A deserotização entre filosofia da linguagem e filosofia política

Somos naturalmente iguais ou diferentes? Um post comum no Facebook, até uns tempos atrás, trazia várias pessoas com características fenotípicas bem diferentes, demonstrando etnias variadas, mas todos elas apresentando no seu interior, por “raio X”, o mesmo esqueleto. A ideia básica do post era o combate ao racismo. O autor do post imaginou que estava dizendo algo interessante para liberais e para pessoas de esquerda.

Se nossas diferenças são só de pele, de cor de pele, deveríamos construir uma sociedade de iguais, exatamente para seguir o curso da própria natureza. Essa é a conclusão para a qual o post encaminha. O século XVIII fez de tudo para que essa ideia vingasse, a da igualdade natural, associada à necessidade política de criar uma sociedade mais justa.

No século XIX, ao final, Nietzsche acusou até os físicos de promoverem essa ideia que ele considerava tola: “igualdade perante a natureza”. As leis de Newton, que descrevem uma regularidade na natureza, deveriam ser trocadas por uma cosmologia da desigualdade e da hierarquia. Os físicos teriam apenas imitado os burgueses e proletários que realizaram a Revolução Francesa – os homens modernos – no sentido de fazer da física uma mentira, uma vez que a igualdade natural seria apenas ideologia política dos “fracos” contra os “fortes”.

Depois de Nietzsche nenhum bom filósofo que defendeu a justiça social o fez no sentido de pedir que a igualdade de direito viesse por conta de uma suposta igualdade de fato, baseada na igualdade natural. A cosmologia de Nietzsche não derrubou Newton, mas a ideologia da igualdade natural se tornou menos importante. Sendo iguais ou não a partir da “natureza”, isso passou a importar menos. As esquerdas passaram a atuar no sentido de querer igualdade social, sem buscar fundamentos para tal. Os pensadores não fundacionistas disseram que a igualdade (e a democracia sua promotora) era um valor em si, e de um ponto de vista utilitário seriam regimes melhores que os regimes baseados em hierarquias do sangue e do dinheiro. E isso era o bastante. Uma sociedade justa funcionaria melhor que uma sociedade hierarquizada e injusta.

Foi então que as pesquisas sobre nós mesmos, do ponto de vista do que somos “naturalmente”, e as incursões da filosofia política, se separaram. No campo da filosofia da linguagem, a questão de se todos nós, bípedes sem penas de unhas chatas, temos uma estrutura de linguagem original e única, e que temos mais coisas em comum do que pensávamos, deixou de ser um alimento para propostas políticas.

A filosofia da linguagem – com Chomsky à frente – desenvolveu a ideia, barateada por Steven Pinker, segundo a qual todos nasceríamos com uma línguagem, algo como um “mentalês”, uma linguagem falada pela mente. A linguagem que falamos, então, seria obtida por uma troca entre o “mentalês” e o português ou inglês ou chinês etc. Essa tese nunca foi aceita por seguidores do filósofo Wittgenstein ou por leitores de Donald Davidson. Essas disputas ficaram no campo específico da filosofia da mente e filosofia da linguagem. Não raro, por meio de outros jargões, alimentaram o mundo da psicologia e afins.

Creio que o melhor caminho para se pensar essa questão seja lembrar que a passagem entre o suposto não-línguístico e o linguístico, ou entre o “mentalês” e qualquer outra língua, seja o de lembrar que nossa capacidade simbólica não poderia nascer sem nossa sinestesia. Surdos dançam por vibrações nos pés. Adultos sorriem ao conseguir escutar pela primeira vez, quando podem deixar de serem surdos por operações e aparelhos, como que em um encontro decidido entre as experiências corporais, inscrustradas desde o útero, e então a concentração de poder no aparelho auditivo. Peter Sloterdijk construiu toda uma filosofia do nascimento levando em consideração não só essas questões da ordem científica, mas uma série de experimentos filosóficos imaginários e toda uma narrativa em antropologia fantástica (ou seja, fantástica no sentido de fantasia, ficção etc.). Ele deixou de lado a disputa entre “mentalês” e “não-mentalês”.

Peter Sloterdijk trouxe o conceito da importância da mãe e do útero para a filosofia. Ao lê-lo, tive de ceder e criar uma expressão, uma definição dessas do tipo que nos acompanham desde Aristóteles: o homem é o animal que tem mãe. Isto é, o homem não tem só progenitora, mas mãe. Ela é responsável pelos sons da Boa Nova, o Evangelho, que faz com que o bebê, mesmo antes de nascer, não caia em um buraco sem fundo. Sem isso, o niilismo seria mais do que uma fase histórica, segundo Nietzsche, mas a porta aberta para uma humanidade inviabilizada.

Podemos, então, com Peter Sloterdijk, voltar a unir filosofia política e filosofia da linguagem? Sim, mas união sem espelhos. Todavia, Sloterdijk desenvolve seu texto para encontrar algo que pertence ao campo de aposta da esquerda: a solidariedade. Seus textos querem responder exatamente a essa pergunta, cara à esquerda: de onde vem a solidariedade?

Na atual conjuntura, em que desconfiamos que pelo encontro homem-máquina-capitalismofinanceiro nossos corpos perdem a importância que tinham, e que há já, como Franco Berardi denuncia, mais crianças aprendendo a linguagem por meio de máquina e não pela mãe, podemos começar a pensar em uma humanidade que não reconhecerá mais seus antepassados, e isso dentro de pouco tempo. Perdida a sinestesia inicial e a confiança ontológica, que só a mãe pode dar, seremos que tipo de seres? Não sabemos. O que sabemos é que, para gente como Berardi, podemos estar caminhando para uma impossibilidade de solidariedade, de erotizaçao, de desejo político por transformação. (1)

Paulo Ghiraldelli, 63, filósofo

(1) Continue o assunto no livro Semiocapitalismo, do CEFA Editorial