Semiocapitalismo – o que é isso?

 

1.

Não é o mundo virtual que nos faz passivos. Nem é o capitalismo financeiro. O que nos torna ainda mais prisioneiros da “sociedade do espetáculo”, nos fazendo agir como pessoas “do sofá da sala”, na internet e, portanto, e de modo igual a nossos pais e avós na TV, é o conjunto bem entrosado entre o mundo virtual enquanto produto do desenvolvimento capitalista.

O capitalismo produz tecnologia, e não o inverso, ainda que o inverso seja agora verdade. E sobre isso falaremos adiante.

Vivemos como quem espera milagres. Sentimo-nos impotentes e, ao não saber como reagirmos, escrevemos nas redes sociais: “o povo não se revolta!”. Mas, ao escrevemos issso, sabemos que nós mesmos não estamos nos revoltando, estamos apenas soltando gemidos.  A saída da impotência para o campo da ação política, que vai desde a assinatura de um manifesto até protesto de rua ou entradas em órgãos legais com documentos exigindo direitos, é algo aprendido, é um exercício de cidadania da democracia participativa. A democracia representativa, por ela mesma, não educa para isso. Ao contrário,  a democracia representativa tem se esmerado em nos educar para a espera, para a passividade do voto, para a inversão: os candidatos se sentem completamente desligados de nós e são capazes de nos ofender! Não chegamos a participar nem mesmo da cobrança de compromissos daqueles que elegemos!

Mas, enfim, quais os mecanismos que nos tornam tão passivos?

Entre várias narrativas possíveis, capazes de contar algo a nosso respeito no campo da passividade, há uma em especial que chama a nossa atenção. Trata-se da tese do filósofo italiano Franco “Bifo” Berardi contida em seu livro Asfixia. Não vou reduzir a tese. Ela pretende muito mais do que falar da passividade. Chega a dizer sobre como estamos caminhando para um tipo de fim do mundo. O mundo que conhecemos está se envolvendo com a máquina e com a finança capitalista de um modo tal que nossa subjetividade poderá não se reconhecer como tal, de uma geração para a outra, em bem pouco tempo. A covid matando os velhos, talvez ajude a um tal estranhamento não ocorrer.

Sua tese vem em meio a uma forma de protesto: “o calote”. Mas o calote não é só não pagar dívidas que não são nossas, mas é também e principalmente uma maneira de negação. Berardi nos convida a tentar negarmos participação no que ele chama de “redução da linguagem a mais uma forma de troca”. Nesse caso, temos de escapar dessa situação, em específico:

“O signo conectivo se recombina automaticamente na máquina da linguagem universal: a máquina digital-financeira que codifica o fluxo existencial. A palavra é conduzida para esse processo de automação, de modo que a encontramos congelada e abstraída em meio à vida esvaziada de empatia de uma sociedade incapaz de solidariedade e de autonomia”. (p. 20)

O texto de Berardi soa um pouco enigmático se o leitor não tem em mente as relações estreitas entre o campo das finanças e o campo da comunicação digitalizada. Para compreendermos o que ele quer dizer é bom atentarmos para o que ele chama de semiocapitalismo. Trata-se de um capitalismo semiótico que faz com que os sinais proliferem, pois eles são tudo aquilo que é necessário para que as finanças se desenvolvam. Todavia, nesse caso, alguns saberes prévios sobre a própria linguagem são necessários. Explico abaixo para, então, voltar ao campo da articulação entre sinais e finanças.

2.

O cachorro late, o gato mia, a ariranha regouga e a cigarra fretene. Cada animal tem sua voz. O homem não tem voz.  Por isso, o som do homem não recebe nenhum nome especial. O homem é desprovido de voz. Ele tem linguagem. Para apontarmos para algo que seria a voz do homem temos de apontar para a linguagem. Mas a linguagem, sabemos bem, é do homem enquanto elemento da cultura, não é a voz do homem como latido é a voz do cão.

Não há a divisão ou articulação que ocorre na linguagem humana na voz animal. Na linguagem humana surgem duas séries distintas, a dos nomes que significam uma coisa e a do discurso que se faz como um segundo modo de significar. Isto é, a linguagem humana é dividida entre semiótica e semântica. Ela é articulada entre duas séries. De um lado temos um conjunto de nomes que referenciam coisas e de outro lado temos um discurso que pressupõe tais nomes e coloca a linguagem (língua) em funcionamento. Esse funcionamento é feito por cada um de nós, o que, quando ocorre, muda tudo e cria um outro sistema de significação que vai além dos sinais. Nós articulamos as duas séries. Essa descoberta está consagrada por vários estudiosos da língua, em especial por Emílio Benveniste.

A série dos nomes é a dos signos orais ou escritos. Por exemplo: casa (ou o som “kaza”). Trata-se da série semiótica. Enquanto que a série do discurso, a série semântica, é a da criatividade humana que pode combinar os signos: casa em cima de morro ou casa de morro ou caso em que morro (de morte!).

