Uma geração de “autistas” nos governos do mundo

Mariana chegou na idade de falar. A mãe dela, quando da mesma idade, já falava pelos cotovelos e joelhos. Aliás, nem engatinhava! Usava os joelhos para falar. Mariana não! Não falava. Interagia quando queria, e não respondia perguntas que outras crianças na idade dela respondiam. Preocupante.

Filho não deixa por menos. Neto também não! Então, para nos preocupar de vez, Mariana começou a fazer sons esquisitos, repetitivos. Tarde da noite a Paula, minha filha, me chama pelo Whatsapp apavorada: é autismo. “Mariana tá autista!” E eis que lá por Tocantins, no dia seguinte, sai da casa da Paula a Mariana, a Denise, alguns cachorros e todos vão buscar um neurologista. De Porto Nacional para Palmas: todos alvoroçados e com o coração apertado. Uma aventura em busca de especialistas no sertão.

Da minha parte, logo diagnostiquei: falta de interação com humanos, isso é sintoma integrado às sindemias ou pandemias. Não deu outra: após frequentar o fonoaudiólogo, Mariana progrediu e começou a falar. Mas o decisivo mesmo foi a pílula para boneca falar, aquela que a Emília tomou. No caso, a pílula foi negativa, ao invés de darmos algo, tiramos. Arrancamos das mãos da Mariana um instrumento fatal de descanso da mãe: o celular. Alguns meses sem o celular e Mariana começou a falar e agora já até usa a primeira pessoa.

Por esses dias, Mariana mostrou saber os três estados da água. A Paula mostrou o xixi e ela disse que era “líquido”, mostrou o cocô e ela conclui: “é bosta”. Creio que o terceiro estado será antes “pum” que “gasoso”! Mariana não para mais de falar. O celular? Tá escondido.

O que ocorreu com Mariana, e foi interrompido na hora certa, está ocorrendo com milhares de crianças. As estatísticas já mostravam isso antes da sindemia. Com a doença, as coisas se acentuaram. Nunca os pediatras e fonoaudiólogos receberam tantos pais apavorados com o tal “autismo”. Todavia, nem todos os pais, mesmo quando se apavoram, resolvem tomar as medidas corretas. Tirar o celular das mãos da criança? Como? Afinal, os adultos já estão com eles nas mãos sem conseguir sequer olhar para as crianças. Muitos adultos jovens já são, eles próprios, frutos de uma geração que aprendeu mais palavras com a máquina que com a mãe – uma observação pertinente feita pelo filósofo Franco Berardi. O resultado disso, eu garanto, não é bom, basta ver os hábitos dos habitantes do Palácio do Planalto.

O problema todo é que não estamos diante daquela situação que foi denunciada no passado, quando da entrada das histórias em quadrinhos na vida infantil. Também não estamos naquela situação posterior, quando todos puseram seus filhos em cercadinhos e ligaram a TV como babá eletrônica. A internet é outra coisa. O celular é bem outra coisa. O mundo dos algoritmos é um mundo de produção de uma nova subjetividade. Alguns filósofos apelidaram isso de “subjetividade maquínica”.

Quando os quadrinhos e a TV invadiram a vida infantil, é claro que uma plêiade de psicólogos, pedagogos e intelectuais moralistas reclamaram. As crianças iriam crescer “diferentes”. Não há dúvida que sim. Sabemos bem disso, hoje em dia. Mas o caso, agora, não é de crescer diferente. É que agora o que pode ocorrer é simplesmente o não crescimento, o não desenvolvimento, ou seja, podemos estar pela primeira vez diante da criação de ciborgs menos capazes do que seus pais não-ciborgs. O reflexo disso na vida social e na política até já seriam visíveis, dizem alguns. Mas, afinal, qual é de fato o problema?

