Rorty: a andorinha solitária que faz verão

Publicado na revista Cult

O “filósofo do contra” desafia o capitalismo e o socialismo, despreza a social democracia “domesticada” e busca uma autêntica terceira via: a “nova velha esquerda”

Quando Trotsky foi assassinado, em 1940, o terror tomou conta da maioria daqueles estadunidenses que, permanecendo socialistas, haviam rompido com as diretrizes do Partido Comunista. Essas pessoas se viram encurraladas. De um lado, estavam sob as acusações de “antiamericanismo”, de outro lado, tinham em seus calcanhares os agentes secretos de Stalin. Havia poucos lugares para se refugiar. Mas a pequena Flatbrookville, nas margens do rio Delaware, em New Jersey, pareceu um bom esconderijo para John Frank, um dos principais secretários de Trotsky. Por alguns meses, Frank se manteve seguro ali, hospedado na casa de um dos homens que haviam acompanhado John Dewey na célebre Comissão de Investigação a respeito de Trotsky, de 1937. Sob pseudônimo, Frank viveu naquela boa casa de família. Ali morava o filho do casal, um menino pré-adolescente: Dick – mais tarde, nas capas de livros: Richard Rorty.

Os pais de Rorty romperam com o Partido Comunista em 1932. Um amigo da família, Sidney Hook, fez o mesmo naquele período. Nova Iorque dos anos 1930 viu surgir em seu ambiente intelectual muitos socialistas. Eles foram abandonando o marxismo para adotar senão o pragmatismo, ao menos o socialismo democrático ou, mais especificamente, o liberalismo radical de John Dewey. Hook, um desses homens, gastou uma vida tentando articular os pensamentos de Marx e Dewey. Mas a maioria dos intelectuais daquela época, de fato, deixou Marx de lado de uma vez por todas.

Há em Rorty algo daquele tempo, ou seja, o sonho da construção de um mundo melhor por meio de uma América exemplar, aquela terra cantada pelo poeta Walt Whitman, que faria a igualdade e a liberdade não se acotovelarem tanto. Mas, de fato, Rorty se distanciou de seus pais e do clima do ambiente cultural em que foi criado – esse relativo distanciamento lhe deu a originalidade que veio a marcar sua carreira. Se vários intelectuais de sua geração e posteriores gastaram anos procurando algo como a chamada “autêntica terceira via”, uma posição que pudesse estar entre o capitalismo e o socialismo sem ser a domesticada “socialdemocracia” do Pós Segunda Guerra Mundial, Rorty apareceu na cena internacional de modo diferentemente incômodo, devido a uma independência incorrigível. Um “filósofo do contra”, como ele mesmo se qualificou – essa tem sido sua marca. Isso o fez criar a expressão do que seria o seu “partido”: uma “nova velha esquerda”, ou seja, os ideais do New Deal renovados a partir de uma radicalização da liberal-democracia.

Seus dois livros mais conhecidos, Filosofia e o espelho da natureza (1979) e Contingência, ironia e solidariedade (1989), irritaram vários de seus colegas da filosofia acadêmica. A partir daí, seus escritos foram se tornando cada vez mais capazes de gerar inimigos entre as fileiras dogmáticas. Nem mesmo os seguidores de Dewey, de quem ele se disse discípulo, quiseram lhe dar guarida. Tanto suas críticas quanto seus endossos em relação à filosofia de Dewey causaram inquietação.

A crítica a Dewey, feita por Rorty, gerou inconformismo. O que tal crítica afirmava é que Dewey tropeçou feio ao querer responder de modo positivo e epistemológico às questões sobre a verdade – em geral as formuladas por Bertrand Russell. Elas simplesmente não deveriam ser respondidas, uma vez que o pragmatismo nada deveria dizer sobre a “natureza da verdade”. O pragmatismo seria mais coerente ficando nos limites de uma descrição do uso do predicado “verdadeiro” em nossa linguagem.

