O problema do relativismo resolvido

“Deus está morto”. Essa é a frase que ecoa da filosofia de Nietzsche. Mas ela não é de Nietzsche, e sim de um seu personagem. O seu personagem anuncia em termos populares e religiosos um ponto de chegada da filosofia: não há uma referência absoluta para o real e para o bem! Os valores absolutos não estão mais obtendo crédito. As pessoas não estão menos dispostas ao que é imutável e perene. No plano filosófico, o positivismo teria colocado a metafísica para correr, e no plano religioso Deus teria perdido seus crentes.

Se isso não havia ocorrido para todos, aos menos para as elites bem escolarizadas esta era a nova condição, e foi isso que o personagem de Nietzsche notou e anunciou. Ele fez esse anúncio, inclusive ou principalmente, para as próprias elites, que iriam então se reconhecer nessa situação (a situação da filosofia como expressão da cultura é algo da educação das elites, claro). Para o mal ou para bem, elas se reconheceram nisso.

A partir dessa desrreferencialização, uma série de outras semelhantes foram preenchendo o século XX. A poesia simbolista esgarçou a linguagem, tornando-a claramente menos referencial. A democracia esgarçou o poder, colocando-no no “povo”, e com isso lhe deu um caráter fluído. (O movimento populista e demagógico do fascismo foi apenas um interregno nisso tudo). Também as noções do que é a obra de arte colapsaram e tiveram de adotar certo relativismo. E toda a conversa sobre Duchamp até Danto está nesse diapasão. A beleza da mulher passou pelo mesmo drama: por mais que se viesse a falar de “padrões da mídia”, a beleza perdeu o padrão. Hollyhood testemunhou e a Playboy fez a historiogradia das musas que prencheram o século XX. Os narizes das atrizes mostram bem isso hoje em dia. Depois, nos anos cinquenta apareceu o grande Quine, o filósofo que mostrou a necessária desrreferencialização da linguagem, pondo abaixo a teoria verificacionista do significado defendida pelos positivistas lógicos, movimento que culminou com Davidson e Rorty no final do século XX. Thomas Kuhn fez algo parecido na história da ciência. Nos anos setenta, todos viram e sentiram a verdadeira entrada nossa na globalização com a desrreferencialização do dólar, obra do presidente Nixon. O padrão-ouro desapareceu e entramos no mundo do dólar ligado ao câmbio flutuante.

Marx havia anunciado algo semelhante, que ocorreu no tempo dele em termos de vida social e costumes políticos. No Manifesto comunista, ele escreveu sobre as revoluções burguesas e sobre o capitalismo: “tudop que é sólido desmancha no ar”. Uma das mais belas frases da literatura social de todos os tempos. Mas mesmo Marx, um visionário do mudancismo, jamais acreditou no fim do padrão ouro. Deus iria desaparecer, mas não a fixidez do dinheiro. Marx se enganou.

A época da pós-verdade, com todos aplaudindo o que é já é aplaudido, é o cume dessa situação, mas efetivamente como deterioração moral e intelectual (inclusive pelo gado-digital-chinês, como fazem os financiadores dos canais bolsonaristas e da esquerda capa preta). E essa deterioração não pode ser tomada como o elemento para se condenar a desrreferencialização sem qualquer análise. A desrreferencialização é alguma coisa que temos de saber de lidar com ela, não a condenar por conta de facetas banalizadas com a qual é absorvida pelo senso comum.

Talvez esses, os passos da desrreferencialização, tenham sido os passos decisivos para que o homem comum, sabendo disso tudo pelo que lhe chega atabalhoadamente, pudesse dizer: “enfim, tudo é relativo”. O homem comum entendeu finalmente as morte de Deus. Mas essa frase “tudo é relativo”, na mão do homem comum, não raro não o ajuda em nada. Não o tira de absolutismos que lhe entram pelos poros. Absolutismos mágicos, como os das Igrejas caça-níqueis, absolutismos de identidade, como nos identarismo que levam ao neofascismo (na falta de dialética, a identidade de minoria se absolutiza e não percebe que ela depende da maioria para ter direitos), são os que nos aprisionam de modo a nos fazer duvidar do império do relativismo.

