Lula está por fora. Ou: de novo sobre biopolítica

 

Na entrevista de Lula a Reinaldo de Azevedo (01/04/2021) o ex-presidente disse que estávamos em uma guerra contra a natureza. Para ele, como para a maior parte da esquerda, enfrentamos não uma sindemia, mas uma pandemia. A doença seria algo natural. Restaria portanto – como ele enfatizou – buscar vacinar todos, e promover o lockdown com a ajuda do auxílio emergencial de 600 reais.

A proposta é correta, embora pobre e tímida demais. Mas é o que qualquer um pensaria, fora Bolsonaro. Todavia, os fundamentos da proposta estão errados, e por isso mesmo Lula se mostra uma figura do passado. Nossa esquerda institucional vive no passado.

A doença não é natural, ela advém da política, pois ela foi forjada e espalhada a partir do modo como organizamos a polis, as cidades. E isso tanto do ponto de vista administrativo quanto do ponto de vida arquitetônico. O modelo de vida arquitetônica, em sentido amplo, que o capitalismo financeiro está gerando, e os desequilíbrios advindos disso no âmbito ecológico, já estão faz muito tempo matando na África e na Ásia. Já mataram aqui também. Entre 1970 e 1974, junto com o “milagre brasileiro”, e exatamente por causa dele, perdemos muitas crianças para a meningite. Uma sindemia de quatro anos! No caso da covid-19, o mundo todo foi atingido repentinamente. A ideia do desaparecimento da humanidade de maneira bem rápida, antes posta nos filmes de ficção, agora paira sobre o nosso futuro.

Enquanto não entendermos que a doença pertence ao campo da biopolítica, ficaremos como Lula, no senso comum e sem condições de dar um encaminhamento mais apropriado ao problema que, certamente, voltará a aparecer. As doenças não são para serem jogadas nas costas de médicos e hospitais. Médico é feito para a clínica, e as sindemias não são para a clínica. As doenças são vetores da biopolítica e só com ações biopolíticas poderemos tentar evitar uma catástrofe maior, que virá logo. Obama chegou a fazer discursos sobre isso quando esteve na presidência americana, pois tinha dados sobre o que poderia vir.

Mas, o que é biopolítica nesse caso? Por que as esquerdas, que conhecem o termo, não se deram conta de utilizá-lo para entender o nosso drama? O passado consome a nossa esquerda, que só pensa em “golpe militar” e busca a via fácil do eleitoralismo – mais vale desgastar Bolsonaro que enfrentar a crise atual das mortes. Para nós, o que vale é conseguir colocar o conceito de biopolítica na jogada, pois só assim criaremos situações racionais para enfrentar essa crise e as que virão.

O conceito de biopolítica tem longa história. E nos tempos mais próximos, ele ressurgiu por conta da obra do filósofo francês Michel Foucault. Da maneira que eu o utilizo, essa noção tem mais a ver com os escritos dos filósofos do campo do pós-operaísmo italiano, como Antonio Negri, Michael Hardt, Maurício Lazzarato, Franco Berardi, Carlo Vercelone, Christian Marazzi e outros. A ideia básica está na narrativa que segue abaixo, resumida ao máximo.

