Erro de Pastenarnack não pode ser perpetuado!

Vencer o senador Girão não é glória, talvez nem dever moral, é apenas uma questão de soltar algumas salivas e pronunciar meia dúzia de palavras. Girão é um tonto. Os bolsonaristas são tontos. Por isso mesmo, deveríamos ficar mais atentos com eles, para vencermos honestamente.

Infelizmente, tanto no dia da presença de Luana no senado quanto no dia de Natália, as musas da CPI, o que se fez ali levou muitos do campo da oposição ao êxtase, mas o que se passou não foi o correto. Só em parte. Eu gostaria de ter comemorado a ida de ambas na CPI, mas ao final, fiquei com vergonha alheia. Já escrevi sobre isso, mas o caso merece mais um texto, pois há ainda dúvidas sobre o ocorrido. Recordo aqui as palavras que a imprensa destacou em todos os lugares, ajudando o Brasil a ficar menos inteligente. Vamos lá:

“É importante salientar que princípios do jornalismo — e da política também — de sempre observar o contraditório, eles não se aplicam para a ciência porque a ciência é um processo investigativo, dos fatos, da realidade. E aí não cabe o contraditório. A ciência não tem dois lados. E isso não é por desrespeitar opiniões alheias, mas pelo modo como a ciência trabalha, que é um processo empírico de investigação” (Natália Pasternack, na CPI)

Que os princípios do jornalismo e da política não valham para a ciência, isso não é tão certo assim. E dizer que a ciência é um “processo investigativo que trata dos fatos, da realidade”, não coloca as ciência naturais acima de jornalismo e da política. Do que trata o jornalismo? Do que trata a política? Ambas tratam da realidade, ambas usam como sinônimo de realidade a palavra “fatos”. Nunca ouvi dizer que o jornalismo e a política tratam só de sonhos ou ficções ou irrealidades, deixando para a ciência a prerrogativa dos deuses, de poder tratar da realidade e, estranhamente, de forma neutra. A frase da Pasternack não se sustenta. No limite, é um erro.

A frase piora ainda mais se levarmos em conta que a microbiologista disse que a ciência é um “processo investigativo”. Ora, mas o que faz o político para saber se o projeto  que lhe cai às mãos é pertinente? O que faz o jornalista quando avalia um caso de corrupção? Usa exatamente de investigaçao e, não raro, seus procedimentos se assemelham em muito com os da ciência empírica. Aliás, em vários casos, se serve da ciência, invocando assessorias. Nos três casos, a investigação é investigação empírica e os procedimentos utilizados possuem muito em comum.

Natália Pasternack tropeça de novo em seguida ao dizer que na ciência “não cabe o contraditório”. Ora, na ciência o que mais cabe é o contraditório. E isso, de dupla maneira.

Primeiro: a ciência se apresenta como uma narrativa, uma teoria, e essa narrativa não é gerada por um conjunto de dados, ela é criada por um conjunto de dados submetidos a hipóteses experimentais. Ao final, essa narrativa pode conter enunciados que se desmentem internamente ou que podem ser desmentidos diante de outras narrativas montadas a partir de metodologias diferentes para tratar hipóteses semelhantes. Esse processo de colocar teorias diferentes frente a frente é a coisa mais comum na ciência. Aliás, podemos inclusive chegar à conclusão que uma teoria se sustenta em um paradigma (Thomas Kuhn), e que em outro paradigma ela não faz sentido.

Segundo: a própria ciência admite em muitos casos duas ou mais descrições para fenômenos que ela qualifica como ontologicamente iguais. O exemplo da dualidade onda-partícula é o mais fácil aqui de ser lembrado. Isso sem contar o exemplo dos que advogam que podemos descrever atitudes nossas por meio da psicologia popular e também por meio de referência a atividades neuronais.

Dito isso, fica claro que Natália Pasternack falou mais do que podia falar.

Os erros da Natália foram provocados por quais motivos? Desinformação? Ou empolgação para lacrar o coitado do tonto do Girão? Ou simplesmente a formação do cientista uspiano está ficando fraca, uma vez que os biólogos não conseguem andar alguns passos para o curso de filosofia da ciência da FFLCH? É sério isso: não dá para USP, com o prestígio que tem, continuar a produzir cientistas que adotam o realismo ingênuo e o positivismo carcomido.

Nosso ensino de ciências precisa mudar, caso contrário um dia só vamos ganhar mesmo do Girão.

Vamos acertar os ponteiros: destruir os bolsonaristas na CPI dizendo que eles forçaram um remédio errado por interesses ideológicos (a imunidade de rebanho) e interesses financeiros (a cloroquina é feita por laboratórios de apoiadores da campanha de Bolsonaro) é mais do que correto. Dizer que Bolsonaro montou um ministério paralelo que cumpriu um função genocida também é correto. Mas, ultrapassar isso para idolatrar um positivismo carcomido, isso não é correto. A oposição não pode disseminar o erro para vencer. O preço de compactuar com esse erro pode amanhã vir a ser o motor de outro genocídio> Pois amanhã ou depois podemos estar diante de um governo que, baseado na ciência tornada religião, venha a matar mais gente não com o remédio errado, mas com o remédio dito mais que correto pelos cientistas.

Paulo Ghiraldelli, 63, filósofo