É claro que muitos ainda dizem que “contra fatos não há argumentos”. Muitos encontram nessa palavra “fato” o novo porto seguro. O porto seguro de um positivismo desgastado, que recolocou uma metafísica meio caduca, cientificista, exatamente no lugar onde não caberia nenhum absoluto. Mas essa é uma frase só correta pela metade, e no geral é inculta. Nietzsche havia dito que o que temos sempre são interpretações. E os filósofos da linguagem mostraram que a noção de “fato” não explica nada. Pois quando digo que um enunciado é verdadeiro, estou definindo tal enunciado como correspondendo a um fato, mas, se em seguida, pergunto o que é um fato, acabo por dizer que ele é o resultado que tomo conhecimento por meio de um enunciado que corresponde a um fato. Caio em um círculo. E isso mostra que a noção de verdade como correspondência com o real tem pés de barro e que a noção de fato me engana.

Tudo isso é filosofia. O senso comum precisa dizer, junto com a filosofia, então, que ele está perdido e não consegue julgar mais nada porque perdeu todas as referências? Entramos para o relativismo banal? Ora, o relativismo banal não existe. Pois ele diz que tudo é equivalente? Nós agimos como sendo tudo equivalente? Claro que não! Nunca agimos assim. Nós temos preferências e chegamos a morrer por elas! Mas, em planos menos dramáticos, às vezes falamos de relativismo, e nem sempre falamos corretamente sobre esse assunto. Acusar um filósofo de relativista é saber pouco sobre ele e sobre a própria filosofia. Explico abaixo.

Muitos educadores acreditaram, quando ouviram falar que a pós-modernidade era a entrada do relativismo máximo, que eles não podiam mais corrigir os alunos: todos teriam uma posição válida! Meninas feministas não podiam mais ser corrigidas por erros gramaticais, pois o professor, um macho, estava desrespeitando o lugar de fala delas. Os empresários da indústria cultural começaram a dizer que toda e qualquer expressão artística, como um clássico, tinha o mesmo valor de expressões artísticas que são capazes de “vender bem”. Todas essas pessoas se esqueceram (ou melhor, nunca souberam ao certo) que a derrota do referencialismo, que a filosofia anuncia bem, não nos leva a uma posição tola como a de quem não pode fixar metas para serem atingidas, ou fixar valores a serem obedecidos, ou fixar gabaritos que podem ser conferidos. O Firmamento no Céu pode pode nos mostrar estrelas que não são mais firmes, mas nenhum navegador precisa saber disso para fazer sua barca se guiar pelo Cruzeiro do Sul se ele está em águas do sul.

As referências absolutas podem cair em descrédito, mas isso não nos faz parar de fixar referências móveis, acordadas no tempo, referências convencionais, que se baseiam também elas na atividade filosófica. Isso se a filosofia é tomada, como eu a tomo, como “a arte de dar e fornecer razões”. Posso achar um nariz adunco sexy em uma artista e dizer dele algo como “que belo nariz”, me indispondo ao que disseram outros nos anos cinquenta. E garanto que eu não ficaria apenas nessa frase “é um belo nariz, sexy”, eu saberia dar razões. Minha condição de filósofo me treinou para isso. Sei dar e requisitar razões. A filosofia não é uma chave de final de conversação, mas de contínua conversação. Isso foi o que nos ensinou Sócrates. Seus diálogos nunca tinham fim.

Pessoas que denunciaram os bolsonaristas por eles relativizarem a ciência estão errados. Mas podem estar certos. Estão errados quando colocam a ciência no pedestal da higiene, despolitizada, com pretensão de neutralidade; mas estão certos quando dizem que a ciência, ela própria, tem condições de criar objetividade a partir de sua explicitação de procedimentos. Posso fixar métodos, procedimentos, resultados desejados etc. E tendo fixado isso, posso ter parâmetros objetivos possíveis de serem checados pelo olho humano, em especial o olho treinado para tal, ainda que o Olho do Deus (a perspectiva do Lugar Nenhum) não esteja mais presente. Isso faz o relativismo se tornar racional (e que até possamos usar o termo “relativismo”), sem que isso signifique que a ciência é neutra e veio ocupar o lugar de Deus.

Paulo Ghiraldelli, 63, filósofo

Foto de capa: CARRIE BRADSHAW e seu nariz não condizente com o que seria o padrão artístico, se houvesse um padrão da mídia, como querem os que teimam em falar de padrões