O problema é o da formação da subjetividade. Hoje em dia, para viver, todos nós temos um só caminho: Google. Ou nos adaptamos a ele para podermos interagir na interface entre humano e máquina, ou simplesmente não temos trabalho ou, melhor dizendo, não temos vida. Vivemos sob o regime do biocapitalismo. Nesse regime, a exploração não é mais a exploração por conta de horas de trabalho, mas simplesmente a exploração durante todo o nosso tempo de vida. Estamos no regime 24/7 e, se ousarmos negá-lo, não temos outro lugar para ficar senão no cemitério. Para estarmos conectado somos obrigados a nos abrir para um excesso de semiótica e uma pobreza de semântica. Pois o que máquina da Internet nos oferece, do modo como ela foi gerada, ou seja, para satisfazer o funcionamento do capitalismo financeiro, tudo se passa a partir de fluxos de símbolos, sem que os enredos semânticos apareçam. Estar na rede é formar uma subjetividade que se locomove por símbolos e não por enredos significativos. O modelo de subjetividade que uma plataforma como a do Google cria é a do rapaz da Bolsa de Valores: ele “lê” símbolos aos quais associa tendências do dinheiro, mas isso nada tem de real, de narrativa, de significado, são apenas pontos luminosos na tela que o conduzem durante horas para o vazio e o aleatório. Ele se ilude achando que sabe algo.

Em um mundo em que a semiótica domina a semântica e a submete a um regime de emagrecimento, os afetos se perdem. Crianças aprendendo mais palavras com a máquina e não com seus pais perdem a confiança nas palavras e no mundo. Não adquirem a ideia básica de distinção entre o real e o simbólico. Essas crianças se transformam em adultos pouco confiantes, desligados da necessária observação do Outro. Ficam menos reflexivos e, certamente, tendem na não entender a carga emocional das palavras. Uma geração inteira incapaz de afetos e solidariedade está sendo gerada. Ela já está adulta, e vai administrar os cargos mais importantes da nação a partir de uma ótica narcísica, quase que “autista”, digamos. Vamos ter dificuldades de evitar o neofascismo gerado no interior do neoliberalismo.

Muitos de nós não percebe que as plataformas digitais nos comandam. Não percebem que estamos em mutação para poder ser o que somos. Não percebem algo simples, como isto: uma boa parte de nós não sabe mais sorrir ou ficar triste, pois seja lá como estamos, informamos nossos sentimentos por meio de um emoticon! O emoticon nada tem a ver com o que se passa conosco. É apenas um desenho que recorta um suposto sentimento, que já ninguém mais lembra o que é, e que serve para que o fluxo de comunicação de pobreza semântica se mantenha. Achar que estamos lidando com emoções ao viver assim é um terrível erro. Estamos é simplesmente eliminando emoções e gerando uma ontologia sem corpo que nos faz completamente cruéis. Um mundo em que a dor desaparece por conta de um emoticom é um mundo em que os corpos estão à mercê da violência, sem quaisquer salvaguardas. Saber da dor e saber que o outro sente dor é a experiência sagrada que nos fez diferentes, que nos fez humanos. O emoticon é o índice do desaparecimento dessa experiência.

A plataforma Google não age desse modo por maldade. Que não inventemos aqui teoria da conspiração. A plataforma Google age do modo que age porque ela tem de adaptar o que há de humano e criativo ao que é do âmbito pouco criativo do algoritmo, para que este se traduza em sinal magnético e, então, alimente o fluxo de sinais que formam a WWW. O mundo algorítmico é necessariamente um mundo semanticamente pobre. O algoritmo funciona como aquele tipo de joguinho em que você anda casas e recebe ordens simples, de ir ou voltar casas. É quase que um milagre que um computador possa “conversar” usando tão poucos recursos e sendo tão burro. Não percebemos o quanto somos mais inteligentes que um computador, e ao nos reduzirmos à linguagem dos algoritmos ficamos burros como o computador. Como no biocapitalismo digitalizado toda a mais valia é retirada socialmente, e como o regime de propriedade privada nos obriga a estar nas redes, não há como não terminar cada dia que passa menos inteligente, mais maquinais, mais ciborgs com QI de símios.

No caso das crianças, tudo isso é um perigo. Mariana escapou. Todavia, se a Paula tivesse percebido o problema mais tarde, ela escaparia? Mas ela própria, Mariana, logo estará de volta às redes, e com falsa imunidade. Pois não há vacina para essa sindemia, a do império do capitalismo financeiro associado ao biocapitalismo digitalizado.

Paulo Ghiraldelli, 63, filósofo