afirma, apenas outro desapontado reacionário em sua torre de marfim com saudosismo de um passado humanista desaparecido? Ou seria ele, antes, como ele próprio prefere se ver, um viajante aventureiro no mundo moderno, tentando aplicar seus conhecimentos a problemas reais, em vez de ser entregue a prateleiras empoeiradas de uma crescente cultura literária irrelevante?

Os dois pontos estão provavelmente conectados. Se ele realmente acredita que o códex e o livro de regras são idênticos – que considerar algo possível já significa realizá-lo, independente das consequências –, considero isso como uma mensagem profundamente pessimista (e até reacionária). Por outro lado, pode-se ler a “Elmauer Rede” como sugerindo que a nova genética oferece possibilidades positivas para o futuro humano. Mas o lado escuro dessa interpretação positiva é que ela nos força a ponderar se ele realmente acredita que aquelas possibilidades podem somente ser alcançadas abandonando o mundo de significado pelo mundo da biologia e fazendo modificações genéticas para alcançar uma espécie mais sábia, suave e amigável. Sloterdijk não recomenda explicitamente uma revisão genética da humanidade, embora alguns de seus críticos, valendo-se do tom ambíguo de sua descrição, acusam-no de tê-lo feito. Também não, de qualquer maneira ele explicitamente desacredita essa afirmação. A ausência de uma mensagem clara, a suspeita de que ele pretendia lidar com ambos os caminhos, foi uma das críticas mais repetidas nas respostas a sua palestra.

IV. Genética e debate público

Só na Alemanha o debate seria tão erudito quanto o gerado por Sloterdijk. Classicistas, filólogos, filósofos, geneticistas e intelectuais de cada canto da Alemanha culta responderam. Sloterdijk foi massacrado por sua interpretação de Heidegger, de Nietzsche e de Platão e devido ao uso que fez dos três. Ele foi acusado de ser ignorante em relação ao Humanismo, História, Moral, Genética e Filologia, e também por possuir mal gosto e ser midiático. Mas não só intelectuais estavam envolvidos; apresentadores de talk shows, cartas ao editor e jornalistas de várias mídias também entraram na briga. A Der Spiegel, uma contraposição eminentemente erudita à Times Magazine, deu a uma palestra numa obscura conferência de Filosofia uma cobertura de 17 páginas⁴. Os feitos de um filósofo foram matéria de capa. Aqueles entre nós que perseguem a mesma disciplina em países onde se tem menos prestígio e visibilidade puderam só se admirar5. Nos Estados Unidos, a única revista que tomou nota sobre o debate em torno de Sloterdijk foi a Lingua Franca, hoje extinta e à época com uma grande reputação de acesso privilegiado a fofocas da intelligentsia, mas com uma relativa pequena circulação6.

Só na Alemanha também o uso do termo “selektion” causaria tanta indignação. De fato, a “Rede” de Sloterdijk estava cheia de palavras inflamatórias: Menschenzuckt, Selektion, Anthropotechnik. País com uma grande consciência formada por uma má história, a Alemanha está entre as nações mais escrupulosas no mundo em rejeitar qualquer coisa que soe a eugenia. Nos Estados Unidos, contrariamente, leio uma coluna opinativa numa sessão da The New York Times Magazine, que dificilmente seria considerada o pior jornalismo da América, em que o maravilhamento médico de prevenção de uma doença hereditária por fertilização in vitro e uma implantação seletiva de um embrião livre da doença foram saudados como “eugenia” – e o termo foi usado positivamente como um termo de louvor. Claramente, essa conotação positiva do termo é incomum ainda, mas o leitor de notícias científicas nos Estados Unidos e, de fato, da maior parte da imprensa anglófona, não tem como facilmente evitar se perguntar se a mensagem dos milagres que se encontram no futuro através da ciência genética não prefigura a transformação mais uma vez do termo eugenia de modo a que ele volte a ocupar o mesmo lugar positivo, o mesmo papel positivo que possuía no início deste século. (Até 1946, eugenia era não só um termo aceitável como também um nobre e amplamente reconhecido projeto científico.) À luz dessa possibilidade, não se podia esperar outra coisa que não a reação pública veemente como se deu na Alemanha. Entretanto, parece não ter havido clamor público no uso do termo por Meg Greenberg na The New York Times – e isso apesar do fato de que a História dos Estados Unidos não é livre de suas próprias instâncias proibitivas de eugenia negativa.

