BOLSONARO GOSTA TANTO DE MOTO QUANTO DE CAVALO

Bolsonaro não gosta de moto. Para ele tanto faz moto ou cavalo. O que ele gosta é de ostentar liberdade individual que se apresente como agressão ao que é civilizado. Por isso, o texto do professor Fábio Palácio da Universidade Federal do Maranhão é informativo, mas não permite, ao contrário de suas intenções, explicar alguma coisa de Bolsonaro. “Estética fascista une fantasias de Bolsonaro e Mussolini com motos” (Folha de S. Paulo, 30/04/2021) é o artigo que explica em termos jornalísticos-acadêmicos a estética futurista do fascismo, mas, sinceramente, a ligação disso com o que seria o neofascismo de Bolsonaro, não seduz.

Dizer que Bolsonaro, como Mussolini e grupos fascistas do passado, tem gosto pela máquina, ou mesmo pelo que é maquinal, é enfiar tese acadêmica de quem lê várias coisas, mas ainda está com dificuldade de aplicá-las à vida real cotidiana e política. Aliás, se há um problema com professores da universidade, especialmente hoje em dia, é exatamente este. É um defeito que o Theodor Adorno denunciou no seu tempo, ao criticar o ensino universitário, e que se repete a cada dia hoje. John Dewey fez o mesmo, em relação a todo o ensino. Os professores olham um fenômeno social, encontram algo que parece com que leram, e enfiam a fórceps a tese que aprenderam no mestrado sobre a realidade. Não dá, isso já deveria ter mudado, pois tá ficando velho e chato.

Vamos ao caso efetivo, e mais correto.

A estética de Bolsonaro passa ao largo de máquinas. Ele não tem coleção de carros. Seu gosto pelas armas é o do tiro e não o do revólver ou da coleção (só Eduardo Bananinha curte armas). Nem mesmo de uniforme ele gosta. Ele se formou como paraquedista e não exibe o material de salto. Sua forma de tratar os outros não é a forma maquinal típica dos fascistas. Sua estética pessoal não quer em nada se parecer com a de ditadores tradicionais. Sua pose de corajoso é bravata eventual, na verdade ele age como o político que recebe todo mundo sorrindo e abraça pessoas. Nada a ver com o que Walter Benjamin ou outros da Escola de Frankfurt falaram do fascismo.

Bolsonaro é bonachão, homem-do-bermudão, procura se apresentar como um boa praça e busca ser amigo de jovens que ingressam na carreira militar. Não trata mal as mulheres próximas a ele, salvo se são realmente de esquerda e o provocam – quando fala de mulheres em geral, aí apenas defende a pauta que é a da maioria dos empresários: nenhum direto trabalhista compensatório. O modo dele tratar mulheres e amigos é apenas o do caipirão. Não raro bem melhor que o do feministo e o do identário, que pensam que mulher é “parça” (amigue!). O problema dele é que ele não tem prazer com mulheres, e aí, então, o desdém. De resto, Bolsonaro não é alguém que se põe como líder nato, ele precisa dia a dia construir sua imagem como simbologia que lhe confira poder.

Bolsonaro diz e desdiz. Bolsonaro titubeia. É capaz inclusive de tentar amenizar posições duras. Nada a ver com o poder buscado por uma espécie de absolutismo, desenvolvido por Hitler e Mussolini no passado ou por Pinochet nos anos mais recentes. O populismo de direita da leva de políticos atuais, como Trump, Le Pen, Victor Orban, Netanyahu e outros próximos está bem longe da postura e gostos do General Franco. A tecnologia que Bolsonaro gosta é a do Carluxo, quando este usa redes sociais. Só isso. E gosta dele pela economia de palavras, não pelo efeito maquinal.

Bolsonaro perdeu a cabeça com a Maria do Rosário e com o senador Randolfe, mas em geral ele toma seus remédios, fica dopado, e aguenta o tranco. Em geral ele se mantem bem humorado, ainda que seja por alienação. Quando aparece inchado de manhã, é o efeito dessa drogaria toda.

O ideal do homem novo da Era Bolsonaro é a do homem do povo, do senso comum, tipo ignorantão, e que a única coisa que quer tirar do velho fascismo é a capacidade de dizer um sonoro “não” às regras básicas de etiqueta da civilização. A moto é para ser usada sem capacete, como no andar a cavalo do Velho Faroeste. O mais importante não é andar em velocidade, mas de vez em quando ultrapassar o limite da multa. Tudo que o homem do senso comum ignorantão, que se sente magoado e fracassado pelas regras civilizatórias básicas, quiser encontrar em Bolsonaro para se identificar, ele poderá encontrar. O homem do senso comum ignorantão não suporta o terno e a gravata, e por isso adorou ver Bolsonaro de chinelo na foto presidencial. A desculpa de Bolsonaro era a de estar em convalescência. Ele necessitou de uma desculpa, como sempre. Mas o recado ao gado próprio foi dado naquela ocasião. E nisso Bolsonaro é tão exímio quanto Lula.

Todos queremos liberdade individual após Maio de 68. Mas o que ocorre é que a liberdade individual, para muitos, é ter a liberdade que o dinheiro tem. O dinheiro que é simples sinal magnético parece livre. É autoreferenciado e tem a velocidade estupenda. Liberdade não é mais ter mercadoria. A “calça jeans leve, azul e desbotada” não é mais liberdade, muito menos “descer a estrada de Santos”. Também não é mais liberdade percorrer os Estados Unidos de moto junto de Peter Fonda. Todos esses arremedos da liberdade de 68, que na essência queria mesmo a liberdade de poder controlar a produção da vida, e não essas liberdades banais, nos deixaram ao sabor do neoliberalismo quando as coisas começaram a tomar o rumo do pós-fordismo e da financeirização seguida do ato de Nixon de acabar de vez com o Acordo de Breton Woods.

Há na quebra de protocolos feitas por Bolsonaro uma imitação barata da quebra de hierarquias, pedidas por movimentos emancipatórios que inspiraram a esquerda. É a estética do tiozão do chinelo, não a de Mussulini de peito estufado. No efeito real é a derrubada da República para que a Democracia (exclusivamente representativa) seja esgarçada.

O que há de fascista vindo do futurismo de Marinetti, e que permanece hoje, não é o culto às máquinas, mas o culto ao veloz. O veloz é hoje não o foguete e o carro, muito menos a moto. O que há de veloz hoje é a infosfera e a sua produção do dinheiro a partir do dinheiro, sem a mercadoria intermediando. O homem de Bolsonaro gosta dessa velocidade. Ele adora farialimers! Até acredita que pode ser um deles. Mas não tem liberdade e nem velocidade para tal. Ela, a vida do dinheiro mais que a vida da pessoa que parece ganhar dinheiro, é o ideal. Mas ter esse ideal também o magoa o Homem Novo do bolsonarismo. Em boa medida, ele sabe que o que chega veloz, mesmo, é a data do pagamento do carnê – e não da sua Mercedes, e sim da sofá surrado das Casas Bahia. Isto sim, é o que há de mais atual, posto pelo neoliberalismo sobre todos os trabalhadores. Esta é a disciplina posta sobre a vida de todos nós.

A estética de Bolsonaro é a estética de Presidente Prudente no banheirão do Exército! A velocidade da chapuletada da toalhada seguida de gritinhos transviados.

Paulo Ghiraldelli, 63, filósofo.