Mais um conto de escola

 

 Quando eu penso na época em que era criança, na escola, eu realmente não entendo o que passava na minha mente. Êta cabecinha confusa, meu Deus. Eu entendia perfeitamente as atividades escolares, os trabalhos para casa, as somas, a caligrafia, e era boa aluna, sim. O que me causava confusão era tudo fora disso: qual horário era o intervalo, se cada época parecia ser numa hora diferente? Qual horário era de ir embora? Quando era o dia da aula de religião, para colocar, na mochila, o livro?  E o problema não era somente de ordem cronológica, mas também não entendia certas dinâmicas sociais: Porque, raios, as crianças corriam no intervalo? Qual o problema em ter somente um amigo?

Naquele dia, eu havia chegado atrasada, como sempre. Minha mãe, como inúmeras mães, trabalhava muito, e nem sempre conseguia com que eu chegasse antes do horário. Eu entrei na sala, e havia um silêncio sepulcral. Imagine, uma sala de crianças de 7 anos, todos quietos. Entrei muda, e sem fazer um único som e espremi até a minha carteira. Tinha uma folha mimiografada (pessoas dos anos 80 vão entender), escrito meu nome. E eu respirando interrogações, sem ter ideia do que estava acontecendo. Olhei prum colega, gesticulei com a boca sobre o que era pra fazer, e ele fez sinal com a cabeça, na direção da folha, e disse: é pra responder.

Bom, responder questões? Isso eu sei fazer. Mas estava tensa. Olhei pro papel e, juro, não fazia ideia da onde vinham aquelas questões. Eu não sabia nem a que matérias eram relacionadas. O que nós fazemos quando não sabemos algo, hoje em dia? Google né. Não tinha Google. Então, eu fui direto à fonte do conhecimento, claro! O livro didático. Português e matemática eu já havia entendido que não era sobre aquilo de que se tratava a folha misteriosa. Abri o de “ciências sociais”, o famoso compêndio de todos os assuntos que não eram de português e nem de matemática. Ninguém tinha materiais em cima da mesa, então, eu, prá não ser a “diferentona”, abri timidamente o livro sobre a pernas, e parti em busca das respostas.

Havia um colega do lado que se chamava Luciano (e eu não poderia esquecer esse nome). Ele parecia uma bonequinha que eu tinha, carequinha e de olhos bem grandes. O menino gritou, gente. Gritou:

– PROFESSORA A PAULA ESTÁ COLAAAAAAANDOOOOOOOOOOOOOOOO NA PROVAAAAAAAA.

Sim, minha gente, podem rir. A folha, era uma folha de prova. Eu era nova na turma, e nunca tinha tido uma prova. Pelo menos, não tão séria, tão silenciosa, tão sistemática. Além disso, não estava escrito “prova”. Estava escrito “atividade”. E eu levava as coisas escritas muito à sério (pelo menos até a chegada do finado Orkut e do atual Facebook, que vieram para quebrar esse meu paradigma). Mas o fato é que era uma prova, e eu estava olhando no livro. Em outras palavras, e do ponto de vista de quem viu a cena: eu estava colando. Eu não sabia que era uma prova, eu cheguei atrasada e perdi a explicação. E eu não lembrava que era dia de tal acontecimento (já comentei sobre meu problema com a cronologia dos fatos na infância, né?), e eu também não sabia que estava colando. Eu não sabia o que sequer era “colar”, a não ser quando eu via, na TV, a Chiquinha pedindo cola para o Chaves, durante a prova do professor Girafalles.

Ouvir meu nome em voz alta, me despertou uma tremedeira, e tudo, tudo ao redor sumiu. Foi como ser jogada num quarto escuro. Só tinha a voz da professora, que, sem titubear, logo em seguida à acusação, e num tom muito comum das professoras da época, quando estavam bravas, disse:

-A SENHORA Paula está colando???

Eu odeio sarcasmo até hoje. Eu não era uma senhora, e eu não estava colando. Colar envolveria conhecimento prévio sobre a situação, e eu juro, gente, eu não sabia. E eu não consegui responder. Eu suava frio, e eu lembro de ver o suor escorrer nas mãos. Talvez eu tenha gaguejado algo. E lembro só que fazia imensa força pra não chorar, pois mais humilhante que aquilo, seria chorar como um cachorro com medo, né? Eu lembro que ela começou a gritar um enorme sermão, e tirou meu livro. O blush bem vermelho (alô, anos 90!) e os olhos pintadíssimos dela foram se fundindo num borrão só, junto com a voz que, na minha lembrança se parece muito alta e rouca. Eu não consigo lembrar do q eu ela disse, pois na ocasião eu não entendi. Aliás, eu nem sei como eu não desmaiei.