Há debates públicos ao redor da nova genética nos Estados Unidos também, mas eles diferem do recente debate alemão de vários modos. Primeiro, eles raramente são tão eruditos e não podem ser dirigidos a uma audiência tão integrada. A discussão pública se bifurca nas discussões sem compromisso e frequentemente conciliatórias dos prós e contras dos eruditos, levadas adiante em letras miúdas por revistas esotéricas profissionais e pela imprensa de massas, em que manchetes prometendo milagres genéticos futuros alternam com manchetes assustadoras igualmente não realistas de quimeras e ciborgues iminentes. Professores de Filosofia raramente merecem artigos de opinião em jornais americanos.

Segundo, nossos debates parecem estranhamente a-históricos por comparação. Às vezes aparece no debate público dos Estados Unidos um esquecimento igual tanto do passado quanto do futuro. Ignoramos nosso passado assustador, que poderia sugerir cautela para diminuir nosso entusiasmo de seguir a ciência onde quer que ela possa nos levar. Imaginamos somente o mais brilhante dos futuros possíveis, e se há algo bom a ser encontrado lá, nós o desejamos agora, custe o que custar em possíveis desvios ou em possíveis efeitos colaterais. Pelo fato de que capital americano público e privado esta financiando muito da pesquisa biogenética contemporânea, essas fragilidades são de considerável importância prática7.

V. Bioética e a política da moralidade

Um lado interessante do debate (explicitamente rotulado de “batalha do filósofo”) foi a distinção feita na imprensa pública entre filósofos e bioéticos, e a diferença que isso ressaltava nas atitudes de alemães versus as atitudes dos anglófonos em relação à Genética e à Ética – ao menos do ponto de vista alemão. A maior revista de notícias alemã, Der Spiegel, comentou:

“Os cientistas naturais estão trazendo uma transformação no quadro do que se
considera humano. A questão é até que ponto isso é simplesmente para ser
aceito, ou até que ponto há algo que se contraponha a isso. Para não serem
sobrecarregados com considerações filosóficas, os biólogos nos Estados
Unidos estão criando seus próprios filósofos: nos últimos 25 anos tem sido
desenvolvida uma disciplina em Bioética, cujo esforço explícito é fornecer
recomendações sobre como lidar com as novas tecnologias que vem surgindo
dos laboratórios de Biologia… Poucos tem notado que, com a introdução da
Bioética, a relação entre Ética e Ciência tem virado de cabeça pra baixo. A
Ética com raízes na Filosofia alemã começa com um entendimento da
natureza humana e deriva critérios de ação dela. É algo muito diferente da
Bioética vinda dos países anglófonos. Essa diferença é mais claramente
expressa pelo [físico britânico Edwards,] médico pai do primeiro bebe-de-
proveta, Louise Brown: “A Ética precisa acomodar a si própria à Ciência e
não o contrário”.8

Se Peter Sloterdijk foi ambivalente quanto ao futuro do controle genético que ele estava prevendo, a imprensa alemã foi ambivalente quanto ao fato de ele ter mencionado isso. É o trabalho, eles pareceram sentir, dos VERDADEIROS filósofos pensar sobre essas coisas e dizer o que deveria ser feito em relação a elas9. Nisso eles se auto distinguiram dos bioéticos, filósofos domesticados (ou bestializados), que são
simplesmente cúmplices morais, não prescritores morais10. O debate público, então, lança luz sobre a opinião pública a respeito da Bioética e do seu papel mais apropriado, considerada pelos diversos constituintes.

Não compartilho a opinião pobre da Spiegel sobre a “Bioética anglo-saxã”, nem considero que um grupo erudito, multidisciplinar e variado de profissionais atenciosos interessem a grupos de “filósofos de casa”. Porém, é importante para os bioéticos descobrir o que é a percepção pública para levá-la em consideração ao exercer seus variados papeis sociais.

