A candidatura Glauber Braga no PSOL

Não sou filiado a partidos e nem tenho intenção de entrar em qualquer agremiação desse tipo. Mas participei da plenária do PSOL voltada para a pré-candidatura do deputado Glauber Braga à presidência da República. Até me deram voz! Falei algumas palavras de felicitação ao grupo. Desde 1974 não fazia isso. Fui da juventude do MDB. Se eu fosse jovem hoje, certamente não entraria em algo chamado “juventude X”, nem que me pagassem muito. “Juventude” é algo que deveria cair em desuso, tem um cheiro de fascismo incrível.

Não sou um eleitor exclusivo do PSOL. Já votei em deputados do PSOL, em candidatos a governo do meu estado e também marquei o PSOL para o senado. É um partido necessário. Sem o PSOL no tabuleiro político-eleitoral fica difícil dizer que temos uma democracia no Brasil.

Apesar dos membros PSOL que escutei ali na plenária, não raro, se tratarem de “camaradas”, os cacoetes de uma esquerda caduca não estiveram presentes. Só um convidado falou que Bolsonaro quer dar um golpe. Seria preciso corrigir o moço, lembrá-lo que golpe quem dá é quem não está no poder ou está ameçado de perder hegemonia, e Bolsonaro está no poder e tem apoio de classes que não precisam dar golpe e nem querem isso. Vale lembrar, também, que Bolsonaro não é militar como ele diz ser. Ele não tem disciplina alguma. Ele é um bonachão preguiçoso e desorganizado, um vagabundo que nunca trabalhou e nem consegue trabalhar. Um governo ditatorial de Bolsonaro é impossível, pois ele só sabe transferir responsabilidades e quebrar regras que ele mesmo coloca. Já expliquei mil vezes isso tudo, com mais detalhes, em vídeos e livros (vejam não só o A filosofia explica Bolsonaro, mas também o A democracia do Bolsonaro)

Outro tema que não vi surgir foi o da idolatria de ditaduras. Já vi muito membro do PSOL fazendo elogios a Fidel Castro, coisa que desta vez não apareceu. Menos mal. Vi Glauber citar Mariguella. Mas me pareceu apenas algo da sobra do folclore que permeia partidos de esquerda. Seguir rumos revolucionários não deve implicar em necessariamente seguir caminhos de luta armada a partir de orientação de militares. A militarização da esquerda no Brasil, no passado, nunca levou comunista algum ao poder, mas sim para a cadeia. Não caberia projeto desse tipo em um Brasil complexo como o de hoje.

Que eu me lembre, na plenária, ninguém ficou falando “galere” e “companheire” ou qualquer coisa meio esdrúxula, coisa de identitário. Identitário não defende minoria, apenas defende o que é identidade, o igual, o mesmo. Em geral, vai do neoliberalismo para o fascismo. Privilegia sua identidade, o inferno do igual, e não consegue entender que a reflexão nasce da presença do negador, o Outro (um tema caro a Byung-Chul Han). Não consegue perceber que sem a maioria não há a minoria. O identitarismo faz do “idem” o rei, e torna um grupo um tanto que desejoso de poderes absolutos. Nada afasta mais a população de votar na esquerda que esses grupos – cirandeiros (os que ficam dando volta em torno de si mesmos, na ciranda) e identitários. O brasileiro considera as intervenções desses grupos como autoritário e pedante. Onde há identitário todas as outras frentes de luta ficam arrefecidas. O identitário é capaz de ficar o dia todo discutindo o caso de um negro ou índio ou mulher no BBB. Túlio Gadelha faz isso, mas felizmente ele não é do PSOL, é do PDT. E se descuidar ele invoca com alguém de turbante, para dizer que foi “apropriação cultural”.

Também não escutei ninguém retomando o tema do imperialismo e culpando os Estados Unidos por tudo. Isso também foi salutar. Há escritos demais hoje em dia que mostram que não temos mais imperialismo no sentido que tínhamos até, digamos, o final do século XX, e que podemos usar o conceito de Império (Toni Negri à frente) para descrevermos o mundo hoje globalizado, financeirizado e comandado por transnacionais. As disputas entre nações importam bem menos. Não devemos nos enganar com guerras, que continuarão! Elas também são antes frutos de corporações que lidam com armas que qualquer outra coisa.