Uma tal descoberta é aproveitada pelo filósofo Giorgio Agamben para explicar a própria origem da filosofia. Podemos ir um pouco mais adiante, seguindo Agamben, exatamente para lembrarmos que nossa atividade cultural é essencialmente hermenêutica. Atentando para isso, iremos entender o que Berardi quer dizer ao falar em semiocapitalismo.

Vamos seguir Agamben na sua especulação quanto ao que seria uma antropologia. Em um belo livro (o melhor dele) chamado O que é a filosofia?, ele diz que um dia no passado, quando ainda éramos hominídeos, a linguagem humana foi exteriorizada e transformada em objeto, então paulatinamente virou algo a ser incrementado, gramaticizado, e deixou de ser transmitida só endossomaticamente, mas passou a ser transmitida também exossomaticamente. Transformou-se em um saber passado de mãe para filho e se fez base de todos os outros saberes. Além disso, consagrou-se como o elemento central de unidade de comunidades, ou seja, da vida ética. De fato, sabemos bem, para o ser humano cumprir sua natureza ele precisa adquirir informação histórica. Ou aprende sua linguagem (ou língua) antes dos doze anos ou nunca falará mais nada que se pareça humano. Ou seja, não usará a linguagem com o seu poder de mensagem. Somos homens que se comunicam porque a linguagem é produzida para nos comunicarmos, e somos homens porque possuímos linguagem – assim nos definimos. Estamos no gap entre natureza e cultura.

Essa divisão entre semiótica e semântica, que está na nossa linguagem e a compõe (enfim, é a nossa linguagem), criou então uma outra dicotomia atinente: signos são da ordem do essencial e discurso da ordem do existencial. Agamben entende, então, que existência e essência (duas grandes categorias da filosofia) derivam de discurso e nomes, semântica e semiótica. Categorias metafísicas emergiram, portanto, da própria formação dividida (e articulada) de nossa linguagem. E a tarefa toda da filosofia tem sido, por isso mesmo, sempre uma hermenêutica – assim foi selado o destino do pensamento ocidental.  Temos sempre de interpretar o que fazemos com a existência, que está envolta com o discurso, uma vez tendo por base o pressuposto da essência, o que está no plano da língua, dos signos. Não conhecemos a civilização ocidental senão com essa tarefa de se reinterpretar continuamente.

Todavia, se prestarmos bem atenção em tudo isso, veremos que nossa fala é, então, fala de linguagem, de algo que foi exteriorizado, gramaticizado e depois reinserido como fala, tornando-se o que chamamos, com certa liberdade, de voz humana, diferente da voz animal, esta sim uma autêntica voz. No limite, falamos por não termos mais voz. A linguagem nos é transmitida, ganhamos a nossa natureza pela história. Mas sabemos que, na linguagem que acionamos, estamos montados em uma plataforma que tem autonomia em relação ao que chamamos de voz humana. Nesse sentido, se nossa fala, o que chamamos de nossa voz, é a linguagem, então é ela que fala em nós. Nos mesmos, se falamos, perdemos a voz. (Heráclito se dizia a voz do Lógos, que este falava por ele, e Heidegger insistiu na ideia da linguagem como não sendo utilizada por nós, mas sendo algo do Ser que se serve de nós).

No limite, a tese de Agamben é a de que “a voz humana não existe”. “Não há uma voz nossa de que possamos seguir o rastro na linguagem, que possamos colher – a fim de recordá-la – no ponto que se dissipa nos nomes, em que se escreve nas letras. Nós falamos com a voz que não temos, que jamais foi escrita.” Assim, diz Agambem, “se falamos, então a linguagem é a nossa voz”; e “como agora falas, isso é a ética”.

Se temos a linguagem como nossa voz, ou seja, se somos de fato um falante novo (o que fala por reinserção da linguagem na voz), estamos a falar, a discursar, a transmitir mensagens e, por isso mesmo, nossa filosofia é uma eterna hermenêutica – e talvez toda a nossa atividade cultural (ou quase toda) não seja senão isso. E se falamos, então somos perfeitamente humanos, e fundamos o reino dos que cumprem um ethos. Somos os seres éticos. Os únicos éticos. Animais e deuses não estão nem aí para a ética.

3.

Dito tudo isso, sabemos então que não é só a filosofia que exige a hermenêutica, a arte de interpretar. Toda a nossa vida é uma contínua arte de interpretar. Sem ela não temos nenhum mundo. Procurar o sentido no que é falado é a nossa vida, o que nos dá “um mundo”. Ora, o que Berardi está dizendo é que o capitalismo financeiro lida não com sentido, mas com sinais, e ele inventou a internet e o mundo virtual exatamente para fazer isso melhor segundo suas próprias características. Claro, para manter o acúmulo do capital, que é o objetivo do capitalismo.