VI. Conclusão

Peter Sloterdijk está certo quanto às possibilidades eugênicas inerentes à nova Genética. O debate público alemão está certo também, em minha opinião, na sua sensibilidade quanto aos danos possíveis que podem vir a acontecer. A voz da Alemanha é, então, útil nas deliberações agora em curso sobre o segundo dos dois códices antropológicos – as declarações internacionais de Bioética relacionadas à Genética. Precisamos de um contrapeso ao otimismo dirigido por interesses comerciais da indústria biotecnológica multinacional.

Mas ele está errado sobre o fim do Humanismo; ler continua uma arma no arsenal contra o barbarismo, e a criação não é menos perigosa, nem mais otimista, como um sucessor a ele. A batalha continua, movendo- se com a humanidade em novas áreas do conhecimento. Sua sugestão de que antropotecnologias são métodos apropriados para a autodomesticação é seriamente enganosa. Se (e enquanto) a engenharia genética se tornar uma possibilidade humana, não serei eu quem projetarei a mim mesma. Será o tecnocrático “nós” projetando o sujeito “eles”. A ênfase liberal no individualismo e no consenso informado como substitutos para a tomada de decisão individual não pode esconder esse fato, nem evitar o perigo. Outro alemão, Berthold Brecht, viu a diferença entre sujeito agente e paciente – localizou-a de modo claro, expressando amargamente no meio do século passado:

[…] Und wenn nur einer fresst, dann bin Ich es,
Und wenn einer wird gefressen, bist es Du!

* Mary V. Rorty é Clinical Associate Professor no Stanford University Medical Center e Fellow do
Stanford Center for Biomedical Ethics

** Vitor Ferreira Lima é pesquisador do Centro de Estudos em Filosofia Americana (CEFA) e estudante
de Filosofia da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ). E-mail:
lima.vitoor@hotmail.com.

Redescrições – Revista online do GT de Pragmatismo, ano V, nº 3, 2014 [p. 132 a 141]

Notas :

1 – Este paper é um comentário da autora a sua tradução para a língua inglesa da obra de Peter
Sloterdijk, “Rules for the Human Zoo: a response to the Letter on Humanism”, que consta em
Environment and Planning D: Society and Space 27(1), 12-28, 2009. Agradecemos a gentileza da
permissão cedida da autora para esta tradução. (N. T.)

2 – Peter Sloterdijk, Regeln fuer den Menschenpark, Die Zeit 38/99, reimpresso na Zeit-Hefte Der
Streit um den Menschen, p. 12. (tradução da autora)

3 – Ibidem, p. 14. (tradução da autora)

4 – Gen-Project Ubermensch: Hitler, Nietzsche, Dolly und der neue Philosophen-Streit. Der
Spiegel, 29/09/99.


5 – A comparação com a Times Magazine é injusta. Na verdade, a Spiegel é uma revista melhor e
mais informativa, embora escrita com um talento linguístico e inteligência que marcou a Times na sua
melhor época.


6 – Andrew Piper, Project Ubermensch: German Intelectuals Confront Genetic Engineering.
Lingua Franca, dezembro/janeiro, 2000.

7 – Isso tem mudado, em certa medida, nos últimos anos, e nós temos desenvolvido um relativo
conjunto de sofisticados jornalistas de ciência nos jornais dos EUA. Não apenas o NYTimes ou o
Washington Post, como também os jornalistas do San Jose Mercury News estão garimpando a Nature e o
New England Journal of Medicine para estórias de capa.

8 – Ver nota 5

9 – Filósofo político mais eminente da Alemanha, Jurgen Habermas publicou uma discussão sobre
engenharia genética que vai de encontro ao critério do Der Spiegel em Die Zunkunft der menschlichen
Natur: /Auf der Weg zu einer liberalen Eugenik? (/Suhrkamp Verlag, 2001). Este texto apareceu em
língua inglesa esta primavera como The Future of Human Nature. Cambridge: Polity Press, 2003

10 – Quando Arthur Caplan, bioético da Universidade da Pensilvânia, foi chamado em um
processo legal em nome de Jesse Gelsinger, alguns se perguntaram se o público também tinha, ou estava
começando a ter, expectativas semelhantes em relação aos filósofos nos EUA