Byung Chul Han não teve ainda o prazer de conhecer Bolsonaro

Todos nós sabemos que, quanto ao corpo, nossa tendência atual é um tanto contraditória. Ao mesmo tempo que privilegiamos o corpo e, inclusive, o valorizamos nos projetos atuais de identidades de grupos, também descorporalizamos a nós mesmos, participando cada vez mais de um mundo digitalizado em que a presença física é substituída pela virtual.  Vivemos não mais na sociedade disciplinar, estudada por Foucault, e sim na sociedade do controle, preconizada por Deleuze. Na primeira, as disciplinas atingiam o corpo para conformar o espírito. na segunda, somos aqueles que possuem uma senha para participar de plataformas que nos fazem imitar a atual situação do dinheiro: sem referência, transitamos como sinais magnéticos e nos controlamos uns aos outros. Nessa sociedade, o corpo é apenas imagem.

O corpo descorporalizado é um corpo sem dor. E se ele ainda é físico, que seja englobado pelo projeto moderno da busca da vida sem dor. Esse é um ideal de nossos tempos.

A vida sem dor é um ideal egoísta e narcísico, que nos permite desconsiderar o Outro. O ideal do neoliberalismo, de individualização máxima, se associa ao ideal médico, que é o de vida sem dor. O livro mais atual de Byung-Chul Han trata exatamente disso, do que ele chama de “sociedade paliativa” (Sociedade paliativa. Petrópolis: Vozes, 2021).

“A sociedade paliativa é, ademais”, diz Byung-Chul, “uma sociedade do curtir. Ela degenera em uma mania de curtição. Tudo é alisado até que provoque bem-estar. O like é o signo, sim, o analgésico do presente. Ele domina não apenas as mídias sociais, mas todas as esferas da cultura. Nada deve provocar dor”. (p. 14). Han critica corretamente nossa incapacidade de levar em conta o outro, nossa distância para com os toques originais das mãos que curam, cuja memória poderia nos dar a dimensão da solidariedade e nos tirar do narcisismo neoliberal. Todavia, em algumas passagens, falta a Han uma maior riqueza de perspectivas. Ele não tem a nossa experiência com Bolsonaro.

Por isso mesmo, Buyng Chul Han participa um tanto que acriticamente da visão de vida nua de Agamben, aplicando-a à situação da sindemia de covid. “O prolongamento da vida a todo custo avança globalmente a valor supremo, que invalida todos os outros valores .Pela sobrevivência sacrificamos voluntariamente tudo que faz a vida digna de ser vivida. Em vista da pandemia, adota-se sem questionamento ainda a limitação radical de direitos fundamentais. Sem resistência, sujeitamo-nos ao estado de exceção que reduz a vida à vida nua” (p. 34)

Tomada de modo abstrato, essa postulação teórica de Han pode ser válida. Mas assim posta, como que em relação à sindemia de covid, ela parece desconsiderar os movimentos de protesto da direita na Europa, contra medidas restritivas de ir e vir. E pior, ela mostra não saber que, no Brasil, Bolsonaro se colocou como o paladino da liberdade individual diante de medidas restritivas vindas de governadores que disseram ouvir a ciência para promover o lockdown. A sobrevivência foi jogada às favas, principalmente a sobrevivência dos mais pobres e mais vulneráveis. Penso que se Buyng-Chul Han vivesse no Brasil, teria pensado mais vezes antes de escrever o que escreveu.

Aliás, é significativo que a maior parte dos filósofos europeus, mas não os americanos, deram mais importância aos tais direitos fundamentais que seriam perdidos do que as vidas que foram perdidas. A história da Europa é uma história de vagalhões de regimes preocupados em cercear o indivíduo. Mas a história da América é diferente. Há uma corrente libertária de direita nos Estados Unidos. E no Brasil, Bolsonaro assumiu de vez o anarcocapitalismo. Sua prática é a de desobedecer todas as regras civilizatórias. Até mesmo as regras que ele sanciona ele desobedece. Ele se tornou o Bolsovírus, um homem mutante cuja ação pessoal e política tem como objetivo o favorecimento do vírus, a adoção de um tipo de genocídio em favor da esdrúxula posição que advoga que o melhor modo de enfrentar a covid é a aquisição da imunidade de rebanho.

Talvez por isso mesmo eu tenha ficado sozinho nas esquerdas. Nenhum outro filósofo de esquerda quis analisar a sindemia. Filósofos brasileiros precisam de filósofos europeus para falar alguma coisa. Só que dessa vez não puderam copiar, dado que o que os europeus tem falado, pelo que vi, pouco ou nada tem a ver com o que ocorre por aqui. Então, ficaram calados. Nem mesmo conseguiram atualizar a noção de biopolítica através do conceito de sindemia. Por isso mesmo a filosofia no Brasil se calou diante da covid. Falei sozinho. Dois textos que fiz, falando do Bolsovírus, não obtiveram interlocutores. Os filósofos brasileiros ainda nao conseguiram entender Bolsonaro e muito menos sua relação com a covid. Vão comprar o livro de Han, e vão se calar ainda mais.

Paulo Ghiraldelli, 63, filósofo

 

Compre o livro clicando na imagem