O seu elogio a Dewey causou incompreensão, pois Rorty traduziu o método da “re-significação da experiência” de Dewey na simples criação literária da redescrição – o seu próprio método, que seria a melhor forma de o pragmatista atuar filosófica e politicamente. O melhor exemplo do método da redescrição foi dado por Rorty em seu elogio a Freud: este teria sido um dos pensadores mais importantes do mundo contemporâneo na medida em que criou uma nova auto-imagem do homem, não mais um indivíduo com uma mente unificada e transparente para si mesma, e sim um indivíduo complexo, cujas crenças e desejos se agrupam em vários centros, muitas vezes gerando quase vários “eus” em um mesmo indivíduo.

O engajamento filosófico e político de Rorty ficaram marcados pelo atrevimento. Filosoficamente, ele criou a figura do “liberal ironista”. Politicamente, ele definiu o que seria o militante de uma “nova velha esquerda”.

O liberal ironista seria aquele que politicamente adota a democracia como a situação social na qual quer viver – e por isso é liberal. E, no entanto, não se preocupa em evocar filosoficamente algo como “Razão” ou “História” ou “Natureza” ou “Sociedade” para ser o fundamento da afirmação de que o melhor regime é o democrático – e por isso é um ironista. O liberal ironista é aquele que não tem a tranqüilidade que possuem os que eliminam a priori, por conta de fundamentos filosóficos, o germe de contingências antidemocracia que toda democracia verdadeira contém.

O militante da “nova velha esquerda” seria aquele que não vê utilidade na posição de esquerdistas estadunidenses que fundiram Marx, Nietzsche, Foucault e Derrida para vir fazer “política cultural” no interior das universidades, em detrimento da “política real” que poderia continuar a ser feita considerando os espaços da vida política norte-americana e, inclusive, os do Partido Democrata. Seria aquele que colocaria a fala crítica de Chomsky, por exemplo, por ela menos atrair os setores populares para mudanças do que afastá-los por conta de certo antiamericanismo que corre solto no discurso do esquerdismo. A “nova velha esquerda” seria radicalmente democrata, defenderia as ampliações da liberdade tanto quanto as da igualdade e assim agiria considerando uma “política de resultados”. Cada ganho democrático pontual é o que é mais importante.

Usando desses parâmetros, Rorty, nos últimos vinte anos, tem-se dedicado não só à publicação de seus papers mais técnicos em filosofia, mas também se envolvido em intervenções jornalísticas que ganharam o mundo, criando polêmicas de toda ordem. Ele compreendeu rapidamente seu papel no cenário internacional. Assim, mesmo vendo todas as feridas expostas pelo ataque terrorista do “September Eleven”, Rorty não hesitou em escrever um artigo dizendo que ele gostaria de, antecipadamente, pedir desculpas ao mundo pelo que o seu país faria dali para diante. Nenhum outro intelectual teve a coragem de escrever algo tão contundente. O artigo foi traduzido para vários países e inclusive para o Brasil (no jornal Folha de S. Paulo). Um ano depois, Rorty escreveu o artigo “combatendo o terrorismo com democracia”, oferecendo soluções para o governo estadunidense caso este quisesse realmente combater as “forças do mal” antes que simplesmente amordaçar a consciência crítica do país.

Ao longo de mais de quarenta anos de vida pública, diferentemente de qualquer outro filósofo, Rorty tem ensinado aos que gostam de ser realmente independentes que a filosofia nada é, no campo político, se o filósofo quer ser pertencente a uma “vanguarda”. Ela pode ser algo útil se o filósofo quiser ser uma andorinha que teima em fazer verão quando todas as outras acreditam que, naquele ano, não há como mudar de região, uma vez que não encontraram um líder para comandar o bando.

Paulo Ghiraldelli Jr.
é filósofo, autor de vários livros e, dentre eles, o recente Caminhos da filosofia. É editor da revista Contemporary Pragmatism (Nova Iorque e Amsterdã). Professor titular de filosofia no Programa de Pós-graduação da Universidade S. Marcos. É coordenador do GT-Pragmatismo da Associação Nacional de Pós-Graduação em Filosofia (Anpof). Site: www.ghiraldelli.pro.br