Covid é sindemia. Os médicos chegaram tarde ao que dissemos no começo de 2020

 

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O editor da conceituada revista científica The Lancet avisou que a Covid-19 não tem mais a ver com uma pandemia, mas sim com uma sindemia. Esse termo é agora usado para explicitar que a doença é fruto de uma sinergia. Mais que um fator causa a doença em seu necessário espalhamento. Em outras palavras: a doença não deve ser vista como elemento natural, mas social, e o combate que se deve dar a ela não é algo médico, mas político.

Como se vê, os cientistas precisaram de anos de estudo para chegar a essa conclusão que, para nós, sempre foi evidente. Eles se basearam em pesquisas que fizeram em populações de baixa renda, em relação a outras enfermidades, em que as comorbidades presentes eram o verdadeiro canal para as novas doenças.

Infelizmente, esse atraso da ciência realmente ocorreu. E isso devido ao que Charles Snow chamou, em 1959, de “as duas culturas”, ao se referir a um muro existente entre os que estudam humanidades e os que estudam ciências. Se os médicos tivessem uma formação um pouco melhor teriam lido Foucault e absorvido o conceito de biopoder. Veriam que nenhum vírus poderia nos atingir se não viesse, como é o caso do poder moderno, a se manifestar como agentes do poder exatamente porque este mira a nossa vida biológica. A covid nasceu na polis e só se tornou mortal na polis e por conta da organização da polis. Nasceu política e nos atingiu politicamente. Foi favorecida pelos mecanismos vigentes de biopoder. Não à toa houve diferença em número de mortos de país para país, e internamente, entre classes sociais. A diferença foi política, não médica.

Escrevi na Folha de S. Paulo (O grande ataque do Bolsovírus) e no livro Pandemia e Pandemônio (CEFA, 2020) sobre o assunto. Junto com Mariangela Cabelo, alertei que não iríamos nos livrar de um vírus político sem fazer política, que estávamos nas mãos da ação do biopoder. Falei que teríamos de trabalhar no âmbito político para nos livrar do problema ou ao menos amenizá-lo. Ninguém ouviu. A área médica no Brasil ficou surda. Alguns absorveram o que eu estava dizendo de modo errado. Átila Iamarino foi o caso mais estrondoso de erro: ele achou que estava dando um grande passo ao dizer que a doença era agravada por condições sociais. Não era isso que estávamos dizendo. A doença era social e política, exclusivamente social e política, e nos atingiu por conta de ações do poder moderno que é um biopoder. Biopoder não é um campo de acoplamento de fatores, mas um conceito que nos faz ver que as forças são forças ao nos atingirem em nossa vida biológica. A biolítica era e é o problema. Mas a incultura em Humanidades derrotou os médicos e outros de formação próxima, até mesmo infectologistas.

Um vírus político é combatido com a reorganização da polis, ou seja, com ação política, que  implica em ação arquitetônica e econômica. Um vírus político exige um ação política ampla, uma ação biopolítica eficaz. Indicamos que cada favela teria de ser reurbanizada rapidamente ao lado de um ajuda emergencial substancial (para a quarentena de todos, e não só da classe média), e apontamos para soluções arquitetônicas rápidas já usadas em tempos de guerra. Mas os médicos e outros próximos continuaram achando que o vírus era natural, e apostaram que ele deveria ser combatido com hospitais e vacina. Os hospitais se tornaram cemitérios e a vacina, todos sabiam, não viriam e quando vier não resolverá o problema – e agora a The Lancet admite isso.

Outros fizeram até pior. Optaram por colaborar abertamente com o vírus, apelando para a “imunidade de rebanho”. Bolsonaro fez isso e conscientemente matou 150 mil brasileiros. A prova de que ele é realmente o responsável pela morte saiu agora, em pesquisa, que mostra que nos municípios em que ele venceu eleitoralmente as pessoas não tomaram as medidas de cautela e se deixaram contaminar. Esses municípios tiveram bem mais mortes do que aqueles em que Bolsonaro não ganhou as eleições, e que estiveram, portanto, mais desconfiados quanto aos conselhos do capitão reformado. Trump fez o mesmo que Bolsonaro – e pode pagar eleitoralmente por isso. Eles foram humanos que se fundiram com o vírus no propósito biopolítico do vírus.

Agora, com o conceito de sindemia, os médicos vão tateando e percebendo coisas que nós, a partir do biopoder, dissemos aos quatros cantos, mas que os quatro ventos levaram.

Paulo Ghiraldelli, 63, filósofo