Banksy e a “gaiola de aço” (Weber) do capitalismo

Publicado no blog antigo dia 20 de outubro de 2021

Quando do fim da URSS, Richard Rorty escreveu que ele tinha ainda críticas ao capitalismo, mas que não viessem lhe perguntar o que colocar no lugar, pois ele não saberia responder. Ele não via nenhum horizonte capaz de ser anunciado de modo a conseguir uma melhor distribuição de bens, inclusive culturais, para além da forma de distribuição da sociedade de mercado. Teria Rorty abandonado uma das funções da filosofia, que é pensar sem abrir mão de utopias? Rorty refez a noção de utopia aderindo à fórmula que implicava em solicitar da sociedade futura que pudéssemos nos transformar em “versões melhores de nós mesmos”.

Recentemente, Peter Sloterdijk deu novo impulso aos meus amores filosóficos pela utopia, ao falar de uma sociedade do “dinheiro inteligente”, a sociedade do “fisco voluntário”. Ao invés da felicidade social-democrata, causadora do tédio e da acomodação, e muito além do conformismo do privatismo neoliberal, Sloterdijk defendeu uma sociedade capaz de escolher ter orgulho de manter iniciativas em função de objetivos nobres. Uma sociedade assim descarregaria suas “energias timóticas” na guarda, manutenção e criação de bens culturais e bens de serviço segundo uma ótica da generosidade, não do dinheiro. Uma economia da doação, da dádiva, teria de contar como um elemento central de quem quisesse refazer utopias.

Entre a negação de Rorty de delimitar uma utopia e o feito escorregadio de Sloterdijk, de falar de uma utopia em um sentido forte da palavra, pois de fato temos dificuldade de imaginar uma sociedade só baseada na generosidade e no orgulho de guardiões, não conseguimos uma fórmula intermediária? O que nos tem feito não conseguir mais sonhar para além dos horizontes que temos?

A dificuldade de nossa época em criar novidades reais no horizonte se deve ao fato de estarmos, pela primeira vez na história da humanidade (contando aí também a pré-história), diante de uma maneira de organizar nossas vidas que nos dá a impressão de uma capacidade inaudita de absorção. Seja como “sociedade de mercado”, “sociedade do consumo”, “sociedade de consumo de massa” ou “sociedade do espetáculo”, o nosso mundo parece não permitir que sonhemos com qualquer coisa que não seja a fusão/continuação dessas fórmulas. Por mais criativo que seja o pensamento e a tarefa humana, terminamos no ponto de partida – ou quase isso. Nada escapa à forma mercadoria e seus correlatos.

O exemplo mais recente a respeito disso é o ocorrido no leilão do quadro de Banksy, “Menina com balão”. O quadro foi arrematado por cinco milhões de reais. Batido  o martelo do leiloeiro, o quadro se autodestruiu, ao menos pela metade, diante de todos presentes. O espanto foi geral. Todos pensaram, então, que Banksy havia dado um golpe no mercado, no leiloeiro e na capitalista rica (anônima) que o arrematou. O valor se perdeu, o dinheiro se esvaiu e Banksy, inapreensível como pessoa, teria dado o recado: minha obra também é inapreensível. A obra teria imitado o autor. Nada mais subversivo! Mas ocorre que alguns segundos depois, a enhora que comprou o quadro mandou avisar que ela ficaria com o resto dele, isto é, com a gravura quase toda picotada. Afinal, após o ocorrido, o quadro real não seria mais só o de Banksy, pintado, posto na parede, mas todo o episódio – passado em todas as redes de TV do mundo – é que comporiam a obra, ou a nova obra produzida ali, ao vivo. A obra de alguém que, até então, era famosíssimo, e que pelo episódio saiu mais famoso, mais valioso e, enfim, deixando para o mercado uma obra picada mais valiosa do que quando estava intacta. Nada escapa ao mercado. Nada sai do controle da forma mercadoria.

Talvez o recado de Banksy não tenha sido “o mercado não pega minha obra, como os policiais não me pegam por eu pichar Londres”, mas sim, “eu tenho consciência que na minha liberdade esto preso”. Preso, ao menos pelos tempos, pela “época”, pelo modo como nos enredamos na vida e a organizamos. Um manifesto de Banksy, uma confissão. Algo nada diferente da confissão de Rorty, e da disposição de Sloterdijk. Se há uma utopia, não a posso colocar, nada sei fazer fora do mercado. Se há uma utopia, o máximo que faço é continuar minha generosidade: um quadro de Banksy, alguém quer tê-lo em sua sala? Ora, mas é desnecessário. Banksy é, no fundo, um pichador: suas obras estão espalhadas gratuitamente pela cidade. Fora o que Rorty e Sloterdijk disseram, nada a dizer. E isso é o que estaria dizendo Banksy?

Talvez, em certo sentido. Ou sua intenção tenha sido a de mostrar-se preso à sociedade de mercado mesmo em um ato de afirmação da liberdade, e, sendo assim, Banksy nada tenha dito (e nada querido dizer) senão isto: o máximo que posso fazer para afrontar o mercado é lembrar que todos já têm minha obra sem precisar comprá-la, pois ela está nos muros por aí afora. Todos habitantes da cidade a possuem. Um leilão é uma situação ridícula – seria esta a mensagem de Banksy? Creio que faz sentido pensar isso. Mas creio que isso ainda não é um poder pensar fora dos parâmetros postos para além da forma mercadoria.

Paulo Ghiraldelli Jr., 61, filósofo.