A partir dos anos 70, com a desreferencialização do dólar no ouro e com as flexibilizações sobre o capital e atividades bancárias, saímos do fordismo para o pós-fordismo. Deixamos para trás a situação de construção do Welfare State para adentrarmos na situação forjada pelo neoliberalismo. Não me detenho aqui nos motivos disso, para não tornar esse texto mais longo que o necessário. Pois bem, antes, a produção de bens físicos era enorme, fomentava-se a “sociedade de consumo” – o resultado próprio do fordismo. A oferta dirigia a demanda. E para que o consumo se efetivasse, dois tipos de ganho vinham para as mãos do trabalhador: salário direto das empresas e fábricas, e uma espécie de salário indireto vindo do apoio do estado por meio de aparatos urbanos de melhoria da condições de vida. Depois, com o pós-fordismo e com o neoliberalismo, a demanda é que passou a dirigir a oferta. A ideia do estoque zero vingou. A produção de coisas físicas perdeu espaço (tanto nos ganhos e acúmulo do capital) para a atividade rentável no mercado financeiro – as ações das companhias, os derivativos etc. Desse modo, o setor de finanças, através da invenção do crédito para tudo, inclusive para o pobre, passou a ser o sustentáculo do impulso para a continuidade do consumo. Como disseram os neoliberais: sai o estado e entra o mercado na promoção da vida. Concomitantemente, a própria fábrica automatizada levou todos para a sociedade, para trabalharem na sociedade como “empresários de si mesmos” ou coisa próxima disso. Na linguagem empresarial: “capital humano”. As plataformas virtuais cumpriram aí o papel de agências empregatícias e, enfim, também elas, se transformaram em novo negócio do capitalismo. A sociedade passou a ser a fábrica. O tempo deixou de ser dividido em trabalho e não-trabalho, pois na sociedade como fábrica digitalizada todos passaram a trabalhar o tempo todo, ou se divertir consumindo algo na internet, o que também é trabalho. Eis que o capitalismo, então, não atinge mais o trabalho em seu tempo e território, mas abocanha toda a vida humana. Eis aí o biocapitalismo e suas ações que cuidam de nossa vida toda, as ações não de uma política, mas de uma biopolítica. Viver é estar sob o domínio do capital financeiro. Viver é trabalhar achando que se está em lazer e vice-versa. Viver é pegar o crédito consignado para o consumo. Viver é comprometer o futuro com o pagamento desse crédito. Eis aí que a vida é agora inteira possuída por elementos que não permitem a autonomia. Justamente na era do indivíduo que se diz autônomo, todos perdemos a autonomia.

Isso é a condição da biopolítica. Ações sobre a vida e não mais ações setoriais sobre o homem é que se fazem sentir. É nesse quadro que as companhias são virtualizadas. Nessa situação em que tudo é abstrato e cognitivo, e não mais físico, nasce o biocapitalismo ou capitalismo cognitivo. É nessa ordem que o capital se torna ainda mais predatório, pois as companhias não possuem mais donos e não se responsabilizam com o que fazem ao meio ambiente. Além disso, todos nós temos ações ou algo delas, e isso nos faz cúmplices do mercado e apoiadores do neoliberalismo. Nós geramos desmatamento, lixo, agrotóxicos, tráfico de armas e drogas e … covid! Nós ficamos responsabilizados pelo crédito nas lojas e tudo o mais, e a dívida nossa é tomada por nós mesmos como sinônimo de liberdade! Nós mesmos, todos, e não mais uma burguesia, é o que faz estarmos produzindo nossas desgraças. As transnacionais dominam o mundo, os governos, e estão espalhadas pelo mundo sem qualquer respeito ao estado-nação. E sabem não pagar impostos! Os que aplicam no mercado imaginam poder controlá-lo e falam em “capitalismo inteligente”. É possível sim, “capitalismo inteligente”, mas sem a ingenuidade de achar que capitalismo e natural, eterno e que não irá produzir mais crises!

Se compreendemos essa história, então entendemos a noção de biopolítica. Mas aí, se entendemos isso, passamos a ficar com vergonha alheia ao ver Lula dizer que ele pediu para vários líderes mundiais “fazerem uma reunião do G-20” para “discutir a pandemia”. Lula pensa que chefes de estado podem decidir os caminhos do capital. É uma visão infantil. Biden sabe que se ele tocar na questão da patente das vacinas, seus problemas com opositores lhe trará derrotas fantásticas. Mexer aí, para ele, é simplesmente abrir uma guerra que fará com que seu plano de salvação econômica dos Estados Unidos fique totalmente inviável. Lula está por fora de tudo isso.

Paulo Ghiraldelli, 63, filósofo.