Jean Wyllys e Eduardo Leite entram em dança de acasalamento

O relativismo não existe. A ideia de que alguém considera tudo relativo e, então, equivalente, nunca foi aceita pelos humanos. Hegel insistiu nisso, lembrando que o homem é o animal que joga até com a vida para ter reconhecimento. Assim o faz, na defesa do que entende que sejam os seus valores.

A crença de que vivemos no “vale tudo” ou no “vale nada” talvez venha, como se pode tirar dos ensinamentos de Marx, do império do dinheiro, essa peça que cria abstrações para fora da mente, abstrações reais que impõe a todos a prática da vida regrada por uma equação universal. Tudo que está de um lado da equação é igual ao outro lado. Eis a definição de equação! Se a prática da socidedade capitalista monetarizada é essa, pode ser que não tenhamos como não acreditar que o relativismo e o equivalentismo regem nossa vida. Todavia, passamos o dia todo em luta contra essa prática do império do tautológico, escolhendo valores e tentando nos diferenciar. Nosso anticapitalismo nos é inerente tanto quanto nossa aderência ao capitalismo.

Notando tudo isso com a atenção, estamos aptos a ver que aqueles que falam que o identitarismo é uma prática relativista, não analisaram as coisas corretamente. O identitarismo deriva de luta de minorias, mas faz tempo que deslizou para tudo aquilo que é antidemocrático e que nada mais tem a ver com comunidades minoritárias legítimas. O identitarismo é o culto da identidade, do idem, do igual, do imiscuir-se nas entranhas do absoluto para reclamar primazias e, não raro, cultivar a imposição pouco racional, às vezes meramente narcísicas. Do identitarismo veio o nacionalismo, a xenofobia, os fascismos. Depois, tal espírito abocanhou parte da esquerda, com a absolutização de “orgulhos” que abandonaram a dialética do eu e do outro, que abandonaram os duplos que somos, e assim fazendo geraram posições dogmáticas e neofascistas. Grupos identitários não compreenderam a necessidade do Outro, o seu negador, e passaram a se colocar democráticos por conta de uma pseudo-democrática convivência com os outros. Os outros não são o Outro – essa é uma lição que está claro em Buyng Chul Han e que mais pertinente ainda verificamos nas denúncias de Sloterdijk. Não tardou para que os grupos aparecessem na figura de pessoas individualizadas: eu sou negro e venci, eu sou homossexual e venci. Assim, o neoliberalismo incorporou o identitarismo. O identitarismo neofascista é, em certas horas, neoliberal! Para se dizer democrático, quando interessa, faz isso mesmo!

Quando Sócrates discutiu com seu discípulo e amigo as razões pelas quais não iria fugir da prisão, chamou a atenção para as Leis da cidade. Nesse diálogo, o Críton, Sócrates põe as Leis da Cidade como o Outro. Elas negam a liberdade de Sócrates naquele momento, elas põem Sócrates diante do “conhece-te a ti mesmo”, uma vez que agora vinham cerceá-lo, mas durante muito tempo, o protegeram e lhe deram condições de prosperar. Isso o próprio Sócrates ensina a Críton, na prisão. Sem as leis da cidade Sócrates não teria aprovação ou rejeição, não seria alguém, não poderia formar-se cidadão ou mesmo homem como ser reflexivo. Alguém que reflete, assim o faz se e somente se tem a oposição de seu Outro, o negador que precisa ser incorporado. Essa lição poderia ser aprendida na esquerda, mas o identitarismo que parte da esquerda aprendeu foi outra coisa, sem dialética, e hoje se esfacela em cobranças neofascistas ou em propaganda neoliberal.

As questões de desigualdade social no Brasil são necessariamente questões que devem incorporar pautas vindas de minorias. Pobre e preto no Brasil é quase sinônimo. Mas as pautas identitárias não são isso, elas são enganos que surgem no reino do não diálogo, da não dialética. Elas desconhecem a maioria como lhe sendo útil, elas desconhecem o papel das Leis da Cidade. O papel das leis é o papel do universal que nega o particular, e que obriga do particular a se recompor e tentar fazer as leis da cidade também observar o que é reclamado como direito. Os direitos pedidos são os da própria reflexão, o direito de refletir e o direito de criar direitos.

Todo esse caminho, desvirtuado pelos identitários, começa a se fazer mais claro. As falas de Jean Wyllys contra o governador Eduardo Leite, e o levantar das claques de ambos no Twitter, mostram não apenas que poderíamos falar em mesa de bar: “em briga de marido e mulher não se mete a colher” ou então “eles que são bichas que se entendam” etc. Mas o ocorrido mostra outra coisa: o esfacelamento do identitarismo, sua ilegitimidade. Aos poucos voltamos a perceber que ser gay ou negro ou mulher etc., não nos dá nenhum direito senão o de considerar o Outro como sendo as Leis da Cidade, e não os indivíduos outros. Uma disputa de Jean Wyllys contra Eduardo Leite para saber quem é o gay que defende o estandarte gay é uma disputa vazia, que empolga o Twitter porque este é frequentado pela Janaína Paschoal, a doida da direita. Fora isso, é uma disputa sem sentido.

Quem nega os gays (ou tenta afirmá-los, por contas de incorporar reivindicações) são as Leis da Cidade. Elas são a instância universal que na luta com o particular se afirma legítima ao mesmo tempo que fomenta o particular no sentido de fazê-lo buscar direitos e criar direitos. Eduardo Leite e Jean Wyllys não sabem disso, e então batem boca no sentido de uma “consciência gay” individualizada, que seria representada por um ou por outro. Consciência negra, consciência gay, consciência feminista etc., são formas que podem emergir não para trazer benefícios à cidade e ao indivíduo, mas para fazer parte da democracia meramente representativa. Nesse caso, criam vanguardas que logo acabam se localizando em indivíduos, em “secretários gerais”, tanto quanto já ocorreu (em outro nível, é claro) com o “proletariado”, que foi representado pela “vanguarda operária” e depois por “grandes timoneiros”.

A disputa entre Leite e Wyllys deixa claro que se trata de um tipo de dança de acasalamento neoliberal e neofascista em clima bolsonaresco. Vivemos o momento da pós-verdade, em que valores se afirmam por número aplausos em redes sociais que, enfim, são facilmente comprados em sites que bombam canais supostamente de “influencers”. Gente que pensa que influencia algo! A dança de hoje é essa, mas amanhã teremos de volta o negro rascista-fascista da Fundação Palmares, o menino do MBL que é “gay não-praticante”, a feminista Janaína que luta contra direitos das mulheres, a religiosíssima Damares que defende crianças, índios e mulheres de um modo que agradaria Hitler. Essas participações mostram que direitos de minorias, quando representados por pautas identitárias, perdem qualquer conexão com a construção de uma sociedade futura em que possamos nos apresentar como versões melhores de nós mesmos.

Paulo Ghiraldelli, 63, professor, filósofo e escritor