O capitalismo atual desreferenlizou o dinheiro. O dólar é o dinheiro mundial e ele é fiduciário. Ele segue o câmbio que não mais triangula com o ouro, e isso a partir de uma decisão do presidente Nixon nos anos 70. Essa desreferencialização tem a sua contrapartida no mundo das máquinas engendradas pelo capitalismo no fato de que os signos que elas produzem também não triangulam mais. Nenhum signo precisa de referência enquanto um sinal magnético na internet, e muito menos na internet enquanto meio e sustentáculo de operações financeiras. Sinais geram sinais no mesmo diapasão que dinheiro gera dinheiro. Não é uma relação de causa e efeito entre como o dinheiro age e como os sinais agem. Poderíamos dizer, hegelianamente: trata-se do espírito da época. Ou melhor: a modernidade tardia ou capitalismo financeiro. Alguns até diriam, de modo mais amplo: neoliberalismo. Berardi diz: semiocapitalismo.

Assim, se entro na Internet já estou em um mundo dos nomes, da série semiótica, sem precisar da série semântica. Fico em um campo de pseudometafísica, ou seja, pseudo-essência, sem precisar falar em existência. Dispenso a hermenêutica porque não há nada a interpretar, apenas há o que seguir. Todas as operações financeiras que hoje são a base dos bancos, todos eles já digitalizados, são feitas por algoritmos que nos são apresentados sem linguagem, sem as duas séries, mas apenas com nomes, signos. Qualquer pessoa, de qualquer cultura e de qualquer língua, pode ser acessado pela matemática do campo das finanças e pode acessá-la sem que tenha qualquer inteligência que um símio adestrado. Pode operar e fazer o dinheiro produzir dinheiro sem qualquer cultura ou sabedoria que exige corpo, afeto, sensibilidade ligadas às atividades interpretativas chamadas de hermenêutica.

Não há o outro na internet, em especial no campo financeiro. Ora, a primeira lição da hermenêutica era a ter de se colocar no lugar do outro para com-apreender a sua linguagem, sua semântica. Sem imaginar os afetos, desejos, sensações corporais e sentimentos, dificilmente faríamos o exercício hermenêutico. Assim nos ensinou Willhelm Dilthey na transição do século XIX para o XX. Mas se as operações financeiras são sem o outro, toda a comunicação de máquina é um tipo de pseudocomunicação, um narcisismo sem que o Narciso sequer precise de qualquer subjetividade. A funcionalidade maquina dispensa sofisticação subjetiva, fundo subjetivo. Gera-se aí um Narciso que olha para o próprio umbigo, como todo Narciso, sem no entanto ter qualquer umbigo! A internet não dá espelho, dá sinais que nos fazem imitar o comportamento de máquina.

A insensibilidade que isso pode gerar, sem contar as patologias, estão aí para vermos. Basta querer ver. Há toda uma literatura sobre as patologias dos anos noventa e as de agora, em que a infosfera foi acelerada ao extremo.

Todavia, há quem diga que quando entramos na Internet não estamos procurando somente ganhar dinheiro e não estamos só fazendo operações financeiras. O mundo cultural está lá. Sim, mas não da maneira que imaginamos. Pois, nesse caso, é necessário lembrar que a porta da Internet não é mais uma porta escolhida por nós, quando do início da Internet. A porta da Internet é uma porta que se chama Google. E o Google lida com as palavras como se elas fossem moedas. Para ele, elas são moedas.

O artigo do professor Kaplan, “Quando as palavras valem ouro”, nos ensina o que o Google fez da atividade de achar palavras e da ação de indexar palavras. Também nos ensina sobre o modo como a plataforma virtual policia nossa linguagem para que não criemos situações que não possam ser traduzidas em algorítmos, uma fonte de dinheiro das maiores do mundo atualmente. Leia esse artigo! Está tudo lá, de maneira bem didática.

Quando escrevemos, lemos ou algo na Internet estamos agindo por interfaces do Google que operam conosco segundo o objetivo de não nos deixar escapar de um sistema que visa a conexão de sinais, e não a criação de sentido ou descoberta de sentido. Desse modo, a lógica do sistema financeiro se faz na lógica do sinais e ambos criam, juntos e em mútuo apoio, isso que Berardi chama de semiocapitalismo.

Estamos longe do capitalismo semântico, em que o capitalista precisava interpretar a cultura do outro para vender ou comprar ou emprestar. A máquina gera dinheiro que por sua vez gera dinheiro usando sinais que dispensam o homem. Este, pode achar interessante só sacar e usufruir. O problema é que, na praia, ele volta para a máquina. E no sexo, ele volta para a máquina. Ele não tem nenhum aprendizado das palavras com a mãe e corpo da mãe, só com a máquina. Então, nem mais corpo para usufruir. Finalmente a modernidade de Max Weber se realizou: ele dizia que o homem moderno seria o especialista sem inteligência e o hedonista sem coração. Seria especialista sobre o nada e um hedonista que não teria gosto ou sentimento suficiente para curtir, para ser um homem do prazer. Chegamos a isso de um modo que o próprio Weber não entenderia.

Os homens mais velhos, que viveram um dia sem estar no capitalismo semiótico precisam, agora, desaparecer, para não criar estranhezas e desavenças. A Covid veio para providenciar isso. Bolsovírus é o agente mundial de um mundo que não vai mais se estranhar.

Paulo Ghiraldelli, 63, filósofo. 04/04/2021