E eu passei o restante do tempo congelada, sem conseguir me mexer, e dentro de mim só tinha a pintura do Munch, “O grito”, sabem? E ele gritava assim: O QUE VOCÊ FEEEEEEEEEEEEZZZZZ?!?! Pois é. Assim que o primeiro entregou a tal “prova” e eu vi que poderia sair, entreguei a minha como estava. Sem fazer ideia do que eu deveria ter escrito. Saí em esgueirando como um rato. Saí, e encontrei, logo depois minha única amiguinha (Kew, um salve pra você!), e ela não tocou no assunto. Eu também não, apesar de que eu queria muito me explicar para ela, explicar que eu não era uma pessoa que fazia coisas erradas, eu não era criminosa.

Eu queria ter explicado pra professora também. Mas eu não pude. Às vezes, eu dou risada contando essa história. Às vezes, eu lembro da sensação de fora da lei, da vergonha, e tenho vontade de chorar. Lembrar da situação ainda me entristece, pela injustiça da coisa, e pela minha incapacidade de reagir. Pela estupidez e falta de tato da educadora. Talvez eu seja sensível demais?  Talvez. Mas quem não é, aos 7 anos? E eu nunca imaginei que essa situação poderia ter me rendido um trauma, até recentemente, quando fui fazer uma prova da minha antiga faculdade. Era uma prova difícil, e em dupla. O professor teve um problema e precisou sair da sala, demorou uns 30 minutos, e assim q ele saiu toda a sala abriu o celular em busca do… Google, claro! Meu amigo, o da minha dupla, não fez diferente:

-Miga, bóra gabaritar essa prova! Foi Deus que tirou esse homem da sala.

(Já com o celular em mãos.)

Minhas mãos começaram a suar, e eu disse pra ele que não, prá irmos fazendo sozinhos, que o professor ia chegar. Ele me ignorou, totalmente, até porque eu não consegui ser enfática o suficiente. E eu, com o dilúvio em forma de sudorese.
-Ei, melhor não.

-Amiga larga de bobagem, olha pra sala!

(Fazendo sinal com as mãos, apontando os outros.)

Eu olhei, e a prova, nesse momento tinha virado uma grande prova coletiva, com participação do Google. Mas eu não vi por muito tempo, porque eu fui lançada num quarto escuro novamente, com uns borrões de blush e palavras roucas e gritadas. Sim, meus amigos, eu passei muito mal. Vinte e cinco anos depois, e eu tive uma crise de pânico. Meu amigo, vendo a situação sem entender nada, disse pra eu sair um pouco que ele ia fazendo a prova. E eu, sem pensar no que estava fazendo, saí me esgueirando, como um rato.

Professora, Dona Sílvia. Tia Sílvia. Se eu pudesse te dizer algo, diria que é preciso contextualizar os alunos das atividades, e aos 7 anos, é preciso contextualizá-los muito bem, muito especificamente. Ninguém “cola” com sete anos. E, principalmente, é preciso diálogo, e não gritos. Dar a eles a chance de se explicar, civilizadamente, pois estamos em constante aprendizado quando se trata de regras. Cada novo universo que adentramos, e suas regras, requer clareza pra entende-las. Crianças precisam e devem ser tratadas como seres humanos, e privá-las do direito à resposta, com gritos e imposições não é um tratamento humanitário. Acredito que isso serve para todos os alunos e contribui para a formação do caráter de uma pessoa.

Ah, e eu dei a bonequinha carequinha embora, na semana seguinte, pois parecia que a qualquer momento ela ia gritar:

– A PAULA ESTÁ COLAAAAAAANDOOOOOOOOOOOOOOOO!!!

Paula Ramos Ghiraldelli

Um comentário

  1. Relaxa guria, o que tu fez foi irado! Também entrei na escola nessa época, 1987, era todo certinho, e o que mais queria era ser marginal mesmo! Mas estudava no Anchieta, em Porto Alegre, meio construtivista, diziam, e não havia provas nem notas, a avaliação era por atingimento de objetivos, não havia como colar, porque consultar era permitido mesmo! Minha primeira prova foi na 6ª série, quando fui para um colégio tradicional marista, em Passo Fundo. Foi só lá, já na adolescência, que virei marginal, a primeira cola só veio na oitava série!! “Save Ferris” prá você, save Paula!

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