Vera Magalhães e o exercício do jornalismo ideológico

Marx escreveu que a história se repete. Acrescenta que na segunda vez, ocorre como farsa. Essa frase faz de pessoas de esquerda que leem Marx sem inteligência, a adotá-la como dogma metodológico. Não há método algum nisso. O texto histórico O dezoito Brumário de Luis Bonaparte, em que a frase aparece, não é da ordem investigativa de O Capital, é um texto em que as incursões literárias são determinadas por outra dinâmica. A frase é nitidamente retórica, não indica nenhum método a ser seguido para o entendimento da história em geral. Marx não acreditava nessa frase como uma heurística para sua historiografia.

Não vou culpar os marxistas sem inteligência por esse tipo de procedimento ter sido imitado por muitos, e tomado como frase metodológica. Creio que procedimento errado, de subsumir a história sempre a uma história anterior, foi divulgado por professores de história vindos de variadas fontes. Até por uma razão simples: a concepção da história cíclica dominou a antiguidade e, na modernidade, foi adotada pelos nazistas. No Brasil, o erro mais crasso que noto vem de jornalistas e militantes de esquerda quando teimosamente assimilam a história do Brasil republicano à fase da ditadura militar. Tudo é motivo para reescrever a história e assimilar fatos futuros e passados como que uma repetição de eventos do período 1964-1985. Isso cansa! É algo burro, chato.

O que vi a Vera Magalhães fazer hoje no jornal O Globo poderia ser tomado como um exemplo desse erro de subsunção do presente ao passado. Poucas horas antes da ida dos irmãos Miranda à CPI, ela tentou avaliar o que ocorreria. Ao fazer isso, ela simplesmente lançou mão de uma comparação termo a termo. O que ocorreria na CPI foi explicado por ela a partir da ideia de que se estava a reproduzir, no governo Bolsonaro, o que havia ocorrido no governo Lula, com o episódio Duda Mendonça. Assim, eis o erro metodológico: nada ocorre sob o céu, tudo é apenas algo que pode ser comparado (em no limite assimilado) a algo no passado.

Mas, no caso em questão, penso que a Vera Magalhães não cometeu um erro metodológico, ou um erro em acreditar que essa comparação está em função de algum método. Tudo indica que ela escorregou por um assoalho encerado demais. Na verdade, ao invocar Lula e Duda Mendonça ela apenas fez o que sua posição política ordenou, consciente ou inconscientemente. Insisto aqui no consciente e inconscientemente, pois o autoengano não é uma matéria a ser completamente separada das teorias de autoengano.

Ela quer de fato comparar Lula a Bolsonaro. Ela quer assimilar os tais “extremos”. Pois ela pertence a um campo político que eu tenho qualificado como o da ditadura do centro. É a posição que advoga que só o centro possui um discurso racional e só ele ajuda o país, o resto é loucura. Os extremos não ajudam o país, é isso que dizem os que reiteram um tipo de senso comum que é o de Vera Magalhães. Essa ideia é um erro em si. Que a extrema direita tenha claro apreço pelo irracionalismo, isso qualquer iniciante em filosofia sabe. Mas isso não é verdade para nenhuma das tendências radicais na esquerda. Aliás, essa defesa do centro não raro se mostra uma postura antidemocrática, e acabou conduzindo Vera Magalhães à teia ideológica.

O texto jornalístico nasceu político e sempre é político. Mas há uma maneira de um texto ser político sem que ele se ponha no campo ideológico com intuitos escusos. O texto da Vera é capcioso: ele faz o leitor pouco educado em filosofia política acreditar, terminado as coleta de depoimentos do irmãos Miranda, a ver tudo aquilo como um evento a mais da política, algo que no governo Lula já seria o comum. Com isso, a característica do novo governo, que nada tem a ver com o que Lula fez, aparece como expressão de corrupção própria do modus operandi do governo Lula. O governo Lula é assimilado a um governo que é chamado por genocida. É difícil achar que Vera construiu um bom texto jornalístico com esse procedimento. Ela deu um exemplo, sim, mas um exemplo do que não se deve fazer.

O governo Lula teve suas atuações reprováveis por ele mesmo, e não pelo que a Vera disse. Pareceu-me que seu texto foi forçadamente construído no dia em que Lula apareceu nas pesquisas como derrotando todos os adversários em 2022. Talvez ela, inconscientemente, tenha sido atropelada pelo seu daimon centrista!

É preciso ficar atento para esse tipo de jornalismo. E quero crer que a própria Vera deveria ficar atenta a ela mesma, se quiser melhorar o seu texto, o seu modo de ser jornalista.

Paulo Ghiraldelli, 63, filósofo