Cuba se sairia melhor se fosse uma ideia, não uma ilha

O materialismo é uma tese crítica. Fora disso, faz pouco sentido. Ao menos para nós, modernos.

Isto é, se adotamos algum tipo de metafísica, podemos começar a partir da perspectiva da primeira pessoa, como Descartes. Partimos do nosso próprio pensamento, que nos é acessível de modo imediato, e daí deduzimos todo o resto. Temos aí um sistema totalizador. Nesse sistema nada há que não seja da ordem do pensamento ou do espírito.  O materialismo não pode fazer isso. Se partimos da matéria, assim fazemos segundo a perspectiva da terceira pessoa, do observador. Não estamos acessando algo que nos é imediato, estamos dando um salto do pensamento para o não-pensamento. Não podemos, nesse caso, a não ser de maneira dogmática, construir um sistema totalizante.

Assim, no âmbito filosófico, o materialismo só se põe como uma hipótese negativa. Sua autêntica legitimidade só existe como um desafio à metafísica idealista. Serve para que duvidemos da sua característica totalizadora. Serve para colocarmos uma pergunta do tipo:  por que temos que acreditar que tudo é formado a partir do espírito? Não podemos duvidar disso?

A filosofia política do materialismo, que Marx viu como sendo o socialismo, mutatis mutandis funciona segundo essa mesma regra. O socialismo parece ser legítimo não como um sistema completo, mas sim como tese crítica, como uma forma de vida que não sabemos bem como é, mas que serve para mostrarmos o descontentamento diante do capitalismo. O melhor socialismo é aquele que não é realizado, mas completamente vivo ao mostrar que a tese do livre mercado não é uma tese tão tranquila de se adotar, até porque o tal livre mercado mostra crises cíclicas. Algum tipo de planejamento sobre o mercado parece ser uma maneira de sugerir que este não é tão bom quanto ele próprio diz de si mesmo. Uma maneira de notar que o capitalismo vive gerando crises, e que certas soluções para suas crises estão  já no seu interior, é exatamente reconhecer que tais crises parecem reclamar por um planejamento social e econômico. O socialismo é menos um regime de governo e mais uma desconfiança quanto ao que a “mão invisível do mercado”, aquela lembrada por Smith, pode fazer.

Essa ideia foi defendida por mim em artigo no início dos anos noventa, quando veio o fim da URSS, o colapso do comunismo ou fim do “socialismo real”. Diante do está ocorrendo em Cuba, e que pode significar o fim do regime ditatorial lá, talvez tenhamos que recordar essa ideia. Muita coisa que se fez em Cuba é coisa boa, exatamente na medida em que eram negativas do modo de funcionamento do que se fazia, na mesma área, no capitalismo. Cuba foi e é instância interessante como instância de crítica, na prática, de políticas capitalistas setoriais. As áreas de saúde e de educação foram bem atendidas em Cuba. Mas, viver em Cuba, nunca foi algo interessante para os amantes da liberdade. Agora, nos protestos contra o regime cubano, há um grande contingente de pessoas que não reclamam só da miséria associada à covid, mas também das formas de cerceamento de liberdades individuais.

Se  aceitamos que materialismo e socialismo são teses negativas apenas, não vamos construir uma metafísica da matéria e nem vamos fazer a utopia socialista se realizar. Diante disso, vários filósofos de esquerda adotaram uma posição política de protesto para com o capitalismo, sem se preocupar em estirpá-lo, e passaram a dar indicações de apreço às políticas públicas de cerceamento do capital. Marx mostrou algumas vezes que essa ideia não lhe era estranha. Ele chegou a escrever que o comunismo nada era senão qualquer coisa que viesse após o capitalismo. Essa sua resposta poderia ser interpretada exatamente nesse sentido, de quem está sempre deixando em aberto a construção do socialismo, e que o mais importante seria ver como que do interior do capitalismo há desdobramentos que lhe são estranhos. O melhor para o socialismo seria, portanto, não ter nenhuma sociedade socialista instaurada a partir de um plano socialista.

Não é o caso de Cuba. Nessa ilha o socialismo se realizou e, ao realizar-se, gerou um contingente grande de pessoas que, agora, estão realmente descontentes. Muitos desistiram de defender algo chamado de “socialismo” sem que esse nome lhes desse algo de bom: comida, fim da covid, liberdades e esperança de um horizonte de vida não-medíocre.

Muitas pessoas em Cuba, hoje, não suportam mais a fala dos governantes, que joga toda a culpa de insucessos da Ilha no embargo americano. Cansaram dessa ladainha. Pois a ilha já viveu dias em que, mesmo existindo o bloqueio econômica, as coisas não ficaram tão ruins como agora. Essa percepção é que está vigente agora, e ela será o elemento decisivo para o futuro próximo de Cuba.

Paulo Ghiraldelli, 63, filósofo, professor e escritor

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