Louvo também uma moça que falou sobre energia limpa, e que ridicularizou a busca do PT em ficar falando de petróleo, pré-sal etc. Quem acha que petrobrás vai ser tomada pelos Estados Unidos não entendeu nada de nada. O petróleo já não é mais a menina dos olhos do capitalismo internacional.

Dito tudo isso, avaliamos que o saldo do evento da plenária foi positivo, sem dúvida. Todas as bandeiras que um dia foram de parte do MDB, depois do PT, foram retomadas. Da desprivatização até a Reforma Agrária passando pelos Direitos Humanos. E todos lembraram que a plenária havia se imposto a eles como uma necessidade de salvar o PSOL de seu desaparecimento. É que Lula e o PT continuam atuando na esquerda na mesma toada do que fizeram com Ciro Gomes. Jogam cantos de sereia. Querem que o PSOL seja o “puxadinho do PT”, como se o PSOL não tivesse nascido como nasceu.

O PSOL nasceu por uma dissidência interna do PT. Um grupo de petistas passou a votar, no âmbito da Câmara dos Deputados, contra a orientação dada pela direção do partido, exatamente por discordarem da reforma da previdência do governo Lula. O neoliberalismo mitigado do governo Lula tentou continuar o projeto de FHC, ao menos nesse quesito. Os deputados que votaram contra foram expulsos do PT, e criaram a nova legenda. Foi nessa nova legenda que abriguei meu voto, para deputado estadual, na figura expressiva, inteligente e honestíssima de Carlos Giannazi. Nunca me decepcionei com ele. Para falar a verdade, no âmbito federal, seria loucura dizer alguma palavra de desabono aos deputados do PSOL.

Hoje em dia há pessoas no PSOL que não querem lembrar da origem do PSOL. Querem ganhar eleições. Querem pegar a rabeira do Lula. Um processo semelhante ao que foi feito em outros partidos está ocorrendo no PSOL. Devemos lembrar da história dos partidos pós anos setenta. O MDB tentou corromper o PT, chamando-o para o centro. O mesmo fez a direita no interior do PSDB. O PT resistiu ao MDB. Mas acabou sendo seduzido pela direita e enfiou o Meirelles e a “Carta aos Brasileiros” goela abaixo de muita gente. O governo Lula fez o que fez: deixou as ruas e foi fazer a política a partir dos “de cima”.  Agora, a missão do Lula é continuar esse tipo de coisa. Na prisão, para angariar militantes fanáticos, passou a mentir dizendo que havia sido preso pelos Estados Unidos. Ele não seria o Lula que fez Bush e Obama o elogiarem, mas sim um terrível, porém barrigudo, Tchê Guevara. Meu Deus! Aquelas entrevistas do Lula na prisão eram um martírio, aguentar aquelas mentiras foi algo chato. Agora, fora da prisão, Lula vai articulando todo tipo de político, até os que o PT inventou de chamar de “golpistas”. Ele quer voltar à presidência. A desculpa, até válida, é que Bolsonaro é uma peste. Mas se é uma peste, o PT deveria estar trabalhando pelo Impeachment nas ruas. Não está.

Caso o PSOL consiga se encaminhar pelos que estão criando a candidatura Glauber, o partido irá existir, caso não, poderá ficar nas mãos do lulista Boulos, que é um rapaz filho de médicos ricos e que inventou de imitar o Lula e ser líder de alguma coisa. Virou um tipo de aspirante a Lênin profissional. Formado pelo PCB e com mentalidade de PCB, Boulos parece querer o partido só para ele. Ele deveria sair do armário, como fez Jean Wyllys. O PT o abrigaria. Mas talvez ele fique no PSOL exatamente para ter um partido que seja dele como o próprio Lula fez com o PT. Há um vanguardismo no Boulos, coisa de esquerda velha e carcomida, que se tornou irritante. E isso já vem desde 2013, quando ele se colocou indignado com o movimento de rua (principalmente o do Rio), que caminhava na horizontalidade. Ele queria organizar o movimento, tirar os que ali estavam reivindicando coisas que ele, Boulos, qualificava como de direita.

Volto a dizer: o PSOL independente é um partido necessário.

Paulo Ghiraldelli, 63, filósofo